Insights e alertas que Harari traz para a educação

Em visita ao Brasil, o pesquisador, professor, historiador e best-seller ressaltou a importância da educação na compreensão da realidade assustadora que vivemos 

Por Priscila Gonsales

Yuval Noah Harari é o intelectual mais citado atualmente quando o assunto é pensar o futuro da humanidade. Autor de três livros, Sapiens: Uma breve história da humanidade, Homo Deus: Uma breve história do amanhã e 21 lições para o século 21, Harari esteve pela primeira vez no Brasil para diversas palestras e entrevistas sobre o que ele considera como os três principais desafios globais: guerra nuclear, mudanças climáticas e inteligência artificial.

Segundo o pesquisador, esses são os desafios que representam ameaças diretas para a civilização e também para a especie humana e que a solução deve ser buscada de maneira cooperativa entre os diversos países, especialmente aqueles que, como o Brasil, não estão liderando o que ele chama de “disrupção tecnológica”. 

E é exatamente nesse aspecto, bastante abordado em seu terceiro livro, 21 Lições para o Século XXI, que há um alerta importante nas entrelinhas para a educação. Qual seria esse alerta?

  • Engana-se quem pensou no “aprender a programar”, tema bastante destacado nos últimos anos como sendo a “nova” alfabetização.
    Harari ressalta a todo momento que ele não entende nada de computação nem sequer usa smartphone. O que ele faz é compreender como a tecnologia funciona e está sendo desenvolvida atualmente, considerando o contexto político, econômico e social. Por exemplo, entender que os dados de todas as pessoas do mundo estão sendo coletados e acumulados em dois locais: EUA e China. Ao trazer uma tecnologia de uma empresa para dentro da escola, para que nossos alunos usem, estamos cientes disso? Consideramos o que pode ser feito no futuro a partir dos dados de crianças e adolescentes coletados por plataformas de gigantes da tecnologia que usamos e divulgamos amplamente?

  • Engana-se quem pensou nas “metodologias ativas ou metodologias ágeis” hoje tão badaladas em toda e qualquer formação docente.
    Pelo menos até o momento, Harari não falou em melhores nem piores formas de ensinar conteúdos. Ao contrário, ele pontua que cada vez mais teremos necessidade de lidar com situações imprevisíveis e que isso só será possível se desenvolvermos nas crianças e jovens uma mentalidade flexível. Estamos dando espaço para o imprevisível em nossas práticas educativas ou elas apenas servem para cumprir melhor as metas de apreensão de conteúdos?
     
  • Engana-se também quem pensou no “aprendizado ao longo da vida” ou “lifelong learning”, algo que sempre foi foco de uma educação de qualidade, mas que agora tem sido a menina dos olhos em diversas pesquisas internacionais recentes sobre competências e habilidades. Por mais que Harari considere importante, o enfoque que ele traz não é apenas no aprimoramento profissional para gerar competitividade no mercado de trabalho, mas sim no conhecimento de si mesmo, incluindo consciência sobre suas próprias fraquezas, já que atualmente os algoritmos de inteligência artificial podem saber mais sobre nós do que nós mesmos.   

O principal alerta para nós educadores envolve a  conscientização sobre as novas formas de manipulação e vigilância que estão sendo feitas por meio de dados coletados pelas tecnologias de inteligência artificial e, claro, compartilhar e incentivar essa reflexão crítica também com os estudantes. 

Se já conseguimos deixar o deslumbramento com a tecnologia de lado para valorizar o “para que” usamos determinada tecnologia, agora precisamos nos atentar para a questão dos dados e fazer melhores escolhas. Não faz sentido tornar escolas instrumentos de fidelização de usuários por parte das empresas que controlam nossos dados.

Não há como prever quais serão os tipos de trabalho que surgirão daqui a 20 anos, mas  hoje já sabemos que se pode manipular comportamentos, opiniões e atitudes por meio dos dados coletados das mais diversas formas, de um simples preenchimento de informações em formulários ou rastros de navegação até expressão facial.

Nesse sentido, será que estamos tomando decisões assertivas em relação às tecnologias que adotamos em sala de aula, com as devidas preocupações em relação aos dados que estão sendo constantemente coletados?  

Em nível macro, Harari propõe aos países em desenvolvimento não evitarem o debate sobre esse tema por acharem que está ainda muito distante da realidade. O mesmo caminho cabe a nós educadores, pois temos o futuro como pauta desde sempre.  

 

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Representantes de universidades de três países da América Latina, Cuba, Bolívia e Peru estiveram reunidos em Lima em um workshop promovido pelo consórcio de universidades flamengas que promove parcerias para apoio financeiro e formação de políticas que respondam aos desafios da sociedade contemporânea. 
Dentre os desafios está a ciência aberta, a educação aberta e o uso de software livre, temas bastante abordados por Priscila Gonsales, diretora-executiva do Educadigital durante o evento. As universidades cubanas presentes ainda tiveram a oportunidade de jogar o Jogo da Política de Educação Aberta para diagnosticar quais são as principais questões que precisam ser enfrentadas e quais as estratégias a serem traçadas. 
Participou também como convidada do evento Silvia Rodrigues, coordenadora de educação a distância da CAPES que apresentou aos participantes toda a história da Universidade Aberta do Brasil e o processo de implementação de política de educação aberta que vem sendo construído desde 2015 com o apoio da Iniciativa Educação Aberta.