Morin ontem e hoje e sempre

A visão de um dos principais intelectuais do século 21 sobre a evolução de nossa condição humana é um sopro de esperança e resistência permanente

Ele nem tinha subido ao palco quando foi aplaudido de pé pela plateia lotada. E em pé ele permaneceu durante os quase 90 minutos de conferência, esbanjando toda sua jovialidade aos 98 anos (a serem completados em 8 de julho).

Cada vez que o pensador —sociólogo, antropólogo, filósofo —francês Edgar Morin vem ao Brasil é assim. Considerado uma das mentes mais brilhantes do mundo contemporâneo, Morin é ovacionado do começo ao fim. Com vasta obra acadêmica sobre conhecimento transdisciplinar, Morin falou ontem sobre Estética e Arte no teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros (ver vídeo abaixo).

"Por que nos emocionamos e nos sensibilizamos com o mendigo Carlitos de Chaplin mas se saímos na rua não sentimos o mesmo pelo mendigo da esquina?" "Por que conseguimos sentir compaixão e nos identificar com Vito Corleone de Coppola, mesmo sabendo que ele é um bandido?"

Para ele, é por meio da arte que conseguimos compreender a condição humana com muito mais profundidade. Mais do que dizer que a arte imita a vida, citando Aristóteles, Morin foi incisivo ao pontuar que a arte está na própria vida. E que é preciso ficar atento para observar a estética que emerge a todo instante no campo das artes —sejam elas visuais, textuais, corporais, auditivas, teatrais ou cinematográficas— mas também a estética do nosso cotidiano.

Mas, só é possível vivenciar essa experiência estética da vida se nos colocarmos no que ele chamou de “estado criativo”, no qual as emoções, a imaginação e a sensibilidade estão sempre em evidência. “A prosa da vida assegura a sobrevivência, mas a poesia incentiva a viver”.

Morin é um dos teóricos notórios relacionados ao campo de estudo da Complexidade que, como o próprio termo infere, não se reduz a uma definição fechada. Podemos dizer que se relaciona à ideia de integrar e inter-relacionar saberes, científicos e não-científicos, contraponto à fragmentação em áreas específicas. Natureza e cultura não podem ser vistas separadamente ou, como enfatizado na conferência, a “existência” e a “essência” não são opostos, mas sim componentes do todo.

Em um de seus livros mais famosos e indispensáveis para quem atua em educação, “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, publicado pela UNESCO na década de 90 mas que é uma verdadeira obra de arte por carregar uma mensagem eterna, Morin propõe reflexões rumo a um futuro que é incerto sim, mas desejável, ou seja, com beleza, encantamento e sustentabilidade.

Morin para todo o sempre é inspiração para a vida.

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