Entrevista – Guilherme Klafke

Este é o 8º post da série de mini-entrevistas com especialistas e
estudantes convidados que vão apresentar seu ponto de vista para perguntas-chave sobre educar em cidadania digital, tema do nosso novo projeto, a plataforma colaborativa Pilares do Futuro

Professor do programa de pós-graduação lato sensu e líder de projetos e pesquisador do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV DIREITO SP. Doutor e mestre em Direito Constitucional pela Universidade de São Paulo. Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo. É colaborador da Sociedade Brasileira de Direito Público desde 2011, onde coordenou a Escola de Formação Pública (2017). Foi professor de Filosofia do Direito da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo (2017-2018). Membro do comitê curador da plataforma Pilares do Futuro

Como você definiria a importância de educar para a cidadania digital atualmente?

Há um tempo houve uma moda de programas de sobrevivência. A pessoa era largada em florestas, desertos, ilhas e tinha que sobreviver. Imagine entrar num ambiente que pode ser perigoso, mas sem nenhum preparo, contando só com a sorte de que nada aconteça com você. As tecnologias podem ser isso. Para mim, uma primeira importância da educação para cidadania digital é preparar as pessoas para não serem prejudicadas pela tecnologia, ainda que elas mesmas não a usem.

Mas essas tecnologias não são apenas fonte de riscos. Elas também criam oportunidades e fortalecem laços entre as pessoas. A segunda importância, e talvez a mais relevante, é formar pessoas capazes de desenvolver-se e exercer a sua cidadania nos ambientes digitais e por meio de instrumentos digitais. E cidadania não é somente o conjunto de direitos que nós temos (direito à imagem, direito à saúde, etc.), mas também o conjunto de deveres que temos perante ao próximo e à sociedade. É por isso que não podemos apenas enfatizar o direito à informação de qualidade, mas devemos ressaltar nosso dever de não causar desinformação e pânico.

Quais os temas você considera prioritários de serem trabalhados pela escola?

Tecnologias digitais não são apenas tecnologias de informação e comunicação e não se resumem à internet. Acho essa a primeira ideia fundamental. A escola deve ser capaz de formar as pessoas para entenderem como o “digital” as afeta nas mais variadas esferas da vida, ainda que não diretamente. Por exemplo: o que significa estar numa escola com câmeras de reconhecimento facial? Ainda que não seja Internet, é algo que afeta a dinâmica daquele lugar.

Mas se enfocarmos apenas a Internet, existe uma ideia de “escada de participação online” de crianças e adolescentes. São estatísticas que mostram que, de acordo com a idade, as pessoas fazem mais ou menos atividades específicas nas redes. No Brasil, a pesquisa TIC Kids Online, do Cetic.br, dá uma ideia dessas atividades. Para mim, a formação deveria acompanhar essas informações aplicadas ao contexto social de crianças e adolescentes da escola específica.

Em síntese: 58% de crianças de 9 a 10 anos já baixaram aplicativos na internet. As escolas têm que conscientizá-las desde antes sobre o que significa “baixar um aplicativo” e trabalhar questões como “compras em jogos”, interação com pessoas desconhecidas em jogos e aplicativos, além de questões de saúde que acompanham essas atividades e são relevantes. Apenas para ficar com alguns exemplos.

Gostaria de recomendar algum material ou publicação de orientação que pode inspirar a elaboração de boas práticas?

Tive a oportunidade de liderar um projeto no Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV Direito SP (CEPI FGV Direito SP), em parceria com o NIC.br, para elaboração de 16 cursos de formação em temas de direitos humanos digitais. São vários temas, que cobrem desde cyberbullying e intimidade, até termos de uso e proteção de dados. O projeto foi coordenado pela Marina Feferbaum e pela Kelli Angelini e os cursos estão disponíveis neste link.

Além disso, fizemos um conjunto de webinars em que muito conteúdo bom foi indicado. A compilação pode ser encontrada em dois textos que fizemos:

O que aprendemos sobre jovens e Internet? (Parte 1) – O que aprendemos sobre jovens e Internet? (Parte 2


Conhece alguma boa prática em cidadania digital que poderia relatar brevemente?

Durante nossas conversas com colégios tivemos a oportunidade de conhecer um grupo de trabalho interinstitucional, composto por membros de equipes de tecnologia de diferentes escolas, que se reuniam para discutir vários temas, casos concretos e outras questões. O nome era TE & TI Partners, tocado pela Grace Kelly, do Colégio Miguel de Cervantes. Eu considero a criação de uma rede de profissionais de diferentes escolas uma iniciativa muito boa para trocas e experiências.

Além disso, eu não poderia deixar de mencionar as atividades realizadas no Dia da Internet Segura, organizado principalmente pela SaferNet Brasil. É um conjunto inspirador de dinâmicas e atividades conduzidas por diferentes atores no mês de fevereiro. Tem vídeos, materiais didáticos, sugestões de dinâmicas. Dá para se ter uma ideia pelo seguinte link


O que você considera mais desafiante: elaborar uma atividade educativa sobre cidadania digital ou registrar e compartilhar a atividade?

Cada uma dessas atividades têm desafios e dinâmicas específicas. Elaborar uma atividade educativa é sempre um desafio, especialmente porque a gente prepara a atividade pensando numa tecnologia (por exemplo, Facebook), apenas para descobrir que os estudantes estão usando outra, com uma linguagem e uma dinâmica completamente diferente (por exemplo, TikTok). Por causa desses choques e da enorme quantidade de situações específicas que podem aparecer na relação com as tecnologias digitais, costumo recomendar que todas as atividades procurem partir do que os estudantes fazem e vivenciam. O papel da professora ou do professor nessa situação é tentar conectar as várias situações, contribuindo para que os estudantes criem uma reflexão crítica sobre a sua posição na Internet e a sua relação com as tecnologias.

Já o registro e o compartilhamento das atividades tem desafios administrativos, de gerenciamento de tempo e organização, e um obstáculo de difusão. Os incentivos para escrever e compartilhar a atividade seguem a probabilidade de que essa atividade seja lida por outras pessoas, certo? Então, é extremamente importante que o compartilhamento das atividades seja acompanhado por uma efetiva divulgação e troca de experiências. Acho que aqui é muito importante a existência de pessoas inovadoras nas escolas, docentes e até mesmo pais que possam levar esses materiais para a comunidade escolar, divulgando e estimulando a adoção.

Acho que aqui está o grande mérito da Pilares do Futuro como plataforma acessível para pessoas de vários lugares do País. Como parte do Comitê Curador, imagino que o meu papel é contribuir para que esses registros estejam claros e fáceis para que outras pessoas possam compreendê-los e aplicá-los. Na verdade, é quase como se a gente estivesse aqui oferecendo sugestões para que os chefes de cozinha (nossos professores autores) detalhassem ao máximo suas receitas para que outras pessoas pudessem tentá-las em casa. Pode dar super certo, mas pode dar super errado também. Mas o importante é que, depois de entender como fazer, fica mais fácil aplicar e aplicar novamente.

 

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