Entrevista – Fernanda Furia

Terceiro post da série de mini-entrevistas com especialistas e
estudantes convidados que vão apresentar seu ponto de vista para 5 perguntas-chave sobre educar em cidadania digital, tema do nosso novo projeto, a plataforma colaborativa Pilares do Futuro

Fundadora do Playground da Inovação- consultoria de Inovação em Psicologia e Educação. Mestre em Psicologia de crianças e adolescentes pela University College London na Inglaterra. Professora de “Psicologia da Inovação” na FIAP (SP). Professora de Habilidades Socioemocionais da pós-graduação “Formação Integral” no Instituto Singularidades (SP). Foi professora assistente na The American School em Londres. Foi mentora do Social Good Brasil- organização de tecnologia para transformação digital. Membro da The British Psychological Society da Inglaterra. Especialista em Psicoterapia de crianças e Adolescentes pelo Instituto Fernandes Figueira (Fiocruz- RJ). Psicóloga pela PUC-RJ. Foto: Arquivo pessoal

Como você definiria a importância de educar para a cidadania digital atualmente?

A educação para a cidadania digital é um direito de todos. Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos devem ser contemplados na construção de políticas públicas e de iniciativas que nos prepare para os novos tempos. A alta complexidade do mundo atual, em grande parte, impulsionada pelo rápido avanço tecnológico exige uma integração e uma parceira de vários setores da sociedade: governo, universidades, empresas multinacionais de tecnologia, startups e instituições de ensino em geral. Somente desta forma poderemos continuar a nos desenvolver de forma ética, sustentável e afetiva em um cenário ultratecnológico.


Quais os temas você considera prioritários de serem trabalhados pela escola?

Antes de tudo, é importante que as escolas definam como elas irão se posicionar com relação ao mundo digital. Questões sobre a infraestrutura tecnológica da escola, as tecnologias usadas pelo corpo docente e pelos os alunos, a gestão de conflitos no âmbito digital envolvendo alunos e a integração do brincar com tecnologias digitais são pilares de sustentação da educação para a cidadania digital. Além disso, a escola tem um papel importante em trazer discussões e ações mais amplas sobre as tecnologias avançadas e as necessidades do mundo. Estas atividades têm o potencial de formar alunos capazes de pensar de forma global e de serem agentes de transformação social. Outro ponto crucial é o foco na integração de três dimensões da Cidadania Digital: a técnica, a emocional e a social. Aulas de programação, desenvolvimento de aplicativos, robótica, criação de canais no Youtube, inteligência artificial e Big data são aprendizados fundamentais para as novas gerações. Porém, pela minha experiência, a competência técnica é atravessada pelas habilidades socioemocionais e a combinação das competências técnicas com as habilidades socioemocionais têm um impacto profundo no social. Ou seja, a capacidade técnica é favorecida ou atrapalhada pelas questões psicológicas individuais que, por sua vez, impactam a sociedade como um todo. Neste sentido, o conceito de Inteligência Emocional-Digital é uma ótima ferramenta para entender como nos posicionamos no mundo digital e como podemos maximizar as nossas competências digitais. A partir do desenvolvimento da inteligência emocional-digital será possível abordar com os alunos e educadores vários aspectos que afetam as pessoas no mundo digital: saúde mental-digital, cyberbullying, ética, direitos digitais, fake news, deep fake, rastro digital, inclusão digital, segurança cibernética, etc… A Inteligência Emocional-Digital é um conjunto de habilidades sociais e emocionais aplicadas ao mundo digital:

1- Conhecimento da linguagem das tecnologias que usamos.
2- Abertura para aprender e incluir novas tecnologias no cotidiano.
3- Entendimento sobre os próprios hábitos tecnológicos e comportamentos nas redes sociais.
4- Gestão das emoções quando estamos online.
5- Reflexão sobre o impacto das tecnologias no desenvolvimento pessoal.
6- Comunicação eficaz e respeitosa nos diferentes canais digitais.
7- Empatia com o comportamento e com as emoções dos outros online.
8- Habilidade de se relacionar com as tecnologias e com o ambiente online de forma sensata, consciente e ética.
9- Desenvolvimento de uma visão crítica sobre os conteúdos produzidos e compartilhados na internet.
10- Criação de uma estratégia sobre o próprio posicionamento nas redes sociais, considerando os objetivos de vida e profissional.
11- Criatividade para desenvolver tecnologias que atendam as necessidades humanas.
12- Compreensão do impacto social e global das novas tecnologias na evolução da Humanidade.


Conhece alguma boa prática em cidadania digital que poderia relatar brevemente?

Um caminho bastante eficaz quando se trabalha com crianças e adolescentes é abrir uma janela de comunicação direta para conhecer as estórias vividas por eles no âmbito digital. Desta forma podemos criar junto com eles iniciativas pontuais e/ou programas mais longos de educação digital alinhados à realidade prática das novas gerações. Uma forma lúdica de educar para a cidadania digital é usar filmes como ponto de partida para discussões mais aprofundada sobre o tema. Big HeroWally-E e Wifi Ralph são ótimos exemplos de filmes que reúnem vários aspectos sociais, emocionais e técnicos sobre o universo digital e ainda levantam questionamentos éticos vitais para o mundo atual e futuro.
Uma instituição que considero uma referência no tema da Cidadania Digital é do DQ Institute que lançou o “DQ Global Standards Report 2019- Common Framework for Digital Literacy, Skills and Readiness”, reunindo práticas globais de várias organizações internacionais.


Como o profissional da educação pode buscar formação e informações sobre temas de cidadania digital?

Precisamos cada vez mais de uma combinação de diferentes formas de aprendizado sobre cidadania cigital. Podemos nos informar através de canais especializados, buscar informações em websites de referência, visitar instituições que já estão mais avançadas nestas práticas e trocar com profissionais de diferentes áreas. No campo do autoconhecimento, acho fundamental o educador desenvolver um “Eu Digital”, ou seja, refletir sobre a sua relação pessoal com o ambiente digital e com o uso das tecnologias. Reflexões do tipo “Como eu me sinto ao lidar com esta ferramenta tecnológica? Que tipo de emoções a internet e as redes sociais evocam em mim? De quais redes sociais eu devo participar e por quê?” são essenciais para o desenvolvimento de uma inteligência emocional-digital. Outros elementos importantes para o Eu Digital são a manutenção de hábitos pessoais digitais seguros e sem excessos e a construção de uma “identidade digital” coerente com as atitudes e os valores que exercemos no cotidiano. Além disso, a consciência do rastro digital que deixamos ao usar a internet e a pesquisa sobre quais tecnologias podem nos auxiliar na organização do cotidiano e no nosso bem-estar geral ajudam a construir uma saúde mental digital.


De que forma uma plataforma para buscar e compartilhar boas práticas pode apoiar o trabalho docente?

Uma plataforma digital capaz de reunir em um único lugar informações de qualidade, com diferentes níveis de aprofundamento e baseada em experiências reais de sucesso e fracasso pode servir como um guia confiável para inspirar os educadores. Além disso, uma plataforma que favorece a colaboração e a troca entre as pessoas funciona como um amparo emocional em momentos de desafios e construção.

 

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Pilares do Futuro Entrevista – Roxane Rojo
Pilares do Futuro Entrevista – Rosa Lamana

Cidadania Digital é o 3º tema de maior interesse entre os professores 

Entrevista – Roxane Rojo

Segundo post da série de mini-entrevistas com especialistas e 
estudantes convidados que vão apresentar seu ponto de vista para 5 perguntas-chave sobre educar em cidadania digital, tema do nosso novo projeto, a plataforma colaborativa Pilares do Futuro

Professora livre-docente do Departamento de Linguística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, autora e organizadora de publicações referenciais sobre alfabetização, letramento, multiletramentos e linguística.  Fez estágio de Pós-Doutorado em Didática de Língua Materna na Université de Genève (UNIGE), sob a direção de Jean-Paul Bronckart (1996).  
Crédito da foto: Escrevendo o Futuro 

Como você definiria a importância de educar para a cidadania digital atualmente?

Podemos dizer que mídia digital é o principal canal de comunicação hoje em dia, seja para contatos sociais, comunicação, informação, aprendizagem ou trabalho. Participar ativamente na mídia digital, seja em redes sociais ou de mídia, requer redobradamente senso cidadão. Nesse sentido, educar para isso torna-se cada dia mais importante. 


Quais os temas você considera prioritários de serem trabalhados pela escola?

Cidadania digital, funcionamento das TDIC (Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação), dimensões humana, econômica, social e cultural do desenvolvimento, uso das tecnologias, mudanças de mentalidade da Web 1.0 a 2.0, criatividade, remix e propriedade intelectual, compartilhamento, colaboração e ética, acesso, segurança de dados e privacidade.


Conhece alguma boa prática em cidadania digital que poderia relatar brevemente?

Citizens connect (Boston, EUA); E-Cidadãos (Estônia, ), Plataforma da Cidadania Digital (Brasil, ) WikiLeaks (Assenge)


Como o/a profissional da educação pode buscar formação e informações sobre temas de cidadania digital?

Na própria Web 


De que forma uma plataforma para buscar e compartilhar boas práticas em cidadania digital pode apoiar o trabalho docente?

Plataforma como essas já existem e contribuem para a docência, por exemplo, a plataforma Currículo+ da SEE-SP ou o repositório Escola Digital (parceiros). Mas não necessariamente para a cidadania e sim para o ensino.


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Pilares do Futuro Entrevista – Rosa Lamana

Cidadania Digital é o 3º tema de maior interesse entre os professores 

Entrevista – Rosa Lamana

Primeiro post da série de mini-entrevistas com especialistas e
estudantes convidados que vão apresentar seu ponto de vista para 5 perguntas-chave sobre educar em cidadania digital, tema do nosso novo projeto, a plataforma colaborativa Pilares do Futuro

Graduada em Educação Artística pela Faculdade Mozarteum de São Paulo, especialização em Tecnologias em Educação pela PUC/RJ e mestrado em Educação: Currículo pela PUC/SP. Professora da rede pública estadual, Ensino Fundamental I, II e Ensino Médio. Atualmente compõe a equipe da Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Professores do Estado de São Paulo. Foi membro colaborador da Comissão de Educação Digital da OAB de São Paulo, é integrante do grupo de pesquisa Comunidade Práxis.  

Como você definiria a importância de educar para a cidadania digital atualmente?

Somos cercados pela tecnologia. Mas será que sabemos usá-las adequadamente? Qual a importância de ler os termos de uso de aplicativos e plataformas antes de aceita-los? Como saber se uma informação é verdadeira ou não? Muitas vezes nós somos pegos nessas questões sem saber resolve-las. A necessidade do trabalho nesse tema vai além do uso de redes sociais. Envolve nossa vida social, financeira, nossos ambientes de trabalho, etc. Educar para a cidadania digital é educar para a vida. As 10 competências da BNCC trazem isso claro, pois  destacam a importância da argumentação, pesquisa, responsabilidade e cidadania, conhecimento, pensamento científico crítico e criativo, comunicação, empatia e cooperação, trabalho e projeto de vida, cultura digital e repertório cultural

Quais os temas você considera prioritários de serem trabalhados pela escola?

O tema cidadania digital é muito amplo e todos os temas são importantes. Deve-se considerar a faixa etária com a qual o professor irá trabalhar, além das necessidades da turma com a qual ele trabalha. Considero importante a observação dos alunos para compreender o que acontece com eles e, de acordo com isso, trabalhar as vertentes desse tema. Em algumas idades a vertente pode ser a mesma porém com um aprofundamento maior.

Conhece alguma boa prática em cidadania digital que poderia relatar brevemente?

Algo bem interessante é mostrar aos alunos algumas imagens de propagandas (antigas ou atuais). A partir daí, propor uma discussão. Por exemplo: o que faz aquela propaganda ser confiável ou leva-lo a comprar o produto? Mostrar ao aluno que é preciso que a imagem mostre que o produto é bom ou tenha como garoto propaganda alguém que inspire confiança. Além disso, as palavras usadas também devem inspirar confiança e convencer o consumidor que o produto é bom e indispensável. Depois dessa discussão, vale formar  grupos e distribuir  temas (diferente para cada grupo). Deverão pesquisar o tema que receberam e construir um texto sobre ele. Para um dos grupos o (a) professor(a) dá a comanda de que devem inserir uma informação falsa de forma convincente. Quando todos os grupos terminarem os respectivos textos deverão compartilhar com toda a turma e os ouvintes receberão a comanda de dizer se as informações são novas para eles. Também é possível que o (a) professor(a) deixem a turma ter acesso ao texto escrito e pesquisem a veracidade ou não das informações.

Essa atividade é interessante para que os alunos percebam que as informações podem transmitir ideias erradas sobre os assuntos sendo necessário verificar a veracidade ou não delas. Os temas podem ser dados de acordo com o conteúdo da atividade que está sendo trabalhada pelo professor.

Como o/a profissional de educação pode buscar formação e informações sobre temas de cidadania digital?

A internet fornece alguns bons caminhos para esse trabalho através de plataformas que tratam sobre o tema. Outro recurso que pode ser usado pensando diretamente na escola são as plataformas colaborativas onde professores podem compartilhar os trabalhos que realizam e juntos trocar ideias e aperfeiçoar as que já existem.

De que forma uma plataforma para buscar e compartilhar boas práticas pode apoiar o trabalho docente?

Plataformas que permitem a troca de ideias trazem vivências semelhantes que podem ser discutidas, ampliadas, modificadas de acordo com a necessidade da turma que o professor está trabalhando. O trabalho colaborativo contribui para troca de experiências exitosas ou não. Acredito que mesmo uma experiência não exitosa pode contribuir no trabalho de outros professores pois ela permite que outros possam corrigir os possíveis “erros” que fizeram com que a experiência não desse certo. Até mesmo experiências que não deram certo com algumas turmas podem ser ótimas para outras.