Entrevista – Kelli Angelini

Este é o 7º post da série de mini-entrevistas com especialistas e
estudantes convidados que vão apresentar seu ponto de vista para 5 perguntas-chave sobre educar em cidadania digital, tema do nosso novo projeto, a plataforma colaborativa Pilares do Futuro

Advogada atuante na área de Direito Digital. Mestre em Direito Civil
pela PUC/SP. Gerente do jurídico do NIC.br e do CGI.br desde 2002.
Autora dos Guias Internet com Responsa – cuidados e responsabilidades no uso da Internet para pais, educadores e adolescentes. Palestrante e
professora convidada nos cursos de pós-graduação de direito
eletrônico da Escola Paulista de Direito e Insper. Membro do comitê curador da futura plataforma Pilares do Futuro

Como você definiria a importância de educar para a cidadania digital atualmente?

Atualmente a educação relacionada à cidadania digital não só é importante, mas essencial. A cada dia mais a sociedade como um todo, independentemente da faixa etária que se encontra, está mais conectada, ainda mais agora diante da pandemia.

Em pesquisa realizada pelo CETIC.br em 2018, foi apontado que 86% das crianças e adolescentes são usuários da Internet. Portanto, lecionar sobre a cidadania digital é tão importante quanto lecionar sobre as demais matérias presentes na BNCC, como matemática, geografia, história, entre outras.

Falar sobre cidadania digital envolve muito mais do que ter habilidades sobre ferramentas tecnológicas, envolve ensinar para o uso da tecnologia de forma responsável, consciente e crítica e, por isso, precisamos deixar de, ingenuamente, acreditar que crianças e adolescentes já nascem totalmente aptos e habilidosos tecnologicamente. Todos nós precisamos praticar a cidadania digital e quanto mais cedo crianças e adolescentes estiverem envolvidos neste assunto, melhor.

Sabemos, e agora mais do que nunca, que as tecnologias são excelentes aliadas para as atividades  do nosso dia a dia em todos os aspectos. Mas se fizermos uso da Internet sem responsabilidade, o que é ótimo pode se tornar um problema, como por exemplo com situações de cyberbullying, exposição excessiva, fraudes online, violação de direito de imagem, violação de direitos autorais, fakenews,  ofensas e xingamentos online, dentre outros.

Além de ser necessário para todos saberem os deveres a serem cumpridos no ambiente digital, também temos a necessidade de que todos saibam os seus direitos neste ambiente, e principalmente desmitificar que a Internet é uma terra sem leis.

Em tempos de coronavírus, essa urgência aumenta, pois se antes estávamos conectados, hoje estamos muitas vezes mais.

 

Quais os temas você considera prioritários de serem trabalhados pela escola?

Acredito que todos os temas que envolvem cidadania digital tenham sua devida importância, sendo que o conjunto deles forma um cidadão benemérito e ético.

Contudo se for para apontar por onde começar, ressalto a importância de haver o conhecimento sobre direitos constitucionais básicos que muito se aplicam no uso da Internet, como boas ações online, uso adequado da imagem de terceiros em fotos e vídeos, compartilhamento responsável de fotos, vídeos e textos, liberdade de expressão e privacidade na Internet, consequências advindas de ofensas, xingamentos, cyberbullying, constrangimentos, entre outros. Assim como, abordar valores morais e éticos, como respeito ao próximo, empatia, solidariedade, tolerância nas ações no uso da Internet é fundamental.

A importância de cada tema presente no conceito de cidadania digital é percebida na medida em que vemos, frequentemente, jovens sendo punidos por infrações na Internet, como pelo envio ou uso desautorizado de fotos e vídeos, pela prática de xingamentos e ofensas online, fraudes, ameaças, criação de perfis falsos para humilhar e ofender pessoas, etc.

 

Conhece alguma boa prática em cidadania digital que poderia relatar brevemente?

Existem iniciativas muito úteis que podem apoiar escolas e pais a transmitir informações sobre cidadania digital a crianças e adolescentes, cito aqui uma que estou envolvida diretamente, que faz parte do projeto do NIC.br, Internet com Responsa. São mini-livros gratuitos para públicos diferentes, crianças, adolescentes, pais de crianças e adolescentes, idosos, professores, entre outros, estimulando o uso consciente e responsável da Internet e advertindo sobre as consequências de praticar atos irregulares na Internet. Também organizamos periodicamente o Curso de Capacitação para multiplicadores, presencial e totalmente gratuito, tem como público alvo, educadores de instituições públicas e privadas, para que se capacitem a ensinar sobre educação e cidadania digital aos seus alunos. Abordamos diversos temas como: direitos humanos, cyberbullying, direitos e responsabilidades na Internet, valores morais e éticos, nudes, fakenews, entre muitos outros.

 

Como o profissional da educação pode buscar formação e informações sobre temas de cidadania digital?

O Curso de Capacitação que citei anteriormente é uma ótima opção, por isso indico que todos acompanhem as novas turmas. Ademais também existem diversos cursos e materiais, inclusive também gratuitos, disponíveis na internet. O importante é o profissional ficar atento a qual instituição está oferecendo aquelas informações e capacitação, se realmente é uma instituição séria. Essa pesquisa é fundamental. Indico aqui algumas instituições: NIC.br, Safernet, UNICEF, entre outras.

 

De que forma uma plataforma para buscar e compartilhar boas práticas pode apoiar o trabalho docente?

Existem muitas formas de fazer uma colaboração efetiva ao trabalho docente, algumas delas são:

– Colocar em práticas a cidadania digital pela própria plataforma, o que eu quero dizer com isso é, não adianta termos uma excelente ferramenta que não é acessível para deficientes visuais, por exemplo. Ou que privilegia apenas uma classe social. Nem sempre é fácil chegar à perfeição, mas isso deve ser ponderado dentro dos limites que cada plataforma tem.

– Ser intuitiva, pois temos que levar em consideração que nem todos que usarão a ferramenta possuem conhecimento avançado sobre tecnologia;

– Ser aberta a colaborações externas e comentários;

– Manter-se atualizada;

– Ter possibilidades de acesso de forma gratuita;

– Indicar as fontes quando citar dados ou informações e estudos específicos;

-Fazer uma boa divulgação do trabalho realizado pela plataforma para alcançar o maior número de pessoas.

 

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