Cidadania digital é o 3º tema de maior interesse dos professores em relação à tecnologia

Além de aprender sobre possibilidades de aplicação em sua própria disciplina e na criação de novas práticas de ensino, docentes gostariam de saber mais como orientar alunos para o uso seguro, responsável e consciente da internet

Em sua última edição, divulgada em 2019, a pesquisa TIC Educação, realizada pelo Cetic.br, destacou que 57% dos professores gostariam de encontrar mais orientações sobre como trabalhar com os alunos questões relacionadas ao uso seguro, consciente e responsável da internet.  Entre os respondentes, 38% afirmam já ter apoiado algum aluno a enfrentar situações incômodas na internet, como, por exemplo, bullying, discriminação, assédio, disseminação de imagens sem consentimento, entre outras. 

Anualmente, em meados de fevereiro, uma intensa mobilização global, envolvendo mais de 140 países, vem chamar a atenção para o Dia Mundial da Internet Segura. Em 2020, a data marcada é 11 de fevereiro, mas a intenção é que a mobilização não se restrinja a um único dia nem a uma semana, mas sim esteja presente durante o ano todo, nas escolas, instituições e famílias. 

“Quando falamos em uso seguro, responsável e consciente da internet, enfatizamos a importância que a cidadania digital tem cada vez mais em nossa vida e em nossa convivência em sociedade e pode ser trabalhada em diversas disciplinas e mais ainda de forma interdisciplinar”, explica Rosa Maria Lamana, da Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo. 

Por sua atuação constante em diversos eventos sobre a temática, como o Fórum da Internet e o Simpósio Crianças e Adolescentes na Internet, e também por estar sempre atenta às necessidades dos docentes, Rosa procurou o Educadigital com uma constatação bem pertinente. “Existem muitas fontes de informação, vários materiais de apoio consistentes, mas não temos ainda onde encontrar sugestões de como colocar em prática”, relatou Rosa. 

Em conversas com a diretora-executiva do Educadigital, Priscila Gonsales, aquela constatação foi acolhida e acabou gerando uma ideia concreta. “Logo pensei que também faltava valorizar as boas práticas que já estão sendo feitas, mas são bem pouco divulgadas”, explicou Priscila. 

Desde 2018, o Educadigital mantém a plataforma REliA, um referatório de recursos educacionais com licenças abertas (REA), organizado por área do conhecimento, tipos de mídia e disciplinas. Ao remixar a base tecnológica em código aberto do REliA, vai surgir uma nova plataforma, especialmente voltada para a busca e o compartilhamento de boas práticas em cidadania digital.

Essa nova plataforma receberá o nome de Pilares do Futuro, para remeter aos 4 pilares da educação da UNESCO —aprender, fazer, ser e conviver— que formam a base das competências socioemocionais e também das competências gerais da Base Nacional Curricular Comum (BNCC). “Pilar ainda representa alicerce, ou seja, a consistência que uma prática em cidadania digital deve ter”, ressalta Débora Sebriam, coordenadora de projetos do Educadigital. 

Com apoio inicial do NIC.br, a Pilares do Futuro está sendo construída e tem lançamento previsto para março de 2020. Além dos temas bastante procurados como cyberbullying e superexposição, também serão destaque: inteligência artificial, proteção de dados, direito autoral, fake news, publicidade e consumo, dentre outros. 

Quer participar desse projeto? 

Meu trabalho já é “do futuro”! E o seu?

Estudo 100 Jobs of the Future traz algumas pistas sobre quais são as aprendizagens relevantes para a convivência humana desde sempre

Por Priscila Gonsales

Viramos, então, o ano de 2020 e com ele mais uma década vai chegando ao fim. Aquele futuro imaginado, tomado pelos avanços avassaladores da tecnologia digital e da inteligência artificial está cada vez mais se concretizando.

Muita coisa vai mudar, especialmente no campo do trabalho. De certa forma, é natural imaginar que poderemos exercer diferentes funções ou ter várias carreiras ao longo da vida, mas ainda não temos nenhuma certeza quais serão os tipos de ocupações que efetivamente surgirão e que vão demandar uma formação nova ou específica.

No entanto, o estudo 100 Jobs of the Future, lançado no segundo semestre de 2019,  nos traz algumas pistas.  De autoria de duas universidades australianas,  Deakin e Griffith, em parceria com a Ford Go Further, o estudo parte do pressuposto de que no futuro teremos pessoas e máquinas colaborando efetivamente para fazer o que nenhuma delas poderia fazer sozinha. Bem interessante, não?

A lista das 100 ocupações do futuro foram organizadas em 10 categorias e logo atrás da categoria “Trabalho com Tecnologias”, campeã com 21 possibilidades, vem “Trabalho com Pessoas” com 14 possibilidades — mas em várias das demais categorias dá pra ver o quanto o foco em pessoas estará em evidência . Aha! 

Se por um lado já podemos supor que o trabalho do futuro exigirá aptidões científicas, tecnológicas e digitais, por outro, valorizamos pouco habilidades relacionadas ao autoconhecimento e à convivência humana que serão altamente necessárias, quase como um alicerce para o bom desempenho profissional e pessoal.  

O ano de 2020 também marca 10 anos de existência do Educadigital, é gratificante notar que, mesmo depois de uma década, nosso foco de trabalho centrado nas pessoas (de forma “plugada ou desplugada”), continua sendo o que se espera no futuro!  Confira algumas das ocupações que destaquei do estudo, sendo que várias delas de alguma forma já estamos  “semeando” por aqui! 

Educador em Inteligência Artificial

Ensinarão as pessoas a usar a IA da melhor forma possível, seja para lidar com robôs domésticos e assistentes digitais, até aprender como usar algoritmos para analisar dados ou tomar decisões. Ao contrário de ser um intérprete algorítmico, que apenas explica como uma IA chegou a uma conclusão específica, o Educator em IA vai promover que pessoas compreendam como as máquinas aprendem.

Negociador de Propriedade Intelectual

Vão precisar conhecer bem o valor da criatividade. Eles negociarão em nome de seus clientes pela propriedade ou uso de novas tecnologias, produtos, software ou outras saídas criativas. Eles também representarão pessoas quando a IA usar idéias sem permissão. Precisarão ter habilidades e conhecimentos avançados em leis de direito autoral dentro de suas jurisdições.

Guia de experiência analógica

Darão suporte às pessoas para 'desconectar' da vida digital e reconectar com o mundo natural, sem implantes digitais ou realidade aumentada. Eles ajudarão as pessoas a apreciar uma vida mais simples e mais lenta experimentando ambientes naturais como florestas ou áreas montanhosas sem acesso digital em infra-estrutura ou vigilância.

Gestor de expansão digital

Terá um alto nível estratégico na maioria das organizações, pois será responsável por escolher quais tecnologias devem ser usadas de acordo com as tarefas e atividades e objetivos. Poderão também projetar processos de trabalho onde humanos e máquinas trabalharão juntos de maneira complementar. À medida que mais humanos buscarem implantes e modificações no corpo/cérebro para aumentar suas capacidades como cyborgs, o profissional terá que cuidar de questões de condições e direitos no local de trabalho.

Facilitador transcultural

Serão especialistas com profunda capacidade de responder pelo respeito e direito de pessoas de diversas culturas e origens. Eles vão trabalhar diretamente com pessoas em contextos transculturais, facilitar negociações ou projetos. Muitos também trabalharão com programadores de software, designers de robôs e criadores de experiências de realidade aumentada/virtual. Terão forte conhecimento e comprometimento com princípios de diversidade e inclusão, mobilidade internacional, resolução de conflitos e sensibilidade cultural.

Estrategista de privacidade de dados

Projetarão soluções para proteger dados pessoais. No futuro, será mais desafiante que nunca salvaguardar a privacidade dos dados, porque todos estarão sempre "conectados” às redes através dos implantes digitais em seus corpos que garantam sua saúde e melhorem o estilos de vida. Criarão sistemas e softwares para reduzir o risco de pirataria. Se um sistema for hackeado, eles podem trabalhar para repará-lo, recuperar dados e minimizar o impacto sobre a vidas das pessoas.

Apoiadores para tomada de decisão

No futuro, as pessoas terão assistentes virtuais que usam sistemas de recomendação (com base em algoritmos de machine learning) para ajudá-los a tomar decisões. Contudo, decisões automatizadas nem sempre são assertivas, ainda mais se não há dados corretos disponíveis. Às vezes, as pessoas precisam tomar decisões muito significativas e vão preferir trabalhar com o apoio de um humano para garantir uma escolha mais apropriada.

Hackers éticos

Também conhecidos como 'chapéus brancos' ou 'hackers éticos', identificarão pontos fracos nos sistemas de cibersegurança. Em um mundo onde todos estão constantemente conectados digitalmente e os dados são coletados sobre tudo, o hacking se tornará um grande problema. Dados pessoais podem ser roubados. Hackers éticos vão usar as mesmas ferramentas dos hackers criminosos, mas para investigar as fraquezas dos sistemas e evitar maus usos. Eles vão trabalhar em equipe para encontrar e corrigir possíveis problemas, corrigir riscos de segurança e combater ataques.

Conselheiro de educação ao longo da vida

Cada vez mais, as pessoas terão várias carreiras ao longo de sua vida. Mesmo se elas permanecerem dentro de uma carreira, com a introdução constante de novas soluções tecnológicas e mudanças sociais, aumentará a necessidade de atualização. Com isso, caminhos de educação e treinamento se tornarão mais complexos, com uma diversidade de profissionais, especialmente aqueles focados em orientar indivíduos e grupos em carreiras emergentes ou como permanecer a par dos avanços da tecnologia

Programador de robôs para crianças

Vai projetar robôs para apoiar crianças a brincar em segurança, respeitando seus direitos. Poderão ler canções de ninar, personalizar histórias, ensinar números e palavras básicas, apoiar o aprendizado de habilidades, garantindo que elas estão seguras em suas explorações on-line. Precisarão entender sobre primeira infância, desenvolvimento e direitos da infância, bem como teorias de aprendizagem.

Professor da primeira infância

Os professores da primeira infância farão muito do que eles fizeram no início do século 21, mas com ênfase no envolvimento de crianças em interações significativas para aprender sobre idéias e problemas locais envolvendo comunidade e relações sociais, sustentabilidade ambiental; competência intercultural; comportamento saudável, e alfabetização digital. Os robôs farão grande parte dos cuidados básicos de garantir a segurança infantil e os dados dos sensores serão lidos, interpretados e utilizados tomada de decisão do desenho curricular com foco no perfil individual.

Designer de gameficação

Gamificação é o processo de adicionar lógica e processos do jogo para aprimorar o engajamento do usuário e alcançar melhores resultados. A gamificação pode ser usada em uma variedade de campos, da educação à saúde, para melhorar os resultados da aprendizagem ou aprimorar qualidade de vida. O jogo se tornará um parte penetrante de nossas vidas com organizações usando gamificação para incentivar comportamentos e aumentar o envolvimento. Por exemplo, organizações de saúde pública poderiam oferecer recompensa para compra saudável ou aumento da atividade física.

Organizadores de desordem virtual

No futuro, as pessoas terão muita confusão virtual, porque será cada vez maior a quantidade de dados que elas criam, acessam, usam e guardam. Não apenas terão inúmeras contas de usuário on-line, também gerarão dados de seu corpo e família em sensores. O organizador de desordem virtual ajudará a remover o excesso de dados e organizar o restante. Eles usarão software de gerenciamento de dados e inteligência artificial para fazer seus trabalhos mais fáceis, mas grande parte de seu papel não pode ser feito automaticamente. Eles terão de perguntar ao cliente sobre o que não está funcionando ou onde os dados poderiam ser melhor organizados.

Acesse o relatório completo do estudo (em inglês) aqui

2019 foi um ano daqueles!

Como precisamos de resiliência e perseverança para esse ano que passou! Mesmo com tanta adversidade, seguimos firmes em nossa missão de disseminar a educação aberta pelo Brasil. E já agora neste fim de ano, para adentrar 2020 em nova perspectiva, ampliamos nosso foco de atuação, trazendo a pauta dos direitos digitais — acesso à informação, liberdade de expressão e privacidade de dados pessoais — para o centro da nossa missão. 

Completamos 5 anos de Design Thinking para Educadores levando formação em práticas pedagógicas abertas para mais de 10 mil professores, gestores, estudantes e também para profissionais de organizações sociais de todo o Brasil.

Nosso material aberto e gratuito foi oficialmente recomendado por redes públicas como apoio na readequação curricular para a Base Nacional Curricular Comum. No Rio Grande do Sul, por exemplo, nossa facilitadora associada, Sandra Mendez, apoiou o processo em escolas de Pelotas e do Chuí. Lançamos novo material igualmente aberto e gratuito, especialmente voltado para resolver problemas de gestão. Fizemos várias palestras sobre inovação em educação e contribuímos com o curso de formação para diretores ingressantes da SEE-SP, com o vídeo: 

Foi um ano importante em reconhecimento internacional de nosso trabalho, ganhamos prêmio e indicação para prêmio por nossa expertise de formação de gestores públicos para a implementação de política de educação aberta. Também fizemos mentoria internacional em eventos da área na Europa (Polônia) e na América Latina (Peru). Conseguimos aprovar o Projeto de Lei sobre Recursos Educacionais Abertos em mais uma comissão na Câmara dos Deputados. Lançamos o Jogo da Política de Educação Aberta, disponível em três idiomas: português, inglês e espanhol. Você já viu nosso novo vídeo sobre a diferença entre recursos grátis e abertos?  

Lançamos um site novo para poder organizar melhor as informações sobre nossas iniciativas, projetos e ações, além de facilitar a que todas as nossas produções — impressas e digitais — realizadas ao longo dos últimos 9 anos possam ser encontradas. 

E aguardem novidades para 2020: novo cursolab de formação de Líderes em Educação Aberta e uma plataforma de compartilhamento de boas práticas em cidadania digital! 

Inteligência Artificial e Alfabetização em Dados

Estreamos a nova oficina do Educadigital no LER – Salão Carioca do Livro, dia 28 de novembro, na Biblioteca Parque, Rio de Janeiro

Pela primeira vez, o tradicional LER – Salão Carioca do Livro organizou o Encontro com o Educador, um evento simultâneo com várias atividades práticas e mesas-redondas sobre temas contemporâneos da educação. 
O Educadigital esteve presente com duas oficinas, a de Design Thinking para Educadores, conduzida por Priscila Gonsales, diretora-executiva, e por Graça Santos, facilitadora associada no Rio de Janeiro. Em apenas duas horas, foi possível apresentar como uma abordagem baseada em empatia, colaboração e experimentação pode ser transformadora. Vários professores se emocionaram ao se verem contemplados como autores de processos de transformação da educação. 

A segunda oficina foi sobre Inteligência Artificial e Alfabetização em Dados, estreia nas formações do Educadigital e tem por objetivo levar mais conscientização aos educadores em relação às escolhas de ferramentas e aplicativos que são feitas para uso em sala de aula. “Hoje não basta levar as tecnologias para a escola, é fundamental questionar como uma determinada tecnologia captura e usa dados de nossas crianças e adolescentes”, ressaltou Priscila Gonsales. 
Veja mais fotos aqui 

Leve essa formação para a sua escola entre em contato!  

Remarcamos o curso!

Curso on-line Design Thinking para Boas Escolhas, previsto para as duas primeiras semanas de dezembro, será remarcado para 2020

A gente bem que tentou, mas não tivemos o número de inscritos suficiente para que o curso pudesse ocorrer nesse fim de ano. Mesmo sendo uma época excelente para planejamentos e intenções, muitos compromissos se acumulam —profissionais e pessoais— e a gente precisa eleger prioridades. 
De alguma forma, isso está relacionado ao tema do curso DT e VC: Design Thinking para Boas Escolhas, que a Priscila Gonsales, diretora-executiva do Educadigital e o Ricardo Ferrer, designer de games para desenvolvimento humano organizaram. 
“Temos feito oficinas muito bacanas presenciais para equipes institucionais e queríamos muito organizar uma versão on-line para poder levar a mais pessoas”, explicou Priscila Gonsales. 
O curso, totalmente inédito, associa a abordagem do Design Thinking ao Jogo dos Talentos e apresenta diversas ferramentas, templates e matrizes que podem auxiliar educadores e outros profissionais a compreenderem melhor como elaborar seus projetos de vida e apoiar estudantes nessa caminhada. 
“Olhar para nossos próprios talentos nos ajuda a colaborar mais e buscar outros talentos para colaborar com a gente”, ressalta Ricardo. 
Vale a pena assistir à live do Facebook com mais informações sobre o curso! 
Se você tem interesse em ser informado sobre a nova data, deixe seu contato aqui no formulário aqui

Dia de doar: contribua com a educação aberta!

Nesta terça-feira, 3 de dezembro de 2019, participe do #DiaDeDoar 
Doe para o Educadigital e apoie nossos projetos em prol da educação aberta! 

Mais um ano, o Educadigital colabora com o movimento #DiaDeDoar, que visa promover a doação no Brasil. Trata-se de uma mobilização que promove um país mais generoso e solidário, por meio da conexão de pessoas com causas. E faz isso celebrando o prazer que é doar, e o hábito de doar o tempo todo.

Em 2019, no dia 03 de dezembro, terça-feira,  milhares de organizações estarão preparadas para receber doações, e milhões de brasileiros vão demonstrar seu apoio, doando e tornando pública a doação compartilhando a hashtag #diadedoar nas mídias sociais.

No Brasil o Dia de Doar começou em 2013, um ano depois da primeira edição, nos Estados Unidos, em 2012. A partir de 2014 o Brasil passou a fazer parte do movimento global, que hoje conta com 55 países participando oficialmente, e ações sendo realizadas em mais de 190.

Lá fora, o Dia de Doar tem nome de #GivingTuesday, que significa “terça-feira da doação”. Vem na sequência de datas comerciais já famosas, como s BlackFriday e CyberMonday. É sempre realizado na primeira terça-feira depois do Dia de Ação de Graças (o Thanksgiving Day).

O Dia de Doar é realizado pelo Movimento por uma Cultura de Doação, uma coalização de organizações e indivíduos que promovem o engajamento das pessoas com as causas e as organizações da sociedade civil, por meio da doação como instrumento para fortalecimento da democracia.

Por que você deve contribuir com o Educadigital? 
– para apoiar a formação de educadores e gestores da educação pública a  elaborarem políticas de educação que garantam o acesso aberto ao conhecimento, ou seja, a conteúdos e materiais que são financiados com recursos públicos; 
– para apoiar a elaboração dos diversos materiais que produzimos em licenças abertas; 
– para levar a formação em Design Thinking para Educadores a mais professores da rede pública. 

O Educadigital não tem nenhuma empresa mantenedora, nosso trabalho se financia por doações, cursos e projetos que realizamos. 

Faça sua doação aqui!

 

Insights e alertas que Harari traz para a educação

Em visita ao Brasil, o pesquisador, professor, historiador e best-seller ressaltou a importância da educação na compreensão da realidade assustadora que vivemos 

Por Priscila Gonsales

Yuval Noah Harari é o intelectual mais citado atualmente quando o assunto é pensar o futuro da humanidade. Autor de três livros, Sapiens: Uma breve história da humanidade, Homo Deus: Uma breve história do amanhã e 21 lições para o século 21, Harari esteve pela primeira vez no Brasil para diversas palestras e entrevistas sobre o que ele considera como os três principais desafios globais: guerra nuclear, mudanças climáticas e inteligência artificial.

Segundo o pesquisador, esses são os desafios que representam ameaças diretas para a civilização e também para a especie humana e que a solução deve ser buscada de maneira cooperativa entre os diversos países, especialmente aqueles que, como o Brasil, não estão liderando o que ele chama de “disrupção tecnológica”. 

E é exatamente nesse aspecto, bastante abordado em seu terceiro livro, 21 Lições para o Século XXI, que há um alerta importante nas entrelinhas para a educação. Qual seria esse alerta?

  • Engana-se quem pensou no “aprender a programar”, tema bastante destacado nos últimos anos como sendo a “nova” alfabetização.
    Harari ressalta a todo momento que ele não entende nada de computação nem sequer usa smartphone. O que ele faz é compreender como a tecnologia funciona e está sendo desenvolvida atualmente, considerando o contexto político, econômico e social. Por exemplo, entender que os dados de todas as pessoas do mundo estão sendo coletados e acumulados em dois locais: EUA e China. Ao trazer uma tecnologia de uma empresa para dentro da escola, para que nossos alunos usem, estamos cientes disso? Consideramos o que pode ser feito no futuro a partir dos dados de crianças e adolescentes coletados por plataformas de gigantes da tecnologia que usamos e divulgamos amplamente?

  • Engana-se quem pensou nas “metodologias ativas ou metodologias ágeis” hoje tão badaladas em toda e qualquer formação docente.
    Pelo menos até o momento, Harari não falou em melhores nem piores formas de ensinar conteúdos. Ao contrário, ele pontua que cada vez mais teremos necessidade de lidar com situações imprevisíveis e que isso só será possível se desenvolvermos nas crianças e jovens uma mentalidade flexível. Estamos dando espaço para o imprevisível em nossas práticas educativas ou elas apenas servem para cumprir melhor as metas de apreensão de conteúdos?
     
  • Engana-se também quem pensou no “aprendizado ao longo da vida” ou “lifelong learning”, algo que sempre foi foco de uma educação de qualidade, mas que agora tem sido a menina dos olhos em diversas pesquisas internacionais recentes sobre competências e habilidades. Por mais que Harari considere importante, o enfoque que ele traz não é apenas no aprimoramento profissional para gerar competitividade no mercado de trabalho, mas sim no conhecimento de si mesmo, incluindo consciência sobre suas próprias fraquezas, já que atualmente os algoritmos de inteligência artificial podem saber mais sobre nós do que nós mesmos.   

O principal alerta para nós educadores envolve a  conscientização sobre as novas formas de manipulação e vigilância que estão sendo feitas por meio de dados coletados pelas tecnologias de inteligência artificial e, claro, compartilhar e incentivar essa reflexão crítica também com os estudantes. 

Se já conseguimos deixar o deslumbramento com a tecnologia de lado para valorizar o “para que” usamos determinada tecnologia, agora precisamos nos atentar para a questão dos dados e fazer melhores escolhas. Não faz sentido tornar escolas instrumentos de fidelização de usuários por parte das empresas que controlam nossos dados.

Não há como prever quais serão os tipos de trabalho que surgirão daqui a 20 anos, mas  hoje já sabemos que se pode manipular comportamentos, opiniões e atitudes por meio dos dados coletados das mais diversas formas, de um simples preenchimento de informações em formulários ou rastros de navegação até expressão facial.

Nesse sentido, será que estamos tomando decisões assertivas em relação às tecnologias que adotamos em sala de aula, com as devidas preocupações em relação aos dados que estão sendo constantemente coletados?  

Em nível macro, Harari propõe aos países em desenvolvimento não evitarem o debate sobre esse tema por acharem que está ainda muito distante da realidade. O mesmo caminho cabe a nós educadores, pois temos o futuro como pauta desde sempre.  

 

Leia também: 

Educação aberta e a proteção dos direitos digitais 

Inovar na educação não depende da ferramenta que você usa 

Educação digital nas escolas precisa incluir alfabetização em dados

Peru, Bolívia e Cuba participam de workshop de educação aberta

A convite do consórcio de universidades flamengas VLUIR-UOS, a diretora-executiva do Educadigital participou como “expert” da América Latina do workshop sobre desenvolvimento de políticas de educação aberta, em Lima

Representantes de universidades de três países da América Latina, Cuba, Bolívia e Peru estiveram reunidos em Lima em um workshop promovido pelo consórcio de universidades flamengas que promove parcerias para apoio financeiro e formação de políticas que respondam aos desafios da sociedade contemporânea. 
Dentre os desafios está a ciência aberta, a educação aberta e o uso de software livre, temas bastante abordados por Priscila Gonsales, diretora-executiva do Educadigital durante o evento. As universidades cubanas presentes ainda tiveram a oportunidade de jogar o Jogo da Política de Educação Aberta para diagnosticar quais são as principais questões que precisam ser enfrentadas e quais as estratégias a serem traçadas. 
Participou também como convidada do evento Silvia Rodrigues, coordenadora de educação a distância da CAPES que apresentou aos participantes toda a história da Universidade Aberta do Brasil e o processo de implementação de política de educação aberta que vem sendo construído desde 2015 com o apoio da Iniciativa Educação Aberta. 

Educação aberta e a proteção dos direitos digitais

Ao ressaltar o uso de licenças flexíveis de direito autoral e a preferência por tecnologias livres, evidencia-se direitos como acesso à informação, liberdade de expressão e privacidade de dados pessoais

Entre os dias 17 e 20 de setembro, estive em Buenos Aires a convite do Centro de Estudos em Liberdade de Expressão e Acesso à Informação (CELE) da Universidade de Palermo para o evento sobre Regulação da Internet na América Latina, organizado em parceria com a Artigo 19 (Brasil e México) e a Fundação Karisma (Colômbia).

Na ocasião, pude apresentar e lançar a versão em espanhol do Jogo da Política de Educação Aberta, ferramenta de formação criada para apoiar gestores (tanto do setor público como do privado) a diagnosticarem suas políticas a partir de três aspectos fundamentais e complementares que precisam ser considerados: pedagógicos, técnicos e jurídicos. O jogo recebeu financiamento da Pan American Development Foundation (PADF) no âmbito do concurso para implementação de iniciativas relacionadas aos direitos digitais.

Mas o que educação aberta tem a ver com direitos digitais?

Educação aberta é definida como um movimento mundial que promove a liberdade de usar, adaptar e redistribuir recursos educacionais, assim como o desenvolvimento de práticas pedagógicas flexíveis e a adoção de tecnologias de padrão aberto. Nesse sentido, a educação aberta também fomenta a importância da garantia de direitos humanos no contexto da internet, os chamados direitos digitais:

  • acesso à informação e ao conhecimento — por fomentar o uso de licenças abertas de direito autoral, especialmente em relação a materiais educacionais financiados com dinheiro público, de forma que fiquem disponíveis à sociedade;
  • liberdade de expressão — por defender a diversidade e a pluralidade de autoria de ideias que possam ser compartilhadas, vindas de manifestações intelectuais, artísticas, científicas e de comunicação;
  • privacidade de dados pessoais — por recomendar a adoção de tecnologias de código aberto em prol da transparência e do controle de dados pelos usuários.

Esse último item, relacionado aos dados pessoais, está agora bastante evidenciado com a aprovação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD nº 13.709/2018), que entrará em vigor em agosto de 2020. A LGPD regulamenta o tratamento dos dados pessoais e vem ao encontro de normativas mundiais sobre privacidade que garantem ao titular dos dados a autonomia para obter informações e tomar decisões. Podemos dizer também que a LGPD representa mais um marco legal brasileiro que fundamenta a privacidade como um direito humano — a questão já está presente na Constituição Federal, no Código Civil, no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Marco Civil da Internet.

Qual a relevância da privacidade nos dias de hoje?

Vivemos hoje em uma sociedade baseada em dados, o famoso “big data“, ou seja, nossos dados são o que existe de mais valioso, não apenas nosso nome, idade, CPF, local de moradia ou trabalho, mas também nossas preferências, comportamentos, opiniões e convicções. Alguns juristas costumam dizer que os dados são a extensão da própria pessoa e é aí que mora a importância do tema. Ter conhecimento sobre como nossos dados são usados é fundamental em um regime democrático.  

Atualmente, quase todas as empresas, das pequenas às grandes usam dados: administradoras de cartão de crédito (sabem seu comportamento de compra), planos de saúde (sabem o que você consome nas farmácias), passando por desenvolvedores de aplicativos os mais diversos até as populares plataformas gratuitas de redes sociais. E mais: na educação, dados de crianças e adolescentes, como histórico escolar, origem familiar e outros dados considerados sensíveis estão sendo usados por sistemas digitais de finalidade administrativa ou instrucional. O interesse de quem coleta dados é alimentar algoritmos para gerar personalizações, criando perfis que, teoricamente, podem permitir aprimorar serviços ou, no caso de empresas, abastecer modelos de negócio baseados em comercialização de produtos ou fidelização de usuários.

É bom lembrar que nem sempre os dados são utilizados de forma ilícita ou, como é comum dizer, para o mal. No entanto, se não houver tratamento adequado para garantir a privacidade e a transparência, podemos cair no problema da vigilância e da violação de direitos.

Não há como garantir educação de qualidade sem que as tecnologias tenham perspectivas inclusivas para não perpetuar o preconceito e a discriminação. Nesse sentido, é preciso criar políticas educacionais assertivas que contemplem os direitos digitais acima mencionados. É fundamental também implementar ações formativas com pais e estudantes, falei sobre isso neste outro artigo.

Muitas escolas e secretarias de educação investem em (ou aceitam “sem custo”) plataformas que utilizam avassaladoramente dados pessoais, ainda que nos documentos digam que não serão usados comercialmente, os rastros digitais permanecem se a pessoa continua “logada”.

Com o Jogo da Política de Educação Aberta, um recurso educacional aberto disponível para baixar e montar ou enviar para impressão em gráfica, é possível debater essa questão institucionalmente na gestão e fazer um diagnóstico, compreendendo o que significa abertura em uma perspectiva ampla, de forma a apoiar o planejamento de melhorias e adequações.

Recomendo também o painel de debates sobre LGPD organizado pelo NIC.br no 4º Seminário sobre Exposição de Crianças e Adolescentes na Internet, realizado dia 17 de setembro. Buscar partir de 1h e 28 minutos.



Morin ontem e hoje e sempre

A visão de um dos principais intelectuais do século 21 sobre a evolução de nossa condição humana é um sopro de esperança e resistência permanente

Ele nem tinha subido ao palco quando foi aplaudido de pé pela plateia lotada. E em pé ele permaneceu durante os quase 90 minutos de conferência, esbanjando toda sua jovialidade aos 98 anos (a serem completados em 8 de julho).

Cada vez que o pensador —sociólogo, antropólogo, filósofo —francês Edgar Morin vem ao Brasil é assim. Considerado uma das mentes mais brilhantes do mundo contemporâneo, Morin é ovacionado do começo ao fim. Com vasta obra acadêmica sobre conhecimento transdisciplinar, Morin falou ontem sobre Estética e Arte no teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros (ver vídeo abaixo).

"Por que nos emocionamos e nos sensibilizamos com o mendigo Carlitos de Chaplin mas se saímos na rua não sentimos o mesmo pelo mendigo da esquina?" "Por que conseguimos sentir compaixão e nos identificar com Vito Corleone de Coppola, mesmo sabendo que ele é um bandido?"

Para ele, é por meio da arte que conseguimos compreender a condição humana com muito mais profundidade. Mais do que dizer que a arte imita a vida, citando Aristóteles, Morin foi incisivo ao pontuar que a arte está na própria vida. E que é preciso ficar atento para observar a estética que emerge a todo instante no campo das artes —sejam elas visuais, textuais, corporais, auditivas, teatrais ou cinematográficas— mas também a estética do nosso cotidiano.

Mas, só é possível vivenciar essa experiência estética da vida se nos colocarmos no que ele chamou de “estado criativo”, no qual as emoções, a imaginação e a sensibilidade estão sempre em evidência. “A prosa da vida assegura a sobrevivência, mas a poesia incentiva a viver”.

Morin é um dos teóricos notórios relacionados ao campo de estudo da Complexidade que, como o próprio termo infere, não se reduz a uma definição fechada. Podemos dizer que se relaciona à ideia de integrar e inter-relacionar saberes, científicos e não-científicos, contraponto à fragmentação em áreas específicas. Natureza e cultura não podem ser vistas separadamente ou, como enfatizado na conferência, a “existência” e a “essência” não são opostos, mas sim componentes do todo.

Em um de seus livros mais famosos e indispensáveis para quem atua em educação, “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, publicado pela UNESCO na década de 90 mas que é uma verdadeira obra de arte por carregar uma mensagem eterna, Morin propõe reflexões rumo a um futuro que é incerto sim, mas desejável, ou seja, com beleza, encantamento e sustentabilidade.

Morin para todo o sempre é inspiração para a vida.

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