Não se iluda: inovar em educação não depende da ferramenta que você usa

Certificados fornecidos por empresas de tecnologia podem ocultar uma visão restrita e limitada das possibilidades de ensinar e aprender na cultura digital 

O que é inovar na educação para você? Repare que a pergunta é bastante subjetiva, pede uma resposta pessoal mesmo. Uma resposta que faça sentido na sua perspectiva, no seu contexto como educador(a) e na vida das pessoas com as quais você se relaciona. Inovação é essencial em qualquer área do saber e, não tenho dúvida, continuará sendo daqui a 50 anos, sempre despertando inquietações. No entanto, um ponto é certo: inovar em educação não depende da ferramenta tecnológica que você usa. E mais: nem sempre tem a ver com uso de uma tecnologia digital.

Não é raro ver empresas de tecnologia concedendo certificados específicos para educadores que sabem como utilizar bem ferramentas e aplicativos que elas mesmas produzem e, assim, vão formando uma rede promissora de divulgadores qualificados. São oferecidos cursos e outros atrativos — gratuitos ou não — e a expectativa de fazer parte de um “grupo seleto”.

Acho simpático quando empresas de tecnologia criam ações com a intenção de colaborar com a educação. A educação precisa sim do apoio de todos os setores. Mas qual é o limite? Tanto por parte de quem oferece o apoio quanto de quem recebe? Soube que há escolas contratando apenas professores “certificados” por empresas, algo que me soa preocupante e contraditório com os princípios de uma visão libertária de educação, ou seja, que valoriza as diversas possibilidades existentes de ferramentas e não apenas aquelas produzidas pela empresa X ou Y.

Há quase 20 anos atuando na área de educação e tecnologia digital, tive oportunidade de vivenciar diferentes formas de cooperação entre empresas e escolas, algumas delas bastante assertivas ao concentrar esforços no potencial criativo e autoral de professores e estudantes, independentemente das ferramentas que utilizam. Só que nos dias de hoje isso não é o bastante. Precisamos ampliar os canais de colaboração entre educadores para promover trocas de qualidade e também fomentar a consciência crítica visando boas escolhas, escolhas essas que façam sentido.

Sou defensora dos recursos educacionais abertos e do software livre, pois permitem uso, reuso e adaptação. Além disso, carregam uma perspectiva baseada em flexibilidade, liberdade, compartilhamento e aprimoramento constante, pontos essenciais para gerar inovação. Para saber mais, assista ao programa da TV Escola sobre o tema:



Entendo, contudo, que algumas escolhas possam privilegiar ferramentas proprietárias, seja pelo serviço de suporte embutido ou pelo hábito de uso. Mas é preciso que tais escolhas sejam feitas com consciência. Alguns pontos que considero importantes de serem ponderados:

  • Ferramentas gratuitas não são, necessariamente, abertas; para serem abertas precisam ter licenças que definam quais ações estão autorizadas, como por exemplo, adaptações e recriações a partir do código disponibilizado;
  • Qualquer material que você acessa na internet sem usar dinheiro tem um custo, ou seja, sempre há um pagamento oculto ou disfarçado, como por exemplo, o envio de seus dados (interesses, rede de contatos, localização etc) ou dos dados das pessoas de sua rede, escola, instituição;
  • Se você é profissional do serviço público, procure saber mais sobre educação aberta e licenças abertas como fatores fundamentais para o acesso ao conhecimento, principalmente se há fundos públicos empenhados na compra, subsídio ou aquisição de materiais e softwares educacionais. Este Livro-Guia pode ajudar;
  • Se você considera importante receber a certificação por uma empresa de tecnologia, procure saber antes quais as condições e as contrapartidas envolvidas;
  • Certificações que reproduzem a dinâmica concorrente e competitiva do mercado não combinam com a cooperação e o trabalho em equipe de um ambiente educativo;
  • Certificados, títulos ou diplomas não são garantia de qualidade de experiências, práticas e conhecimentos adquiridos.

De toda forma, mesmo que a opção seja continuar usando e propagando ferramentas proprietárias, vale saber se existem alternativas abertas ao que você já conhece e usa. Essa atitude de pesquisador(a) é bem importante para quem deseja inovar. Considere, ainda, apresentar tais alternativas a estudantes ou outros educadores como forma de ampliar a visão e a escolha consciente deles também.


DICAS

Referatório de Recursos Educacionais com Licenças Abertas
http://www.relia.org.br

Softwares livres para conhecer
https://prism-break.org/pt/ 

Comunidades de troca entre educadores
Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa
Educadores, estudantes, pesquisadores, artistas e diversos interessados em criar e trocar experiências sobre práticas pedagógicas mão na massa.
http://aprendizagemcriativa.org/

Scratch Day
Rede global de eventos de aprendizagem a partir do uso do Scratch, linguagem de programação em código aberto criada em 2007 pelo MIT Media Lab.
https://day.scratch.mit.edu/

Conane
Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação reúne educadores, pais, alunos e interessados em uma educação emancipadora, autônoma e inclusiva.
https://www.conane.com.br/

Afinal, o que é inovar na educação?

No dia 5 de fevereiro, a diretora-executiva do Educadigital ministrou uma palestra sobre Inovação na Educação para um grupo de 300 supervisores de ensino da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo (SEE-SP). A atividade integra a formação em curso EAD organizada pela SEE-SP para diretores de escola ingressantes.

O curso traz um módulo sobre planejamento e gestão com uma vídeo-entrevista com Priscila, que ressalta que os  pontos-chave para a ìnovação —ideia, planejamento e implementação— precisam vir acompanhados de estratégias colaborativas e de valorização de experiências assertivas pré-existentes.

Educadigital indicado ao prêmio WSIS 2019

O Educagital foi indicado na categoria Desenvolvimento de Competências (Capacity Building) na edição 2019 do WSIS Prizes (Prêmio da Cúpula Mundial para a Sociedade da Informação – CMSI), instituição ligada à ONU (Organização das Nações Unidas). Foram 143 indicações nessa categoria; ao todo são 18 categorias, sendo que cada uma delas reflete uma das linhas de ações da CMSI. A cerimônia de premiação acontece em abril, na Itália.


Coorganizado pela UIT (União Internacional de Telecomunicações – a agência da ONU especializada em tecnologias de informação e comunicação), UNESCO, PNUD e UNCTAD, o prêmio existe desde 2012. Para poder participar, é necessário comprovar o trabalho social realizado a partir de experiências de uso e promoção de tecnologias da informação e comunicação que possam ser reconhecidas como assertivas e com potencial de replicabilidade. O prêmio é aberto a participação de governos, instituições de pesquisa e setor privado.

Para Priscila Gonsales, fundadora e diretora do Educadigital, a indicação já é um reconhecimento fabuloso. “Somos uma organização da sociedade civil de pequeno porte, com modelo próprio de operação e sustentabilidade e, mesmo assim, estamos conseguindo disseminar pelo Brasil a importância da educação aberta alinhada a uma perspectiva de abordagem colaborativa de aprendizagem”, ressalta Priscila.    “É muito importante saber que estamos no caminho certo quando o assunto é educar com tecnologias, ainda mais globalmente.”

Criado em dezembro de 2010, o Educadigital é uma organização da sociedade civil que tem como missão contribuir para a criação e o desenvolvimento de novas oportunidades de aprendizagem que estimulem a formação de cidadãos críticos e criativos, capazes de compartilhar informação conhecimento e cultura em uma sociedade digital em constante transformação

Atua na perspectiva da Educação Aberta na Cultura Digital, sendo co-organizador da Iniciativa Educação Aberta com a Cátedra UNESCO de Educação Aberta e a Distância do Brasil, sediada na Universidade de Brasília. Trata-se de um conjunto de ações de formação de gestores públicos e projetos de fomento a políticas públicas de Recursos Educacionais Abertos (REA), com referências e publicações sobre o tema, além de atividades de formação para educadores e gestores.

O Educadigital foi pioneiro ao trazer para o Brasil a abordagem do Design Thinking na educação, por meio de um material aberto e gratuito e de cursos e formações presenciais e a distância.

Priscila Gonsales, co-fundadora e diretora-executiva foi selecionada como fellow Ashoka em 2013, instituição global que identifica empreendedores sociais no mundo todo.

Design Thinking e a Ritualização de Boas Práticas Educativas — lançamento

Um fascículo de coleção que virou livro independente e busca enfatizar o potencial motivador do DT para transformar atividades pedagógicas de qualidade em rituais a serem compartilhados ao longo dos tempos


Há exatamente um ano, recebi o convite de uma grande editora para escrever um fascículo sobre Design Thinking na educação que iria compor uma coleção sobre metodologias para uma aprendizagem ativa. Puxa, fiquei muito contente! Com a rotina atribulada, tantos compromissos e atuação muito voltada para a prática, normalmente sobra pouco espaço para sistematizar os aprendizados do caminho. E a iniciativa Design Thinking para Educadores ia completar 4 anos de aventuras.

Como era fim de semestre e o prazo meados de julho, decidi que o esforço valia a pena. Afinal, seria uma oportunidade ímpar para poder organizar uma escrita ainda incomum aqui no Brasil que é inter-relacionar os princípios do Design Thinking (DT) com as atuais concepções sobre educação de qualidade.

Porém, quando finalizei o texto e as orientações para infográficos, soube que a editora não concordou em colocar licença Creative Commons (versão não-comercial) no meu fascículo, como eu havia solicitado logo quando aceitei o trabalho. Ainda são poucas as editoras que topam projetos mais abertos, uma delas é Cereja/Hedra, com quem fiz este livro aqui.

Infelizmente, tive que deixar o projeto e renunciar a remuneração oferecida, algo que sempre pesa em decisões como essa. Mas para mim, o mais importante naquele momento, era manter coerência com meus próprios valores de abertura na educação, que é a causa pela qual tenho me dedicado nesses anos todos.

Sempre pontuo nas formações de educadores que o DT não é metodologia nem ferramenta para a educação. Mas sim uma abordagem que inspira criar diversas metodologias e, mais do que isso, transformar boas práticas em rituais. Um ritual é sempre aberto pois pode ser adaptado por quem o realiza; é também compartilhado para ser duradouro.

Com um texto pronto na mão, comecei a buscar informações sobre como poderia publicar o livro de forma independente e sem investimento para gráfica. Nesse esforço, encontrei pessoas que me levaram ao editor digital Heinar Maracy, que foi quem me ajudou a publicar no Create Space, um sistema da Amazon em que você pode produzir sua própria publicação e disponibilizar de modo impresso ou digital sob demanda. Se ficou curioso(a) para conhecer o livro, veja aqui.

O primeiro setênio de uma organização social

Ciclos, fases, etapas. São vários os termos usados para falar sobre mudanças. Nenhum deles, no entanto, pode dar conta de expressar a dimensão do processo em si, considerando conquistas, erros e aprendizados que estão sempre presentes em um momento de transição. Por isso, gosto de fazer analogia com a teoria dos setênios da Antroposofia, uma linha de pensamento que propõe um caminho de compreensão do desenvolvimento humano (físico, intelectual, emocional)  a partir das transformações que todos nós vivemos a cada 7 anos. Disseminada pelo austríaco Rudolf Steiner, a Antroposofia nos convida a olhar para nossa própria história com mais sensibilidade e cuidado, de forma a gerar reconhecimentos e reflexões sobre nossas vivências e aprendizados. A teoria dos setênios, em essência, favorece o autoconhecimento para que então possamos compreender melhor o contexto em que estamos e as relações que estabelecemos com o mundo exterior.

O primeiro setênio da vida do ser humano, dos 0 aos 7 anos de idade, é marcado pelo crescimento mental e físico, sendo que o primeiro é ainda mais acentuado. A criança se conhece e se reconhece no mundo, aprende a andar, conquista seu espaço, começa a falar, a se expressar e até a dar nomes aos seres com os quais se depara. Formas de comunicação e imaginação aguçada são características fortes, assim como o reconhecimento do “eu” que, numa analogia com a constituição de uma organização, tem a ver com a consciência sobre a sua identidade.

No final de 2010, mas operando oficialmente no início de 2011, surge o Instituto Educadigital. Há sete anos minha vida mudava completamente. Decidi finalizar um ciclo de atuação de 10 anos no CENPEC para empreender minha própria organização social e me aventurar em um universo de experimentações, ousadias e, claro, diversos contratempos. Naquele momento, a única certeza era a necessidade de ter um pouco mais de autonomia para criar e propor novas possibilidades para a educação a partir dos elementos trazidos pelo advento da cultura digital, algo mais moroso de se conseguir quando se está em uma instituição já com anos de existência e diversas instâncias decisórias. Era preciso mostrar que habilidades de pesquisa, comunicação e publicação não se resumiam a meras atividades relativas ao uso pedagógico da internet, mas sim representavam novas aprendizagens, posturas e atitudes. A identidade de uma organização social, no entanto, não se forma apenas pelas ações que ela realiza, mas sim por sua missão no mundo. Ter um propósito é condição fundamental para uma instituição poder, de forma coerente, realizar seu trabalho e contribuir com sua comunidade.

A história do Educadigital, no entanto, ilustra como nem sempre essa identidade emerge tão claramente no momento da sua fundação, como se fosse algo celestial ou estrategicamente planejado. Em vez disso, a identidade veio da própria experiência de ação, como um resultado do aprendizado e da análise crítica sobre a ação. Ainda que o desejo de fazer acontecer seja muito forte e motivador por parte de quem cria uma instituição, somente as descobertas no processo é que vão dando pistas do que pode ou não fazer sentido. A primeira pista para o Educadigital veio logo no primeiro ano de operação, 2011, e de um novo desafio de trabalho, focado em uma temática pouco conhecida até então, a da Educação Aberta .  A advogada (hoje amiga e membro do conselho consultivo) Carolina Rossini, já morando nos Estados Unidos havia alguns anos, precisava de uma pessoa e de uma instituição no Brasil para coordenar as ações locais de advocacy do projeto Recursos Educacionais Abertos Brasil (REA.br), focado em advocacy para a causa nas instâncias legislativas nos três níveis de governo.

O convite veio com muita generosidade e confiança no meu perfil profissional que, mesmo à frente de um Instituto recém-criado, conseguia com facilidade reunir uma rede de profissionais com expertise no campo de atuação. Como acontece com a criança pequena do 1º setênio, foi preciso muito esforço e persistência para aprender algo novo, assim como imitar atitudes de pessoas inspiradoras para compreender o valor daquela causa social. Falar de abertura em educação é muito mais do que enfatizar a importância de haver recursos educacionais disponíveis com licença de uso livre para  reuso, distribuição e adaptação. Trata-se de uma concepção de educação que ressalta a formação de consciência sobre as escolhas que fazemos e os caminhos que definimos. Escolhas podem nos aprisionar ou nos motivar. Certos caminhos podem nos fazer chegar rápido a uma meta ou ampliar essa mesma meta se nos abrimos para possibilidades de colaboração.

O primeiro setênio da criança é marcado pela abertura para absorver novas informações e pela entrega. E foi isso que aconteceu, entrei de cabeça no mundo da educação aberta, com todos os percalços, que no fim valeram a pena, não apenas pelas conquistas que estão vindo numa crescente, como também para a consolidação de um identidade no Brasil e internacionalmente. Aos três anos de vida à frente do Educadigital, veio o primeiro reconhecimento global: fui identificada como empreendedora social (fellow) da rede global Ashoka pelo trabalho em prol da educação aberta no Brasil. Uma bolsa financeira de incentivo, mais que bem-vinda, ajudou a manter o foco nos ideais de uma instituição que deseja ser efetiva independentemente de estrutura física constituída.  Além disso, poder criar e concretizar ações em torno de uma causa para a qual até hoje no Brasil não há sequer linhas de financiamento ou patrocínio por parte de fundações públicas ou privadas.

Sustentabilidade sempre foi o calcanhar de Aquiles de uma organização social. Por ter sido pauta constante nas discussões internas das organizações em que trabalhei anteriormente, em minha bagagem não havia ilusões a esse respeito. Era fundamental equilibrar propósito com a necessidade de manter a organização.  Ou seja, estabelecer desde o início uma postura ativa em vez de só esperar os projetos chegarem para serem executados.

Foi assim que a iniciativa Design Thinking para Educadores nasceu. Quando fiz a especialização em DT em 2010, quase ninguém tinha ouvido falar no assunto, menos ainda no meio educacional. Até que, em 2012, tomei conhecimento do material que a IDEO havia feito especialmente para uso em educação com licença Creative Commons BY-NC-SA. De um simples desejo de traduzir e adaptar esse material e torná-lo público e disponível, nascia uma linha nova de atuação, que atende não apenas a Educação Básica, mas também a Superior, e que segue cada vez mais forte e robusta. Obter financiamento inicial foi suado e precisou de muita justificativa. Perguntas do tipo “mas você não trabalha com tecnologia?” pediam argumentos bastante assertivos em relação a uma abordagem aparentemente analógica que usava post-its:  mesmo em tempos de tecnologia digital, a educação precisaria sempre de empatia, colaboração e experimentação. Além disso, a convergência de mídias e a perspectiva de múltiplas possibilidades metodológicas é que podem de fato levar à inovação.

Em 2016, usamos as possibilidades metodológicas do DT em um Hackathon com estudantes do Ensino Médio, em 5 estados brasileiros, para prototipar soluções de melhoria na gestão escolar. Crises do primeiro setênio Sem dúvida foram várias crises. Até dariam insumo para elaborar uma publicação só para relatar todas elas. Mas vou dar uma pausa em relação a elaborar publicações, pois foram muitas em pouco espaço de tempo: em 2014 o material de DT para Educadores,  em 2016, o estudo Inovação Aberta em Educação, em 2017 o livro-guia Como Implementar uma Política de Educação Aberta e em 2018 o livro Design Thinking e a Ritualização de Boas Práticas Educativas. Diante das crises, reações de desalento são comuns e normais mas, se não tomarmos cuidado, elas nos paralisam e nos impedem de buscar outras oportunidades. Para a maioria das crianças, o final do primeiro setênio representa o início da vida escolar e isso pode trazer crise e medo ou, se bem trabalhadas, evocam sentimento de auto-afirmação, orgulho e libertação.

Quando o financiamento de cinco anos do projeto REA.br foi descontinuado devido à instabilidade na política nacional em 2016, o grau de motivação chegou a quase zero. Justamente no momento em que mais sabíamos como continuar, por conta de todo o aprendizado acumulado. Porém, foi justamente ali que consegui compreender claramente que Débora Sebriam e eu havíamos nos tornado profissionais gabaritadas da Educação Aberta em todos aqueles anos. Que nosso trabalho não era condicionado a um projeto nem a um financiador. A causa nos movia e nos move até hoje. Foi com base nessa autoconfiança que continuamos, buscando outras oportunidades de financiamento e gerando novos resultados antes nem almejados. Lançamos em 2017 a Iniciativa Educação Aberta, em conjunto com a Cátedra de Educação Aberta da UNESCO no Brasil e nos unimos a outro parceiro, o professor Tel Amiel, atualmente na UnB, com quem somamos forças para nossas atividades na formação de gestores/servidores públicos no Ministério da Educação (MEC). Hoje temos 300 professores da Universidade Aberta do Brasil em nosso curso de REA e conseguimos aprovar a primeira portaria de REA no MEC.

Em relação ao Design Thinking, se em 2014 seu uso na educação era novidade, em 2018 é mencionado em todo e qualquer congresso educacional. Pipocam empresas e pessoas que oferecem formação sobre a abordagem. Alguns enaltecem o caráter de inovação que o DT pode trazer, outros querem enquadrá-lo numa lista de metodologias ativas. Sigo com a crença de que o DT deve estar embasado em uma concepção de abertura, flexibilidade e autoria. E que pode ser remixado segundo diversas intencionalidades, como as recentes junções que fiz do DT com a Jornada do Herói, com o Jogo dos Futuros Emergentes e com o Jovem Aparelhado. Criei um curso-laboratório online de formação de facilitadores que pode receber no máximo 20 pessoas a cada edição (indo agora para edição 7), pois foca no acompanhamento constante e personalizado, visando germinar uma rede de facilitadores no Brasil e no mundo.


Rumo ao segundo setênio 

Com todo esse repertório, experiência e conhecimento de causa, me vejo pronta para encarar mais um desafio, o de desmitificar a atividade de mentoria como sendo distante do mundo da educação. O ConexãoIED – Mentoria on-line tem como tema central a Educação para o Desenvolvimento Humano.  Como professores podem ser mentores uns dos outros? Como podem receber e oferecer mentoria, fomentando cada vez mais a troca e a partilha de saberes e experiências em uma sociedade em constante transformação?  Para saber mais sobre a ideia, vale ler este post aqui. O segundo setênio no desenvolvimento humano é marcado pela entrada na rotina de estudos mais formalizada, pela compreensão do valor do dinheiro, bem como da responsabilidade, da disciplina e de questões éticas.

Na Antroposofia, normalmente se fala em desenvolvimento “anímico”, isto é, da alma, a partir do resgate da memória e reconhecimento das emoções. Similarmente, em uma organização, é um momento propício para celebrar as conquistas anteriores e escutar com atenção os sentimentos que agora surgem. Questionamentos chegam também com mais intensidade, especialmente em relação a algumas convicções sobre qual seria a melhor forma de atuar para obter estabilidade financeira, ou ainda ao que o senso comum espera em termos de sucesso e evolução. Nesse sentido, a única certeza que de fato tenho é a de que entro em uma temporada de reflexão ainda mais intensa sobre possibilidades, mas sem que isso impeça experimentações práticas que tanto marcaram minha trajetória. Experimentações que podem abranger novos projetos colaborativos ou mesmo desafios junto a outras organizações. Assim como a criança pequena desta fase, é fundamental valorizar os próprios sentimentos para poder perceber com mais clareza como as escolhas profissionais podem ser emocionalmente ainda mais significativas.

Mentoria para e entre educadores: foco em habilidades e competências

Você já ouviu falar em “mentoria”? O termo vem sendo muito utilizado ultimamente no mundo das startups —um modelo de empresa que surge a partir de uma ideia nova transformada em negócio. Para poder impulsionar esse negócio, gerando valor aos futuros possíveis usuários e, consequentemente, lucro para a própria startup, algumas ações são fundamentais, dentre elas, a mentoria.

Podemos definir mentoria como uma relação de troca temporária na qual uma pessoa que é especialista ou tem mais experiência em determinado campo de atuação orienta outra pessoa interessada em receber informações, aconselhamento, sugestões e dicas de conduta.

As startups começaram a ganhar força com a popularização da internet no final dos anos 90 e algumas se transformaram em empresas gigantes conhecidas mundialmente, como Google e Facebook. As áreas mais requisitadas para mentoria nas startups são finanças, administração, marketing e, mais recentemente, “soft skills” — o nome dado para o que em educação chamamos de habilidades socioemocionais.

Mas não foram as startups que inventaram a mentoria, elas apenas estão contribuindo para disseminar o conceito na atualidade. No livro Odisseia, de Homero, uma das obras clássicas da Grécia Antiga, o sábio Mentor recebe do rei Ulisses a missão de dar suporte e orientação ao príncipe Telêmaco durante sua ausência. Tempos depois, Mentor parte com Telêmaco em uma jornada inspiradora em busca do rei.

A figura do mentor ou mentora também aparece no Monomito (Jornada do herói), como um arquétipo que dá subsídios e referências para que o herói possa escolher o próprio caminho. Basta lembrar de personagens de diversos obras famosas, como o Yoda, de Star Wars; Grilo Falante, do Pinóquio; Fada Madrinha, da Cinderela; Dumbledore, de Harry Potter, e muitos outros.


Mentoria para e entre educadores

No contexto da educação, espera-se que a mentoria aconteça desde sempre na relação educador-educando, mesmo quando ela não é assim denominada, já que incentivar, valorizar e inspirar são atributos de bons mentores.

Mas será que os educadores se consideram mentores? E se os educadores pudessem, também, receber mentorias que os apoiassem em seu próprio processo de desenvolvimento pessoal e profissional?

Ainda são bem raras as formações docentes pautadas no autoconhecimento e no aprimoramento de relações interpessoais para uma melhor convivência entre os diversos atores da comunidade escolar. A prioridade é sempre ofertar um conhecimento técnico específico ou uma metodologia de ensino.

Há claramente uma lacuna a ser preenchida aí. Hoje há uma demanda forte em relação ao trabalho com habilidades socioemocionais com os alunos, mas e com os educadores? Apenas ensinar os professores a como ensinar a desenvolver tais habilidades nos alunos, por meio de “planos de aula”, certamente será inócuo.

Educadores precisam de mentores, pois carecem de escuta, valorização e incentivo. A mentoria pode oferecer um sistema de apoio que ajude o educador a desenvolver-se intelecto e emocionalmente de forma constante. Favorece, ainda, a reflexão sobre identidade e reconhecimento de seu papel como autor.

No entanto, é fundamental que haja no processo de mentoria um compartilhar de entusiasmos, uma ação recíproca, isto é, a convicção de que ambos os envolvidos são professores e aprendizes. Para quem oferece, a mentoria é desafiante, pois deve inspirar sem criar dependência.

No Instituto Educadigital, vamos iniciar o projeto de Mentoria on-line coletiva, o ConexãoIED, que tem como mote a“Educação para o Desenvolvimento Humano em uma Sociedade em Constante Transformação”. Por meio de webinars ao vivo, com interação por chat, e na sequência, um fórum para conversas aprofundadas, teremos mentores e mentoras convidados para um compartilhar de experiências em 4 áreas foco, como mostra a mandala: 



Cada Mentoria on-line será organizada em “jornadas temáticas” que vão fomentar perguntas e não trazer respostas.

Participe do webinar de lançamento do projeto, no dia 15 de maio, às 20h. É gratuito, basta se inscrever aqui.

Fundadora do IED recebe “flash grant” da Shuttleworth Foundation

Priscila Gonsales, diretora-executiva do Educadigital, foi indicada pelo fellow Andrew Rens, por seu trabalho voltado para a causa da educação aberta no Brasil


Por seu trabalho nos últimos 6 anos voltado para a causa da Educação Aberta, a fundadora e diretora-executiva do Instituto Educadigital foi indicada pelo pesquisador em Propriedade Intelectual, Andrew Rens, atualmente Legal Lead do Creative Commons na África do Sul, para receber um pequeno subsídio da Shuttleworth Foundation, no valor de US$ 5.000.

Os subsídios, chamados “flash grant” são concedidos somente por nomeação de fellows da Fundação Shuttleworth a indivíduos cujo trabalho na área social foi avaliado como exemplar para ser apoiado/recompensado/encorajado. Fundada pelo empreendedor sul-africano Mark Shuttleworth, criador do sistema operacional livre Unbutu, a Shuttleworth identifica indivíduos em diversos países do mundo que atuam a partir de filosofias abertas, voltada para o compartilhar.

“Fiquei imensamente grata pela confiança e respaldo de um ativista que admiro tanto como Andrew. Tivemos a oportunidade de nos conhecer durante o 1º Congresso Mundial de REA da UNESCO, em 2012, fico muito feliz por ele ter acompanhado meu trabalho e da minha equipe nesses últimos anos”, ressalta Priscila, que também é fellow Ashoka Empreendedores Sociais. 

O subsídio será aplicado no projeto RE-li-A, uma plataforma-referatório de recursos educacionais digitais com licenças abertas disponíveis na web. Primeira no Brasil a reunir recursos por área do conhecimento, disciplinas curriculares, tipos de mídia, dentre outros metadados. Atualmente, o RE-li-A está em campanha de financiamento coletivo para receber colaborações da comunidade educacional brasileira e internacional.


Shuttleworth Foundation from Blink Tower on Vimeo.

Estudo inédito analisa a relação entre inovação aberta e educação

Publicação foi lançada em São Paulo durante o 1º Encontro Brasileiro de Governo Aberto


Como criar novos modelos de negócio mais coerentes com a cultura digital, com licenças autorais flexíveis, em prol de uma economia do bem comum? Com esse desafio em mãos, Débora Sebriam e Priscila Gonsales, do Educadigital, mergulharam em intensa pesquisa e levantamento de informações durante dois meses e meio, além de realizar entrevistas com especialistas e entidades envolvidas com o tema no Brasil e em outros países. Inovação aberta é um conceito que surgiu nos anos 2000 e é bastante conhecido em alguns setores de negócios, pois envolve um processo de combinar ideias internas e externas para gerar inovação. Trata-se de uma nova forma de operar que rompe com a estrutura tradicional dos departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) das empresas que controlavam informações e ideias.

A inovação aberta envolve cocriação, colaboração e, ainda, mais flexibilização com a questão das patentes e dos direitos autorais, à medida que a empresa pode disponibilizar ao público ou a outras empresas algo que não seja tão importante para o seu negócio principal. Henry Chesbrough, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, precursor do conceito e autor de livros sobre o tema, foi entrevistado no estudo.

Mas o que inovação aberta tem a ver com educação aberta? Bastante coisa. Primeiramente, pela semelhança de concepção que ressalta um modelo mais distribuído, compartilhado e acessível. Depois, pela ideia de flexibilidade em relação à propriedade intelectual ao mesmo tempo que oferece serviços de valor agregado que garantem a sustentabilidade do negócio ou empreendimento.

“Elaborar esse estudo era um sonho antigo, pois sempre soubemos que precisávamos estreitar o diálogo com editoras de livros didáticos e empresas que comercializam produtos educacionais, para mostrar que educação aberta e recursos educacionais abertos são, na verdade, uma oportunidade e não uma ameaça”, ressalta Priscila. “Estamos diante de um contexto de mudanças constantes nas práticas sociais e a educação precisa se abrir para essa reflexão”, complementa Débora. O projeto contou, ainda, com o trabalho da pesquisadora Viviane Vladimischi na realização das entrevistas.


A parceria entre Educadigital e o Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB) surgiu em meados de 2016, no grupo de trabalho da sociedade civil para a construção do Plano de Ação para Recursos Educacionais Digitais da Parceria Governo Aberto do Brasil (OGP-Brasil).

Lançado dia 29 de novembro durante o 1º Encontro Brasileiro de Governo Aberto, o estudo está disponível para download e leitura online em um site especialmente criado para o projeto que reúne ainda uma série de materiais utilizados na pesquisa, além de uma curadoria de vídeos sobre o tema: www.educadigital.org.br/estudocieb

Como podemos integrar as tecnologias digitais na aprendizagem?

2º Simpósio Nacional sobre Adolescência da Unifesp reúne pesquisadores e profissionais de educação, psicologia, neurociências e saúde


Os dias 10 e 11 de novembro, no campus Vila Mariana da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) , estiveram reunidos educadores, professores e pesquisadores interessados em entender melhor a fase complexa que é a adolescência, considerando o desenvolvimento pleno dos jovens, mas também suas vulnerabilidades, protagonismos e desafios.

Priscila Gonsales, diretora-executiva do Educadigital, foi convidada para apresentar os aspectos relacionados à educação na cultura digital, destacando a importância de integrarmos as aprendizagens relacionadas ao comportamento digital e riscos, além do estímulo à produção autoral dos estudantes.

“Existem várias novas competências e habilidades no campo da ‘inteligência digital’ que precisamos aprofundar, não somente com os jovens, mas também com os professores, pois nós todos estamos diante de novas formas de comportamento e práticas sociais que ainda nós mesmos não compreendemos”, ressaltou Priscila.

A Unifesp já disponibilizou as palestras e os painéis gráficos de registro no site: http://www.adolescenciaunifesp.com/

Por mais “Spotlights” em nossas relações ;-)

Mais do que realçar o bom jornalismo, filme põe em evidencia o papel da
liderança e do trabalho em equipe


Se você achou que Spotlight é só mais um filme sobre jornalismo e ponto final, vale a pena reconsiderar. O longa, que está na corrida do Oscar 2016, fala dos bastidores de uma grande reportagem sobre os escabrosos casos de pedofilia na igreja católica denunciados no início dos anos 2000 por uma série publicada no Boston Globe.

Imperdível, claro, para quem estuda jornalismo ou atua na imprensa, mas deveria também fazer parte da lista de todos que estão de alguma forma envolvidos em ações ou projetos de liderança, gestão de pessoas e desenvolvimento de trabalho em equipe.

Com um roteiro absolutamente cativante e elenco de primeira, vamos acompanhando o desenrolar da trama a partir de uma decisão, aparentemente arbitrária, de um novo chefe que chega para conduzir a redação de um dos mais influentes jornais americanos.

A função de um gestor está sempre entre os principais temas debatidos nas mais diversas profissões, da medicina à engenharia, da política à educação. Cabe a esse profissional lidar frequentemente com polaridades constantes, tais como: conduzir um grupo com leveza e firmeza, tomar decisões com ousadia e responsabilidade, ouvir seus funcionários com paciência e inquietude. Parece que tudo pode começar ou acabar na gestão.

Na área educação, a gestão de uma secretaria, de uma escola ou mesmo da sala de aula costuma ser determinante na manutenção de regras já estabelecidas ou no rompimento de estruturas tradicionais em busca de inovação. Gosto de citar o caso da professora e pesquisadora da UFRGS, Léa Fagundes, que ilustra bem essa segunda possibilidade. Pioneira em educação digital no Brasil, ela teve a audácia de desafiar a própria universidade e iniciar, na década de 90, o primeiro curso de pós-graduação a distância da instituição para um grupo de educadores da Costa Rica enquanto rolava toda a burocracia interna de aprovação do novo curso por meses a fio.



Quando os dirigentes acadêmicos finalmente a chamaram para fazer os questionamentos sobre como resolver diferenças de idioma e localização geográfica, Léa já tinha pronto um relatório de avaliação elaborado por sua equipe sobre a eficácia do processo mesmo com a precária internet disponível na época (ver entrevista no vídeo). Seu papel de liderança pode ter sido crucial, mas o trabalho em grupo de seus orientandos não ficou nem um pouco atrás. Somente com uma postura colaborativa por parte das pessoas envolvidas e o comprometimento com o projeto é que foi possível empreender uma iniciativa tão ousada como aquela.

Nesse sentido, colaboração e cooperação são os pontos altos da equipe de Spotlight. Não há um herói ou uma heroína como protagonista. O furo — se é que houve mesmo um furo de reportagem — não foi um ato glorioso de um único jornalista em destaque. O trabalho investigativo de qualidade dependeu do envolvimento coletivo de cada um, da confiança mútua e da valorização dos diferentes talentos ali disponíveis. Todos tiveram que lidar com erros, acertos, angústias e comidas de bola, e ainda contornar situações nem sempre favoráveis ao andamento do projeto, que acabou se tornando uma verdadeira causa comum. Quem dera pudéssemos vivenciar com mais frequencia “spotlights” assim em nossas relações pessoais ou profissionais, e em qualquer ambiente.

Originalmente publicado em Medium