Unicamp e Universidade de Bristol divulgam relatório sobre letramentos digitais e inclusão digital no Brasil contemporâneo

O documento foi utilizado como material preparatório de workshop interdisciplinar organizado por ambas as instituições acadêmicas com apoio do Newton Fund e da FAPESP

Para debater o novo contexto da inclusão digital e dos letramentos digitais emergentes no Brasil contemporâneo, o Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, em parceria com a Universidade de Bristol, realizaram workshop interdisciplinar nos dias 13 a 15 de julho de 2021. Com financiamento do British Council-FAPESP Researcher Links, o evento teve o objetivo de estimular vínculos de longo prazo entre pesquisadores do Reino Unido e de universidades do Estado de São Paulo, bem como contribuir para o desenvolvimento pessoal e profissional dos participantes. 

O workshop reuniu dezenas de pesquisadores com até 10 anos de doutorado, convidados a discutir seus estudos atuais com pesquisadores estabelecidos na área e também representantes de organizações da sociedade civil (OSC) brasileiras que trabalham com inclusão digital no Brasil. 

No intuito de ampliar o alcance da iniciativa e inspirar ainda mais novos diálogos e trabalhos de advocacy sobre o tema, o relatório preparatório está disponível para download. O documento foi financiado pela Research England’s Quality-related Research Strategic Priorities Funding e produzido sob uma Licença Creative Commons por Priscila Gonsales, fundadora e diretora da OSC Educadigital, cuja missão há 10 anos é contribuir para novas oportunidades de aprendizagem em uma sociedade em constante transformação, com foco na educação aberta, e na defesa dos direitos digitais.

O relatório preparatório abrange um estado da arte sobre os conceitos de “inclusão digital” e “letramento digital” atualmente válidos nas instituições públicas e no terceiro setor no Brasil. Traz também um panorama do cenário atual da cultura digital, ou seja, um cenário fortemente marcado por plataformas de comunicação, dadificação, algoritmos de IA, vigilância, populismo digital, desinformação sistemática, além da ocupação de espaços cívicos e institucionais por oligopólios empresariais. 

"É importante que o documento seja disponibilizado para que possa incentivar mais pesquisas e estudos na área e estimular mais diálogos entre a academia e aqueles que trabalham com iniciativas de letramento e inclusão digital no governo e no terceiro setor."
Edward King
Universidade de Bristol, coorganizador do workshop

Entre vários aspectos relacionados ao atual momento brasileiro, o relatório destaca que o acesso à internet no país tem sido feito por telefone celular, ou seja, o celular é o principal dispositivo de acesso à internet.  Boa parte da população utiliza um plano mensal de dados pré-pagos, assim, quando o plano termina, as pessoas têm acesso somente às redes sociais como Facebook e Whatsapp, que pertencem à mesma empresa. 

Outro ponto destacado é a educação pública que tem se mantido à parte da discussão de políticas de cultura digital, tais como, apropriação de ambientes tecnológicos e, especialmente, questões relacionadas à construção de marcos legais, tais como, Marco Civil da Internet, reforma dos direitos autorais e Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Durante a pandemia, universidades públicas e secretarias de educação intensificaram a adoção de plataformas das BigTechs sem a devida preocupação com a proteção de dados de estudantes e docentes. 

O relatório também traz exemplos de casos recentes sobre cultura digital, estudos acadêmicos sobre vigilância na educação, projetos de divulgação científica e iniciativas de organizações sociais cobrindo temas da atualidade, tais como, conscientização anti-racismo e anti-discriminação, agenda feminista, dentre outros.  

"No passado, nossa preocupação era que as pessoas tivessem acesso e habilidades para usar a internet em favor do seu crescimento e do desenvolvimento de suas comunidades. Atualmente lidamos com um nível mais sofisticado de problemas advindo justamente do fato de que o acesso se universaliza de formas pouco neutras e os conhecimentos necessários vão muito além de saber usar as máquinas e os serviços: é preciso agora entender o que e a quem as tecnologias usam, e como."
Marcelo Buzato
Unicamp, coorganizador do workshop

Simpósio mobiliza educadores e estudantes para cocriar boas ideias a partir de desafios atuais da educação

Totalmente on-line, o evento tem o objetivo de propiciar a educadores, gestores educacionais e demais profissionais que atuam em formação de pessoas, uma vivência na abordagem do Design Thinking no formato remoto

A estrutura do Simpósio é focada na interatividade com os participantes, ou seja, em vez de palestras, atividades cocriativas, “cases” inspiradores e ideação coletiva. Para conhecer nossa equipe de facilitadores, acesse a página do evento.

Um resumo das ideias geradas em cada dia pode ser lido aqui, basta clicar nas abas abaixo:

No primeiro dia do Simpósio, o tema foi “Cidadania Digital”,  apresentado pela facilitadora Priscila Gonsales, que enfatizou a que trabalhar com cidadania digital envolve criar práticas educativas relacionadas a direitos humanos, além do uso seguro e consciente da internet. 

A primeira atividade em grupo foi compreender os desafios possíveis para esse tema e considerar as pessoas envolvidas. O grupo escolheu fazer um “mapa da empatia” dos professores. Na sequência foram criadas salas de trabalho em grupo para a ideação.

Saiba mais: 
O que é Design Thinking – entrevista com Priscila Gonsales
Apresentação sobre Cidadania Digital
Link para os murais criados: grupo 1grupo 2 e grupo 3

O segundo dia tratou do tema “Educação Híbrida”, apresentado pelo facilitador Robson Santos, que ressaltou como o conceito não é novo, que há muito tempo a educação utiliza diferentes estratégias didáticas para além da sala de aula. Mas que agora, com a pandemia o conceito de “híbrido” vem ganhando força, especialmente pela mediação de plataformas on-line. 

A primeira atividade coletiva deste dia foi compreender as “certezas” e “dúvidas” que o tema traz para só então poder identificar qual o desafio a ser enfrentado. Cada matriz permite elencar diversos desafios, a questão é saber escolher quais os mais urgentes.

Na sequência, o grupo criou uma “persona escola”, para puder retratar as características positivas que a escola como equipamento social oferece, bem como o que ela deixa a desejar. 

E, por fim, os grupos de ideação conversaram sobre possibilidades concretas: grupo 4grupo 5 e grupo 6

Vídeos inspiradores sobre Educação Híbrida:
Missão Galo
Amazônia: laboratório natural

O último dia contou com a participação especial de 5 estudantes do Ensino Médio: Ariane Tobias, de Canindé do São Francisco (SE), Natalhia Viana, do Rio de Janeiro (RJ), ambas do grupo de jovens do projeto Criativos da Escola. Também estiveram presentes três alunas do CIEP Cecília Meireles, de Petrópolis (RJ): Maria Beatriz Alves, Maria Eduarda Kaezer e Viviane Maciel. 

As convidadas vieram cocriar com os educadores participantes sobre o tema Projetos de Vida e Itinerários Formativos, apresentado pela facilitadora Ana Marcia Paiva. Apesar de bastante pertinente, ainda é raro encontrar escolas que envolvem estudantes no processo de concepção e planejamento de itinerários. 

Os participantes todos, incluindo as alunas, fizeram o quadro de “motivações” e “tensões” para compreender melhor o tema e saber quais os entraves de implementação. Fizeram, ainda, a persona “estudante” para uma conexão empática com a faixa etária de quem está cursando Ensino Médio nos dias de hoje. 

Na sequência, as salas de grupos para ideiação de possibilidades. Nos links de cada grupo vai aparecer também os ambientes utilizados nas atividades coletivas gerais: grupo 7grupo 8grupo 9

Esse dia também foi transmitido ao vivo para quem quisesse acompanhar. 

Saiba mais:  

Vídeo sobre Itinerários Formativos da Ana Marcia Paiva

Projetos de vida – educação em valores 

 

 

Educadigital lança novo curso aberto e gratuito

Com alegria que anunciamos mais uma parceria com a Escola Virtual da Fundação Bradesco para a produção e disponibilização de conhecimento aberto e acessível. 

Já está disponível para matrículas o novo curso Inteligência Artificial e o Novo Contexto da Cultura Digital, de autoria da pesquisadora e diretora do Educadigital, Priscila Gonsales.

O curso, no modelo autoformativo — ou autoinstrucional — é destinado a profissionais e estudantes da educação interessados em compreender e refletir sobre as mudanças na cultura digital a partir dos avanços atuais das técnicas de inteligência artificial (IA). 

“É fundamental que educadores ampliem seus conhecimentos sobre questões da atualidade no mundo digital, como Big Data, algoritmos de IA, direitos digitais, dentre outros”, pontua Priscila. 

Outro aspecto bastante relevante sobre o curso é que ele é um remix, ou seja,  parte do conteúdo foi elaborada a partir dos módulos do curso Líder Educação Aberta, criado pela Iniciativa Educação Aberta e UNESCO do Brasil, do qual Priscila é professora e coordenadora. 

Acesse aqui o curso

Conheça outros cursos realizados em parceria com a Escola Virtual da Fundação Bradesco: Design Thinking para Educadores e Recursos Educacionais Abertos 

Nada é grátis, apenas não pagamos com dinheiro

Que os novos termos de uso do Whatsapp permitam ampliar o entendimento e a reflexão sobre como funcionam os modelos de negócio do mundo digital

Priscila Gonsales

Logo no início do ano, usuários do mensageiro instantâneo Whatsapp foram pegos de surpresa com o aviso (ultimato, na verdade!) da empresa de Mark Zubkerberg. A partir de 8 de fevereiro, somente poderão continuar no zap zap se aceitarem os novos termos: seus dados serão obrigatoriamente compartilhados com o Facebook.

O assunto não é de hoje, vem desde quando o Facebook comprou o Whatsapp em 2014. Na época, o discurso que a privacidade seria preservada prevaleceu. Dois anos depois, porém, passou a fazer o compartilhamento por padrão, mas os usuários tinham, ao menos, a chance de impedir alterando as configurações. A partir de fevereiro, ou aceita ou cai fora.

Ao concordar com os termos para poder permanecer, precisamos entender que nosso número do telefone, o endereço de IP e os contatos que temos de pessoas e empresas serão disponibilizados também para o Facebook, já que é por lá que os anúncios publicitários são realizados. Isso vai aprimorar o serviço de perfilamento aos anunciantes, assim como aperfeiçoar os algoritmos que fazem sugestões de amizade, grupos e conteúdos. Há ainda a previsão de possibilitar compras pelo Whatsapp com o Facebook Pay.

Para nós educadores —profissionais ou mães/pais —, a situação surge como uma grata oportunidade para incentivar a reflexão sobre o significado do “grátis” no mundo digital. CONTINUE LENDO NO LINKEDIN

Pilares do Futuro encerra primeira chamada de boas práticas

Plataforma do Educadigital em parceria com NIC.br e UNESCO para promover a educação em cidadania digital terá próxima chamada será em fevereiro de 2021  

Lançada em agosto de 2020, a Pilares do Futuro é uma plataforma totalmente dedicada à busca e compartilhamento de boas práticas educativas em cidadania digital.

Na sequência do lançamento, foi organizada uma Jornada de LIVES sobre temas relacionados à cidadania digital: proteção de dados, diversidade, alfabetização midiática e formação de professores. Todas estão disponíveis aqui.

Em outubro, a equipe da Pilares realizou duas oficinas, uma delas no Movimento Inova, para centenas de educadores e alunos da rede estadual paulista e que já pode ser vista no vídeo a seguir: 

A segunda oficina, para ideação de boas práticas (foto acima), recebeu o nome de Cidadania Digital Design Meeting e ocorreu no dia 28/10.  As 20 vagas foram preenchidas por meio de um processo seletivo, que priorizou diversidade regional.  A oficina teve, ainda, a participação de duas estudantes do Imprensa Jovem da rede municipal de São Paulo. 

Para 2021, estão previstas outras oficinas e formações que serão divulgadas em breve. 

Desde que lançou uma  chamada aberta para educadores enviarem propostas ou relatos de práticas pedagógicas sobre cidadania digital,  recebeu 24 envios nas seguintes temáticas: 

  • Superexposição
  • Alfabetização mediática
  • Cybersegurança
  • Cultura da colaboração
  • Identidade digital
  • Intimidade na internet
  • Saúde mental e física na internet

Algumas práticas já foram publicadas, outras ainda estão sendo analisadas pelo comitê curador, mas até o final do semestre, todas já estarão na plataforma. 

No dia 16/11, Priscila Gonsales, uma das idealizadoras e curadora da Pilares participa de painel sobre práticas em proteção de direitos de crianças e adolescentes no 5º Simpósio Crianças e Adolescentes na Internet.

2019 foi um ano daqueles!

Como precisamos de resiliência e perseverança para esse ano que passou! Mesmo com tanta adversidade, seguimos firmes em nossa missão de disseminar a educação aberta pelo Brasil. E já agora neste fim de ano, para adentrar 2020 em nova perspectiva, ampliamos nosso foco de atuação, trazendo a pauta dos direitos digitais — acesso à informação, liberdade de expressão e privacidade de dados pessoais — para o centro da nossa missão. 

Completamos 5 anos de Design Thinking para Educadores levando formação em práticas pedagógicas abertas para mais de 10 mil professores, gestores, estudantes e também para profissionais de organizações sociais de todo o Brasil.

Nosso material aberto e gratuito foi oficialmente recomendado por redes públicas como apoio na readequação curricular para a Base Nacional Curricular Comum. No Rio Grande do Sul, por exemplo, nossa facilitadora associada, Sandra Mendez, apoiou o processo em escolas de Pelotas e do Chuí. Lançamos novo material igualmente aberto e gratuito, especialmente voltado para resolver problemas de gestão. Fizemos várias palestras sobre inovação em educação e contribuímos com o curso de formação para diretores ingressantes da SEE-SP, com o vídeo: 

Foi um ano importante em reconhecimento internacional de nosso trabalho, ganhamos prêmio e indicação para prêmio por nossa expertise de formação de gestores públicos para a implementação de política de educação aberta. Também fizemos mentoria internacional em eventos da área na Europa (Polônia) e na América Latina (Peru). Conseguimos aprovar o Projeto de Lei sobre Recursos Educacionais Abertos em mais uma comissão na Câmara dos Deputados. Lançamos o Jogo da Política de Educação Aberta, disponível em três idiomas: português, inglês e espanhol. Você já viu nosso novo vídeo sobre a diferença entre recursos grátis e abertos?  

Lançamos um site novo para poder organizar melhor as informações sobre nossas iniciativas, projetos e ações, além de facilitar a que todas as nossas produções — impressas e digitais — realizadas ao longo dos últimos 9 anos possam ser encontradas. 

E aguardem novidades para 2020: novo cursolab de formação de Líderes em Educação Aberta e uma plataforma de compartilhamento de boas práticas em cidadania digital! 

Insights e alertas que Harari traz para a educação

Em visita ao Brasil, o pesquisador, professor, historiador e best-seller ressaltou a importância da educação na compreensão da realidade assustadora que vivemos.

Por Priscila Gonsales

Yuval Noah Harari é o intelectual mais citado atualmente quando o assunto é pensar o futuro da humanidade. Autor de três livros, Sapiens: Uma breve história da humanidade, Homo Deus: Uma breve história do amanhã e 21 lições para o século 21, Harari esteve pela primeira vez no Brasil para diversas palestras e entrevistas sobre o que ele considera como os três principais desafios globais: guerra nuclear, mudanças climáticas e inteligência artificial.

Segundo o pesquisador, esses são os desafios que representam ameaças diretas para a civilização e também para a especie humana e que a solução deve ser buscada de maneira cooperativa entre os diversos países, especialmente aqueles que, como o Brasil, não estão liderando o que ele chama de “disrupção tecnológica”.

Sendo assim, é exatamente nesse aspecto, bastante abordado em seu terceiro livro, 21 Lições para o Século XXI, que há um alerta importante nas entrelinhas para a educação.

Qual seria esse alerta?

  • Engana-se quem pensou no “aprender a programar”, tema bastante destacado nos últimos anos como sendo a “nova” alfabetização.
    Harari ressalta a todo momento que ele não entende nada de computação nem sequer usa smartphone. O que ele faz é compreender como a tecnologia funciona e está sendo desenvolvida atualmente, considerando o contexto político, econômico e social. Por exemplo, entender que os dados de todas as pessoas do mundo estão sendo coletados e acumulados em dois locais: EUA e China. Ao trazer uma tecnologia de uma empresa para dentro da escola, para que nossos alunos usem, estamos cientes disso? Consideramos o que pode ser feito no futuro a partir dos dados de crianças e adolescentes coletados por plataformas de gigantes da tecnologia que usamos e divulgamos amplamente?

 

  • Engana-se quem pensou nas “metodologias ativas ou metodologias ágeis” hoje tão badaladas em toda e qualquer formação docente.
    Pelo menos até o momento, Harari não falou em melhores nem piores formas de ensinar conteúdos. Ao contrário, ele pontua que cada vez mais teremos necessidade de lidar com situações imprevisíveis. E também, que isso só será possível se desenvolvermos nas crianças e jovens uma mentalidade flexível. Estamos dando espaço para o imprevisível em nossas práticas educativas ou elas apenas servem para cumprir melhor as metas de apreensão de conteúdos?

 

  • Engana-se também quem pensou no “aprendizado ao longo da vida” ou “lifelong learning”, algo que sempre foi foco de uma educação de qualidade, mas que agora tem sido a menina dos olhos em diversas pesquisas internacionais recentes sobre competências e habilidades. Por mais que Harari considere importante, o enfoque que ele traz não é apenas no aprimoramento profissional para gerar competitividade no mercado de trabalho, mas sim no conhecimento de si mesmo, incluindo consciência sobre suas próprias fraquezas, já que atualmente os algoritmos de inteligência artificial podem saber mais sobre nós do que nós mesmos.

O principal alerta para nós educadores envolve a  conscientização sobre as novas formas de manipulação e vigilância que estão sendo feitas por meio de dados coletados pelas tecnologias de inteligência artificial. E, claro, compartilhar e incentivar essa reflexão crítica também com os estudantes.

Se já conseguimos deixar o deslumbramento com a tecnologia de lado para valorizar o “para que” usamos determinada tecnologia. Então agora precisamos nos atentar para a questão dos dados e fazer melhores escolhas. Afinal, não faz sentido tornar escolas instrumentos de fidelização de usuários por parte das empresas que controlam nossos dados.

Não há como prever quais serão os tipos de trabalho que surgirão daqui a 20 anos. Mas, hoje já sabemos que se pode manipular comportamentos, opiniões e atitudes por meio dos dados coletados das mais diversas formas. Isso vai de um simples preenchimento de informações em formulários ou rastros de navegação até expressão facial.

Nesse sentido, será que estamos tomando decisões assertivas em relação às tecnologias que adotamos em sala de aula, com as devidas preocupações em relação aos dados que estão sendo constantemente coletados?

Então, em nível macro, Harari propõe aos países em desenvolvimento não evitarem o debate sobre esse tema por acharem que está ainda muito distante da realidade. O mesmo caminho cabe a nós educadores, pois temos o futuro como pauta desde sempre.

Leia também:

Educação aberta e a proteção dos direitos digitais 

Inovar na educação não depende da ferramenta que você usa 

Educação digital nas escolas precisa incluir alfabetização em dados

Curso on-line: Design Thinking para Boas Escolhas

Não se iluda: inovar em educação não depende da ferramenta que você usa

Certificados fornecidos por empresas de tecnologia podem ocultar uma visão restrita e limitada das possibilidades de ensinar, inovar e aprender na cultura digital 


O que é inovar na educação para você? Repare que a pergunta é bastante subjetiva, pede uma resposta pessoal mesmo. Uma resposta que faça sentido na sua perspectiva, no seu contexto como educador(a) e na vida das pessoas com as quais você se relaciona. Inovação é essencial em qualquer área do saber e, não tenho dúvida, continuará sendo daqui a 50 anos, sempre despertando inquietações. No entanto, um ponto é certo: inovar em educação não depende da ferramenta tecnológica que você usa. E mais: nem sempre tem a ver com uso de uma tecnologia digital.

Não é raro ver empresas de tecnologia concedendo certificados específicos para educadores que sabem como utilizar bem ferramentas e aplicativos que elas mesmas produzem e, assim, vão formando uma rede promissora de divulgadores qualificados. São oferecidos cursos e outros atrativos — gratuitos ou não — e a expectativa de fazer parte de um “grupo seleto”.

Acho simpático quando empresas de tecnologia criam ações com a intenção de colaborar com a educação. A educação precisa sim do apoio de todos os setores. Mas qual é o limite? Tanto por parte de quem oferece o apoio quanto de quem recebe? Soube que há escolas contratando apenas professores “certificados” por empresas, algo que me soa preocupante e contraditório com os princípios de uma visão libertária de educação, ou seja, que valoriza as diversas possibilidades existentes de ferramentas e não apenas aquelas produzidas pela empresa X ou Y.

Há quase 20 anos atuando na área de educação e tecnologia digital, tive oportunidade de vivenciar diferentes formas de cooperação entre empresas e escolas, algumas delas bastante assertivas ao concentrar esforços no potencial criativo e autoral de professores e estudantes, independentemente das ferramentas que utilizam.

Só que nos dias de hoje isso não é o bastante. Precisamos ampliar os canais de colaboração entre educadores para promover trocas de qualidade e também fomentar a consciência crítica visando boas escolhas, escolhas essas que façam sentido.

Sou defensora dos recursos educacionais abertos e do software livre, pois permitem uso, reuso e adaptação. Além disso, carregam uma perspectiva baseada em flexibilidade, liberdade, compartilhamento e aprimoramento constante, pontos essenciais para gerar inovação. Para saber mais, assista ao programa da TV Escola sobre o tema:

Entendo, contudo, que algumas escolhas possam privilegiar ferramentas proprietárias, seja pelo serviço de suporte embutido ou pelo hábito de uso. Mas é preciso que tais escolhas sejam feitas com consciência.

Alguns pontos que considero importantes de serem ponderados:

  • Ferramentas gratuitas não são, necessariamente, abertas; para serem abertas precisam ter licenças que definam quais ações estão autorizadas, como por exemplo, adaptações e recriações a partir do código disponibilizado;
  • Qualquer material que você acessa na internet sem usar dinheiro tem um custo, ou seja, sempre há um pagamento oculto ou disfarçado, como por exemplo, o envio de seus dados (interesses, rede de contatos, localização etc) ou dos dados das pessoas de sua rede, escola, instituição;
  • Se você é profissional do serviço público, procure saber mais sobre educação aberta e licenças abertas como fatores fundamentais para o acesso ao conhecimento, principalmente se há fundos públicos empenhados na compra, subsídio ou aquisição de materiais e softwares educacionais. Este Livro-Guia pode ajudar;
  • Se você considera importante receber a certificação por uma empresa de tecnologia, procure saber antes quais as condições e as contrapartidas envolvidas;
  • Certificações que reproduzem a dinâmica concorrente e competitiva do mercado não combinam com a cooperação e o trabalho em equipe de um ambiente educativo;
  • Certificados, títulos ou diplomas não são garantia de qualidade de experiências, práticas e conhecimentos adquiridos.

De toda forma, mesmo que a opção seja continuar usando e propagando ferramentas proprietárias, vale saber se existem alternativas abertas ao que você já conhece e usa. Essa atitude de pesquisador(a) é bem importante para quem deseja inovar.

Considere, ainda, apresentar tais alternativas a estudantes ou outros educadores como forma de ampliar a visão e a escolha consciente deles também.


DICAS

Referatório de Recursos Educacionais com Licenças Abertas
http://www.relia.org.br

Softwares livres para conhecer
https://prism-break.org/pt/ 

Comunidades de troca entre educadores
Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa
Educadores, estudantes, pesquisadores, artistas e diversos interessados em criar e trocar experiências sobre práticas pedagógicas mão na massa.
http://aprendizagemcriativa.org/

Scratch Day
Rede global de eventos de aprendizagem a partir do uso do Scratch, linguagem de programação em código aberto criada em 2007 pelo MIT Media Lab.
https://day.scratch.mit.edu/

Conane
Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação reúne educadores, pais, alunos e interessados em uma educação emancipadora, autônoma e inclusiva.
https://www.conane.com.br/

Afinal, o que é inovar na educação?

No dia 5 de fevereiro, a diretora-executiva do Educadigital ministrou uma palestra sobre Inovação na Educação para um grupo de 300 supervisores de ensino da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo (SEE-SP). A atividade integra a formação em curso EAD organizada pela SEE-SP para diretores de escola ingressantes.

O curso traz um módulo sobre planejamento e gestão com uma vídeo-entrevista com Priscila, que ressalta que os  pontos-chave para a ìnovação —ideia, planejamento e implementação— precisam vir acompanhados de estratégias colaborativas e de valorização de experiências assertivas pré-existentes.

Educadigital indicado ao prêmio WSIS 2019

O Educagital foi indicado na categoria Desenvolvimento de Competências (Capacity Building) na edição 2019 do WSIS Prizes (Prêmio da Cúpula Mundial para a Sociedade da Informação – CMSI), instituição ligada à ONU (Organização das Nações Unidas). Foram 143 indicações nessa categoria; ao todo são 18 categorias, sendo que cada uma delas reflete uma das linhas de ações da CMSI. A cerimônia de premiação acontece em abril, na Itália.


Coorganizado pela UIT (União Internacional de Telecomunicações – a agência da ONU especializada em tecnologias de informação e comunicação), UNESCO, PNUD e UNCTAD, o prêmio existe desde 2012. Para poder participar, é necessário comprovar o trabalho social realizado a partir de experiências de uso e promoção de tecnologias da informação e comunicação que possam ser reconhecidas como assertivas e com potencial de replicabilidade. O prêmio é aberto a participação de governos, instituições de pesquisa e setor privado.

Para Priscila Gonsales, fundadora e diretora do Educadigital, a indicação já é um reconhecimento fabuloso. “Somos uma organização da sociedade civil de pequeno porte, com modelo próprio de operação e sustentabilidade e, mesmo assim, estamos conseguindo disseminar pelo Brasil a importância da educação aberta alinhada a uma perspectiva de abordagem colaborativa de aprendizagem”, ressalta Priscila.    “É muito importante saber que estamos no caminho certo quando o assunto é educar com tecnologias, ainda mais globalmente.”

Criado em dezembro de 2010, o Educadigital é uma organização da sociedade civil que tem como missão contribuir para a criação e o desenvolvimento de novas oportunidades de aprendizagem que estimulem a formação de cidadãos críticos e criativos, capazes de compartilhar informação conhecimento e cultura em uma sociedade digital em constante transformação

Atua na perspectiva da Educação Aberta na Cultura Digital, sendo co-organizador da Iniciativa Educação Aberta com a Cátedra UNESCO de Educação Aberta e a Distância do Brasil, sediada na Universidade de Brasília. Trata-se de um conjunto de ações de formação de gestores públicos e projetos de fomento a políticas públicas de Recursos Educacionais Abertos (REA), com referências e publicações sobre o tema, além de atividades de formação para educadores e gestores.

O Educadigital foi pioneiro ao trazer para o Brasil a abordagem do Design Thinking na educação, por meio de um material aberto e gratuito e de cursos e formações presenciais e a distância.

Priscila Gonsales, co-fundadora e diretora-executiva foi selecionada como fellow Ashoka em 2013, instituição global que identifica empreendedores sociais no mundo todo.