Entrevista – Raquel Franzim

Este é o 9º post da série de mini-entrevistas com especialistas e
estudantes convidados que vão apresentar seu ponto de vista para perguntas-chave sobre educar em cidadania digital, tema do nosso novo projeto, a plataforma colaborativa Pilares do Futuro

Educadora, com experiência em ensino público, educação para bebês e crianças pequenas e formação de docentes e gestores. Desde 2015 atua no Instituto Alana, onde atualmente coordena a área de educação. É uma das organizadoras das publicações ‘Protagonismo – a potência de ação da comunidade escolar’, ‘O ser e o agir transformador – para mudar a conversa sobre educação’ e ‘Criatividade – mudar a educação, transformar o mundo’. Assina o argumento da série produzida pela Maria Farinha Filmes ‘Corações e mentes, escolas que transformam’. É professora da Pós-Graduação ‘A vez e a voz das crianças: escutas antropológicas e poéticas das infâncias’ na Casa Tombada.

Como você definiria a importância de educar para a cidadania digital atualmente?
Aprender a participar de forma cidadã dentro e fora da internet é imprescindível para lidar com os desafios do século XXI. A educação para a cidadania se estende ao ambiente digital. Não faz mais sentido separarmos o exercício da cidadania de espaços conectados ou não conectados, da vida off-line. Vimos com a pandemia da Covid-19 o quanto o exercício dos direitos civis foram mediados por ferramentas de informação e comunicação e quanto é excludente a falta de acesso à internet e a falta de habilidades necessárias para transitar no mundo digital de forma segura, ética e responsável.
Uma educação pública de qualidade para todos tem que educar estudantes para viver e usufruir das oportunidades do seu tempo. E o tempo atual é marcado pelas tecnologias digitais. Então, a tecnologia e o como usá-la de forma significativa e positiva precisa ser incorporada às práticas pedagógicas da escola. Precisamos conectar a escola de forma qualificada à cultura digital que permeia a vida dos estudantes e professores para construir realmente uma educação com equidade e contemporânea à vida das crianças, jovens e todos os estudantes.

Quais os temas você considera prioritários de serem trabalhados pela escola?
As ameaças no ambiente digital são muitas assim como aquelas dos diferente espaços sociais que transitamos.
É comum o ensino relacionado à cidadania digital  a partir de uma abordagem nos danos que crianças e adolescentes possam sofrer na experiência de navegar pela internet de forma descuidada ou sem orientação.
No entanto, questões específicas de exposição à violências no mundo online refletem os problemas sociais que precisam ser tratados também no mundo offline. E o importante é que os professores convidem os estudantes a refletirem criticamente sobre esses problemas a partir de suas próprias visões e experiências, sendo protagonistas tanto na sua leitura quanto na sua resolução.
Um bom caminho para prevenir situações de violência e promover uma relação ética tanto com o mundo analógico quanto digital não se dá com apenas uma ação. Precisa ser um conjunto articulado e intencional, em toda a educação básica que envolve desde a capacidade de ler o mundo de forma crítica, de desenvolver autoconhecimento e autocuidado até o de aprender a identificar situações de vulnerabilidade, de fazer boas escolhas, de gerenciar as situações de risco de forma ética para evitar o dano. Também quando pensamos no desenvolvimento socioemocional dos estudantes o ambiente digital é repleto de oportunidades de aprendizagem sobre reconhecer necessidade de si e do outro, ter empatia, relacionamento social baseado no respeito incondicional, liberdade, autonomia, colaboração, acolhimento e valorização da diversidade. Ou seja, estamos falando de uma educação em uma perspectiva de direitos humanos mediadas pelas tecnologias.

 

Gostaria de recomendar algum material ou publicação de orientação que pode inspirar a elaboração de boas práticas?
Recentemente, o Instituto Alana produziu uma série de conversas online sobre Ser criança no mundo digital com o apoio do Nic.br, Safernet Brasil e Portal Lunetas. Duas das conversas trazem a educação, a participação e a cidadania digital para o centro do debate. Vale conferir.

 
 
Conhece alguma boa prática em cidadania digital que poderia relatar brevemente?
Vou aqui dar um exemplo que elucida o protagonismo dos estudantes na utilização de plataformas digitais como forma de expressão, promoção de causas e projetos de impacto social. Estudantes dos 7º e 8º anos do Ensino Fundamental do Colégio Municipal Professora Didi Andrade, em Itabira (MG), não se sentiam ouvidos ou atendidos em suas necessidades e angústias para expressar suas opiniões e denunciar com segurança práticas de violências e preconceitos, tanto dentro como fora das salas de aula.  
Para dar visibilidade para temas como racismo, abuso, violência doméstica e machismo, a turma planejou, com o apoio de professores e da gestão escolar, uma maneira criativa e respeitosa de divulgar essas histórias: promoveram rodas de conversa, construíram histórias a partir dos depoimentos, que foram dados de forma anônima, e interpretaram o roteiro em vídeos compartilhados em um canal de YouTube.
As primeiras sessões foram exibidas apenas no ambiente escolar, durante as aulas, como forma de trazer novas reflexões, incentivar a solidariedade, a empatia e abrir um canal para o diálogo. Depois os vídeos ficaram abertos. Os alunos envolvidos no projeto relatam que tiveram com esse projeto a experiência de sentirem a potência de sua voz porque ao gravar um vídeo para o mundo, estão contribuindo para combater preconceitos e violências que os afetam.
 
 
O que você considera mais desafiante: elaborar uma atividade educativa sobre cidadania digital ou registrar e compartilhar a atividade?  
Os desafios estão nas duas. São complementares, não podemos separar. O registro das práticas educativas é muito importante para criar uma memória das boas práticas e contribuir para sua sustentabilidade e como também para inspirar outros professores e professoras. Nada mais formativo do que um colega contando dos desafios e das possibilidades para outros colegas.

 

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