“Mais importante do que falar de tecnologia na educação, é falar de cultura digital”

Priscila Gonsales, Diretora-Executiva do Instituto Educadigital colaborou com a matéria Inserir a Educação no mundo digital pode melhorar a qualidade de ensino do Blog Educação, veja abaixo.

As novas tecnologias já fazem parte do cotidiano da maior parte dos estudantes brasileiros. A pesquisa de Tecnologia da Informação e Comunicação – TIC, na categoria Kids Online, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI, em 2012, comprovou que 47% das crianças entre 9 e 16 anos usam a internet todos os dias no país; 38% utilizam de duas a três vezes por semana; e apenas 5% utilizam uma vez por mês. Com base em dados como esses, especialistas acreditam que uma das grandes questões a enfrentar para garantir a qualidade do ensino seja a dificuldade existente para inserir a Educação no mundo digital.

“A nossa sociedade está mudando. Então, mais importante do que falar de tecnologia na educação, é falar de cultura digital”, disse a diretora do Instituto Educadigital, Priscila Gonsales. Para ela, a cultura digital que temos, hoje, não está inovando a maneira de ensinar. “Quando falamos só em tecnologia digital na educação, podemos, muitas vezes, fazer mais do mesmo. Você não muda as práticas e metodologias antigas só disponibilizando e introduzindo os equipamentos. Na verdade, precisamos começar a pensar em como mudar a lógica, em como a escola se abre para o mundo que está lá fora”, explicou.

Ao mudar a cultura digital atual, a escola atuaria como questionadora das novas formas de ser e estar. “A internet está criando valores que não tínhamos antes. A instituição de ensino, dessa forma, pode criar reflexões do tipo ‘identidade virtual versus identidade presencial’. Dá para ser duas pessoas ao mesmo tempo? Qual deve ser a postura no meio digital, já que todo mundo pode publicar o que quiser?”, exemplificou a diretora.

Além de assumir esse papel, a instituição de ensino, segundo Gonsales, teria que explorar três focos de aprendizagem: a pesquisa, a comunicação e a publicação. O primeiro ensinaria o aluno a como pesquisar, como achar o que procura em meio a quantidade ilimitada de informações que a internet proporciona. “É interessante pensar que, hoje, temos a vantagem de as coisas não serem totalmente confiáveis, porque é importante para o aprendizado o aluno saber desconfiar das informações, poder buscar em várias fontes, comparar e chegar ao que realmente vai ser útil”, contou a diretora.

O segundo foco, a comunicação, ou trabalho coletivo, abre o universo de informações da escola e permite o intercâmbio de informações com a sociedade. “As redes digitais possibilitam a comunicação entre escolas. Uma escola do Sul do país pode falar com uma escola do Norte. E, de repente, fazer um trabalho em conjunto, colaborativamente, respeitando as diversidades regionais”, sugeriu Gonsales.

Por fim, o foco na publicação ensina sobre a responsabilidade ao criar um conteúdo próprio e divulgá-lo na rede. “A criação de conteúdo próprio é muito positiva para o aluno. Mas, ele deve saber de sua responsabilidade diante do que publica. A escola pode ajudá-lo a compreender melhor seu papel no mundo digital”, afirmou.


O papel do professor

Desde que a internet se tornou ponto fundamental na vida do estudante, o professor e os livros didáticos deixaram de ser a única fonte de informação nas escolas. Por isso, o educador, segundo Gonsales, deve ser o facilitador da aprendizagem. “É por meio dessa nova dinâmica que a educação precisa pensar nas tecnologias digitais e em como, de fato, se consegue envolver os estudantes para que eles sintam vontade de aprender, para que a aprendizagem seja uma coisa para a vida toda – não só aquelas disciplinas específicas do currículo de cada ano.”

Para tanto, a especialista acredita que o professor deve deixar o medo de lado. “Ele tem que experimentar. Não dá para achar que precisa aprender primeiro para trabalhar e aplicar as tecnologias digitais na escola. A tecnologia se renova sempre. Por isso, é importante que ele experimente com seus alunos, porque eles também têm muito o que ensinar. Vamos todos aprender juntos.”

A introdução dessa cultura nas escolas não tem fórmula mágica. Para a diretora, isso deverá acontecer a partir do momento que estimular a troca de experiências entre os professores. “Na pesquisa TIC Educação, tanto de 2010 quanto de 2011, 70% dos professores revelaram que aprendem melhor sobre como inserir a tecnologia na aprendizagem quando trocam informações uns com os outros, informalmente”, explicou. Esse estímulo, para ela, partiria das políticas públicas voltadas à Educação. “Hoje, existem muitos programas de entrega de equipamentos nas escolas públicas, o que é muito bom, mas ainda falta uma formação continuada que estimule o professor a implantar a tecnologia em sala de aula. E não é alguém chegar e ensinar, é propiciar espaços de aprendizagem entre os professores. Isso é uma coisa que não vemos na política pública”, conclui.

Continue lendo e veja boas práticas de professores que integram e inovam com tecnologia na sala de aula.

Novo paradigma educacional: Bianca Santana fala sobre REA

Bianca Santana, diretora de educação do Instituto Educadigital conversou com a Revista ARede, edição nº 83 – agosto de 2012, para falar sobre Recursos Educacionais Abertos. Veja abaixo e não esqueça de citar a revista ARede ao republicar a notícia.

UMA ABORDAGEM diferente sobre como o conteúdo é usado nas escolas, os recursos educacionais abertos (REA) vêm ganhando espaço entre os profissionais da área pela liberdade de trabalho que proporciona. Quem usa REA é ao mesmo tempo consumidor e produtor do conteú­do, se assim quiser. Não por acaso, já na primeira página da obra Recursos Educacionais Abertos – Práticas Colaborativas e Políticas Públicas, lê-se o convite “Remixe este livro”. Recém-lançado pela Casa da Cultura Digital em parceria com a Editora da Universidade Federal da Bahia, a publicação reúne reflexões, experiências, depoimentos e entrevistas de professores e outros profissionais que vêm descobrindo o potencial dos REA. Seguindo os preceitos dessa abordagem, a obra foi licenciada sob Creative Commons e pode ser baixada na internet livremente.

A pesquisadora, educadora e jornalista Bianca Santana, uma das organizadoras do livro, explica o que os REA possibilitam: “Imagine que preciso usar a imagem de uma flor em algum trabalho escolar. Se a imagem escolhida, seja em um livro ou em um site na rede, tiver o símbolo de copyright, não posso utilizá-la. Mas se for um recurso educacional aberto, sim, será possível usá-la. Isso vale tanto para textos quanto para imagens e aplicativos que geralmente estão sob licença Creative Commons”.

Da mesma forma que o software livre fez com a tecnologia, os REA transformam o processo de ensino e aprendizagem dentro e fora das escolas. “Esse formato está associado à liberdade de acesso ao conhecimento, à capacidade de investigação e de criação de coisas novas. Uma educação de verdade é aquela que forma pessoas críticas, que produzem inovação. O uso de REA é uma maneira de transmitir para as pessoas que elas podem e têm condições de interferir no mundo”, defende Bianca.


Os REA se tornaram um movimento social?
Bianca Santana Já existe bastante gente engajada em um movimento que está crescendo no Brasil. Entre as pessoas que participam ativamente via Facebook ou lista de discussão, há mais de 500 envolvidos. Esse número inclui professores, estudantes de graduação, pensadores de universidade pública, profissionais de TICs, participantes de movimentos sociais que trabalham com educação fora da escola, advogados. Quando comecei, em 2009, quase não existia material sobre REA. Naquela época, o grupo de discussão somava apenas 40 pessoas envolvidas em cultura digital.


A que se deve esse crescimento?
Bianca – Pela importância dessa proposta educacional. Para se ter uma ideia, estava na Conferência Nacional de Educação (Conae) explicando o conceito dos REA para uma professora de ensino fundamental do Pará, quando ela disse: “Sei porque isso é importante. Hoje eu recebo um livro didático de história e geografia que tem cinco páginas falando sobre os japoneses em São Paulo e só dois parágrafos falando do estado do Pará. Sou de uma comunidade ribeirinha, que é muito diferente de outra comunidade da região, mas nada é mostrado.”


Como os REA podem ajudar a resolver a limitação do livro didático?
Bianca – Se o livro estivesse disponível na internet, a professora do Pará, por exemplo, poderia alterar esse conteúdo. Poderia, junto com os alunos ou com outros professores, acrescentar informação sobre sua comunidade local. E esse material se transformaria em uma informação oficial para ser compartilhada por outros professores e estudantes do Brasil, inspirando mais iniciativas como essa. Às vezes, muito mais importante do que adaptar um material que já vem pronto, é dar vazão para as produções locais. A política pública precisa olhar para essa questão. Não dá para o governo continuar pagando fortunas para as grandes editoras produzirem em São Paulo e Rio de Janeiro, grandes polos editoriais. É preciso distribuir recursos para produzir material em todos os lugares, pois o conhecimento não está apenas nas grandes capitais.


Como as editoras estão reagindo?
Bianca – Elas estão assustadas, o que é uma bobagem. A editora estadunidense Flat World Knowledge é comercial, mas produz REA e não deixou de ser lucrativa por causa disso. Só mudou o modelo de negócio. Certa vez, Ronaldo Lemos [coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-RJ e do projeto Creative Commons no Brasil] disse em uma entrevista que o educacional seria o próximo setor a se mexer, tal como aconteceu com o musical. É no que acreditamos. Há necessidade de uma mudança para criar um novo modelo de negócio porque o que está em jogo é dar acesso ao conhecimento e flexibilizar o direito autoral.


Essa é a razão pela qual a questão do copyright está ligada aos REA?
Bianca – Sim. Não dá para falar de REA sem pensar na lei do direito autoral. Para se ter uma ideia, hoje não se encontra Cecília Meireles nem Manuel Bandeira em livro didático porque as famílias dos escritores não deixam publicar. Diante disso, o que é mais importante: o direito dos herdeiros de lucrar muitíssimo com a obra deles, ou o direito de crianças, jovens e adultos brasileiros de conhecerem esses importantes escritores? Não significa que uma coisa é mais importante que a outra, mas é preciso encontrar um equilíbrio. No livro REA, por exemplo, todos os autores foram remunerados. Com o dinheiro que conseguimos por meio de um edital, pagamos a edição, a impressão e os autores. Mas acreditamos que os autores não precisam ficar a vida inteira ganhando com o que escreveram, restringindo acesso de outras pessoas. Por essa razão, publicamos todos os textos na internet sob licença Creative Commons.


Os professores se sentem intimidados com tecnologia, o que seria uma barreira à entrada de REA em sala de aula?
Bianca – O discurso de que o professor tem medo é mito. A última pesquisa realizada pelo Comitê Gestor de Internet no Brasil (CGI.br), divulgada em junho, mostra que mais de 70% dos docentes acessam a internet todos os dias. O estudo revelou que eles aprendem tecnologia com outros professores, seus pares, e não fazendo curso. E eles não se sentem ameaçados pelos alunos. Pelo contrário, acham que isso pode levar a construção coletiva. Uma vez um professor me disse que muitos colegas, como ele, tinham medo de tecnologia. A minha primeira reação é de defesa desse professor. É preciso entender sua realidade. Como alguém que dá aula da manhã à noite, com família para cuidar e prova para corrigir, vai ter tempo de incorporar tecnologia? A solução é criar condição de trabalho para que haja essa interação. O que falta é política pública.


Como anda a produção de REA no Brasil?
Bianca – Hoje, infelizmente, os editais de compra de material didático não privilegiam REA. Os poucos que já existiram produziram coisas interessantes para o Portal do Professor, do Ministério da Educação, por exemplo. Mas no último Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) há pedido de material digital, mas não há menção a licença, nem a formatos abertos. Então, vai ter um monte de aula em Flash que depois de um ano a editora vai tirar do ar, o que é um desperdício de oportunidade. Vai-se gastar recursos públicos com uma produção de material sem exigências inovadoras. Faltam regras claras para estimular a produção de REA, que hoje são produzidos por muita gente em centros e grupos de pesquisa, por professores da rede pública e privada, alunos, ONGs, comunidades. Mas precisa crescer muito mais.


Onde é possível encontrar essa produção?
Bianca – Não existe um local que centralize a produção do país. O Portal do Professor tinha a pretensão de reunir recursos digitais, mas falta uma política clara sobre autoria. Lá dentro tem muito copyright, o que gera insegurança nos professores sobre o uso de materiais educacionais. Quando perguntam onde colocar as aulas com REA, costumo falar para reunir em um blog. Dá para encontrar material aberto usando um buscador. Quando se usa licença Creative Commons, a máquina gera um código específico que só os mecanismos de busca vão reconhecer. Ao colocar o HTML desse trabalho no site ou blog, ele será localizado. Um dos caminhos é entrar na pesquisa avançada do Google e selecionar no campo “direitos de uso” o item “sem restrição de uso ou compartilhamento”. Tudo o que vier dessa pesquisa poderá ser utilizado sem o limite de copyright.


Quais os tipos de aplicação de REA e para quais níveis de ensino podem ser aplicados?
Bianca – Um material REA pode ter uso sem nenhuma modificação, como por exemplo, um joguinho educativo para a criança apenas brincar. Há também a possibilidade de distribuição, ou seja, encaminhar um artigo para alguém sem as restrições de copyright. Existem também usos e aplicações de REA mais complexos: pegar um vídeo para remixar, adequar algum material, modificar, enfim, fazer o que se desejar.


Os REA cabem fora da sala de aula tradicional?
Bianca – Para quem está fora da escola, os REA se tornam excelentes oportunidades de aprendizado. O PNLD só dá livro para pessoas matriculadas em uma instituição de ensino. Mas se a obra está aberta na internet, a dona fulana que fica em casa cozinhando, cuidando de filho e não tem acesso ao ensino formal, pode se apropriar de uma ferramenta para aprender. Pode ser que ela não se interesse, mas existe a possibilidade.


Quais são os projetos REA bem-sucedidos no país?
Bianca – Existia o Projeto Folhas, que tinha um grande diferencial: o professor se candidatava para participar. Ao ser selecionado, recebia licença remunerada e ponto na carreira para pesquisar sobre REA com apoio de especialistas. No final, publicava o estudo em livro que também ficava disponível online. O livro chegava à escola com o nome do professor na capa. Há também a plataforma de educação superior e acadêmica Scielo, que publica a produção científica com licença Creative Commons, o que expande enormemente a possibilidade de pesquisa. Agora tem o Scielo Books, onde as editoras universitárias estão colocando livros acadêmicos. Existem iniciativas de organizações educacionais não-governamentais, como o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), Ação Educativa, Instituto Paulo Freire, Coletivo Digital, entre outros. Há ainda trabalhos realizados em escolas privadas, como Porto Seguro e Dante Alighieri.


O que existe de iniciativas públicas?
Bianca – O Ministério da Educação (MEC) já fez editais específicos pequenos, pontuais, que não se repetiram. O Programa Nacional Livro Didático, que realiza uma das maiores compras de livros didáticos do mundo, não tem nada de REA porque está voltado às editoras. Espero que o MEC acorde para essa questão. Depois de abrir diálogo com o ex-ministro Fernando Haddad, que não evoluiu, a diretora de formulação de conteúdos educacionais da Secretaria de Educação Básica do MEC, Monica Gardelli Franco, sinalizou uma nova aproximação. Vamos ver se desta vez acontece alguma coisa em favor dos REA. No setor público, além do Folhas, programa pioneiro que existiu entre 2003 e 2010 e foi realizado pela Secretaria Estadual de Educação do Paraná, tem o projeto Educopédia, promovido pela Secretaria Municipal de Educação do Rio, com produção de materiais abertos para adaptar, compartilhar e remixar. Há ainda a experiência do município de São Paulo, que adotou políticas de REA. Desde 2011, todo material didático produzido pela Secretaria Municipal de Educação é registrado sob licenças flexíveis e está disponível online. Prefeituras menores, sem verba para produzir material do zero, têm usado o material da capital paulista, incentivando seus professores a alterar a produção e adaptá-la para a realidade local.


Há vários fóruns sobre os REA. Não seria outro sinal de que essa nova proposta está se fortalecendo?
Bianca – Sim, esses eventos mostram que o tema está sendo apropriado por muita gente e disseminado. Em julho, foi realizado em Paris o Congresso Mundial da Unesco sobre Recursos Educacionais Abertos, o qual contou com a presença de uma delegação brasileira. A Unesco tem se colocado como um ator relevante dessa temática no mundo.


Como andam os projetos de lei no Brasil voltados para os REA?
Bianca – Tanto o projeto de lei estadual, elaborado pelo deputado Simão Pedro (PT-SP), como o federal, do deputado Paulo Teixeira (PT-SP), estão tramitando no plenário. Os textos já receberam parecer favorável da Comissão de Educação e Cultura. O objetivo de ambos é institucionalizar os REA como política pública, regulamentar essa proposta educacional, ampliar o acesso aos materiais didáticos e otimizar os recursos públicos a partir do incentivo à produção de REA.

Educação Aberta e REA são foco da série “Gerações Digitais” do Instituto Claro

O Instituto Claro lançou a segunda reportagem da série “Gerações Digitais”,cujo tema, tratou de Educação Aberta e Recursos Educacionais Abertos. Débora Sebriam, coordenadora de projetos do IED foi uma das entrevistadas.


A série Gerações Digitais vai ao ar a cada duas semanas e pretende registrar a trajetória das tecnologias digitais na educação nas últimas décadas, a partir de cinco temas-chave: Jogos (já publicada), Educação Aberta, Ativismo Digital, TICs na sala de aula e Mobile-Learning. Acompanhe e participe das discussões!

As tecnologias digitais vêm promovendo grandes mudanças na forma como as pessoas se informam e aprendem. No entanto, muitas destas mudanças não estão claras para professores e profissionais da área, que ainda apresentam dificuldades na hora de formular práticas pedagógicas para uma geração de alunos mais conectada e interativa.

Uma das novas práticas educacionais surgidas na última década é o conceito de Educação Aberta, que, para os mais radicais, se relaciona com a possibilidade de uma educação além da formal, que não depende do espaço escolar. Ou até com a substituição da escola tal como está constituída hoje, como provoca Nelson Pretto, doutor em educação e tecnologia e professor da UFBA. “Se pensarmos no formato tradicional das escolas, que só transmitem educação, as tecnologias digitais são mais efetivas”, afirma. No entanto, ele alerta: “Educação, porém, não é isso, não é transmissão de informação”.

Para Pretto, que possui um histórico de atuação com tecnologias na educação anterior à web 2.0-, as novas gerações se manifestam e produzem conhecimentos de maneira diferente. Atuando neste cenário há menos de dez anos, a educadora especializada em tecnologias digitais Débora Sebriam também acredita que uma grande transformação recente é o fato de que as pessoas passaram a produzir mais conteúdos e conhecimentos de forma colaborativa.

“A escola precisa se modificar. O esforço que tem que ser feito agora é o de transformá-la em um ecossistema pedagógico de produção de cultura e conhecimento. Para isso, é preciso uma mudança de currículo”, afirma Pretto. 


Experiências colaborativas e abertas

Uma das formas de trabalhar o espírito colaborativo da cultura digital em sala de aula, tanto no que diz respeito aos recursos quanto à metodologia de utilização, é através dos Recursos Educacionais Abertos. Ou seja, fazendo uso de ferramentas que estão em domínio público ou licenciadas de maneira aberta e que podem ser utilizadas e/ou remixadas por terceiros. Confira mais detalhes sobre os REAs na apresentação abaixo, elaborada por Débora Sebriam e Priscila Gonsales para o Seminário Recursos Educacionais Abertos, que aconteceu em Porto Alegre no dia 12 de setembro, por iniciativa do Projeto REA Brasil, Instituto Educadigital e Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

Débora Sebriam lembra que este movimento chegou no Brasil em 2008. Hoje, já existe uma comunidade que se organiza a partir do portal do REA e apoia projetos de disponibilização e produção de recursos abertos.

No entanto, os recursos educacionais abertos não fazem a diferença sozinhos. Para Tel Amiel, pesquisador do Nied/Unicamp e coordenador do grupo de trabalho Educação Aberta, o que importa são as práticas que podem ser modificadas em sala de aula e para além dela, através da discussão de questões como remixagem e propriedade intelectual, por exemplo. “Os REAs são uma maneira de o professor e o aluno pensar questões que a Cultura Digital impõe”, afirma.

Segundo Débora, as novas gerações já começam a ter mais autonomia para a busca e produção de conhecimento a partir da internet, apesar da “colagem” ser uma alternativa antiga. “O copiar e colar é uma prática anterior ao mundo online. As pessoas copiavam coisas da Enciclopédia Barça, por exemplo. A questão é: com vários trabalhos copiados e colados, sem citações de fonte, o professor precisa propor releituras e reflexões. O que se impõe é uma questão metodológica”, afirma.


Desafios para os próximos anos

Construir uma escola que explore melhor o conceito de colaboração é um desafio que esbarra em alguns obstáculos. Nelson Pretto aponta que os professores precisam receber formação para atuar de forma mais efetiva com as novas tecnologias. “Formação não são somente cursos. É plano de carreira, é infraestrutura nas escolas, constante atualização e valorização da prática docente”, afirma.

Pouco a pouco, os REAs começam a aparecer como foco de políticas públicas. Débora lembra que, em São Paulo, os materiais educacionais municipais já são todos REA, a partir da aprovação do Decreto Municipal nº 52.681, de 26 de setembro de 2011. Além disso, há projetos de lei para ampliar o alcance dos REAs tramitando no Senado e no Estado de São Paulo. Detalhes sobre o projeto vão ser discutidos no VI Congresso de Direito de Autor e Interesse Público, que acontecerá no dia 9 de outubro, em Curitiba. “É importante transformar esta adoção em lei, para evitar retrocessos com troca de governos, por exemplo”, afirma a educadora.

A materialização dos REAs nas escolas brasileiras ainda depende de investimentos, mas será um caminho sem volta, na opinião de Débora. “Esta discussão só vai ganhar força nos próximos anos, principalmente porque envolve dinheiro público. Se é a sociedade que está financiando os materiais, eles devem poder voltar para a sociedade depois”, finaliza.

Para acessar o podcast publicado e apresentação elaborada por Débora Sebriam e Priscila Gonsales, acesse: Instituto Claro

Entrevista de Débora Sebriam sobre Recursos Educacionais Abertos (REA)

Entrevista ao Jornal Tribuna do Planalto – Ano 26 – Nº1.345 –  Goiânia, 16 a 22 de setembro  de 2012


O nome é novo e ainda desconhecido: Recursos Educacionais Abertos ou somente REA. “São materiais de ensino, aprendizado e pesquisa em qualquer suporte ou mídia, que estão em domínio público, ou estão licenciados de maneira aberta, permitindo que sejam utilizados ou adaptados por terceiros.” Quem explica é Débora Sebriam, uma das responsáveis pela difusão da proposta no Brasil.

A equipe do Caderno Escola a procurou para tirar dúvidas sobre o assunto e explicar o que isso tem a ver com a sala de aula. Débora é educadora e faz parte da equipe do Projeto Recursos Educacionais Abertos Brasil (REA-Brasil). Ela é mestre em Engenharia de Mídias para a Edu­cação pelas Universidades Técnica de Lis­boa, de Poitiers e Nacional de Educação à Distância de Madri.

As discussões sobre o tema estão florescendo. No início de março, foi realizada a primeira Semana Mundial da Educação Aberta. Mas o tema ganhou mais espaço na mídia brasileira a partir do final do mesmo mês, quando o Rio de Janeiro recebeu o Fórum Regional REA – América Latina, evento realizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Um de seus objetivos foi a elaboração de uma declaração que será apresentada no Congresso Mundial sobre Recursos Educacionais Abertos, a ser realizado em Paris, em junho. O assunto é internacional, mas pode se encaixar em qualquer sala de aula. Débora explica que os REA podem tornar todos os atores da educação ativos disseminadores e construtores do conhecimento.

“A autoria individual e colaborativa pode ser potencializada quando professores e alunos criam e publicam suas obras criativas, dando possibilidade para que outras pessoas possam adotar e /ou adaptar os materiais criados”, afirma. Por e-mail, ela respondeu algumas questões sobre o tema.


O que são, exatamente, os Recursos Educacionais Abertos? Quais são as possibilidades deles para o ensino?

Recursos Educacionais Abertos são materiais de ensino, aprendizado e pesquisa em qualquer suporte ou mídia, que estão em domínio público, ou estão licenciados de maneira aberta, permitindo que sejam utilizados ou adaptados por terceiros. Incluem livros, planos de aula, softwares, jogos, resenhas, trabalhos escolares, vídeos, áudios, imagens e outros.

As possibilidades são inúmeras se partirmos da compreensão de REA como bens educacionais essenciais ao usufruto do direito de acesso à educação e à cultura. Eles podem facilitar o acesso ao conhecimento das pessoas que estão nas escolas e universidades e das que estão fora delas; incentivar práticas de colaboração, participação ativa da comunidade e compartilhamento.

É também uma forma de ter melhor aproveitados os investimentos públicos investidos em material didático. Os REA garantem liberdade, inovação metodológica e criatividade de produção, além de ser uma maneira de valorizar e reconhecer o professor como autor.


Qual a aplicabilidade deles para a Educação Básica?
Para a Educação Básica, os REA podem ser adotados como política educacional. Isso poderia ser feito em várias frentes, por exemplo, com a adoção preferencial por softwares livres, incentivo ao uso e à publicação de recursos educacionais com licenças abertas.

Para professores e alunos, abre-se a possibilidade de uso, redistribuição, remix de conteúdo aberto. A autoria individual e colaborativa pode ser potencializada quando professores e alunos produzem e publicam suas obras criativas, dando possibilidade para que outras pessoas possam adotar e /ou adaptar os materiais criados.

Para todos os atores implicados na educação, os REA podem torná-los ativos disseminadores e construtores colaborativos do conhecimento. Especifi­camente, esses recursos também potencializam metodologias educacionais que envolvem a solução de problemas, o construtivismo e o aprendizado individualizado. Isso porque as licenças abertas permitem que aquele material educacional seja moldado não só a necessidades regionais, mas também a necessidades individuais.

Os REA, além de poderem ser o elemento essencial do currículo, podem formar uma base gigantesca de recursos complementares para aqueles alunos que precisam de reforço escolar ou que aprendem melhor por meio das tecnologias, games ou exercícios interativos. Outro ponto são as inovações que a metodologia REA trouxe para crianças e adolescentes na maneira como interagem com livros didáticos. Nesse caso, chamamos de livros didáticos abertos (do inglês Open Textbooks). Esses livros permitem grande interação do indivíduo com o livro e com comunidades de prática que surgem ao redor daquele livro. Aqui você não só colabora com alunos de sua classe ou escola, mas com alunos do mundo inteiro que adotaram aquele livro didático.


Será preciso uma formação específica de professores para o uso dos REA?
Certamente os professores têm condições de ensinar e aprender com REA! Hoje, temos um professor que integra diferentes mídias no processo pedagógico. No contexto da cultura digital e da Sociedade da Informação, o professor já faz uso de muitos materiais compartilhados na internet e também compartilha seus materiais e experiências.

REA seriam um complemento para uma formação que já caminha com pernas próprias e que enfoca novos contextos de mediação em sala de aula. Os recursos educacionais abertos são baseados nos princípios de conteúdos de aprendizagem, ferramentas de criação e propriedade intelectual. Os professores já dominam ou estão a caminho de dominar pelo menos dois princípios (conteúdos e ferramentas de criação que podem incluir mídias digitais), falta uma discussão sobre propriedade intelectual.

Um entendimento sobre licenças abertas facilita a utilização de material e abre portas para que professores autores decidam como suas obras criativas podem ser usadas por outros, sem necessidade de intermediários. E também pode contribuir para que a escola saia da sombra da pirataria e gere uma conduta mais ética em relação à pesquisa e à produção de trabalhos de professores e alunos.

Os Recursos Educacionais Abertos podem abrir portas para que professores de todo o lugar do Brasil se tornem autores. E, quem sabe, tornem-se autores que tenham suas obras e trabalhos adotados em outras regiões.


Como teve início e se desenvolve hoje o Projeto REA-Brasil?
O Projeto REA-Brasil foi fundado em 2008 por Carolina Rossini e as atividades do projeto tiveram início com a visita de uma delegação internacional de experts e desenvolvedores de REA ao Ministério da Educação e com a realização de uma série de eventos de sensibilização em São Paulo e Brasília.

Esse projeto é um dos primeiros projetos no Brasil que tentam apropriar à realidade e às perspectivas brasileiras a discussão internacional acerca de REA e da Educação Aberta. Desde então, uma comunidade ativa de mais de 300 pessoas voluntárias ajudam a consolidar a discussão sobre REA no Brasil.

Atualmente, o Projeto REA-Brasil mantém relação e oferece suporte a diversos governos e instituições brasileiras e internacionais, incentivando ações. Atuamos colaborando com colégios, secretarias municipais de educação e até mesmo com as câmaras estadual e federal de deputados. Ajudamos a organizar e participamos de eventos, conferências, palestras e atividades educativas sobre REA no Brasil.

Em eventos internacionais, mantemos conversas com algumas editoras sobre novos modelos de negócio alternativos que gerem livros didáticos abertos ou versões digitais mais acessíveis e abertas em diferentes formatos. Também participamos ativamente da construção de políticas e leis que incentivam a adoção de REA.


Quais entraves os REA ainda encontram no Brasil para se popularizarem em políticas educacionais?
O conceito REA é novo não só no Brasil e ainda há muito por fazer. Há necessidade de um grande trabalho em cultura institucional para que a cultura colaborativa e de compartilhamento por meio da internet e dos REA seja vista como algo positivo e que tira nossos professores da sombra da “pirataria”.

Muitas vezes projetos têm como objetivo gerar recursos livres e práticas colaborativas, como é o caso do Portal do Professor do MEC [Ministério da Educação], mas acabam falhando na adoção de políticas claras de como os usuários podem, de fato, utilizar e apropriar-se de tais materiais. Ademais, no Brasil, as editoras possuem grande poder econômico, político e de mídia, como vemos há alguns anos ao redor do debate das cópias dos livros e da reforma de lei de direito autoral.

Tais atores econômicos ainda têm muito receio em relação à sustentabilidade de práticas REA e como tais práticas vão afetar seu poder de mercado. Por isso, nós do Projeto REA também tentamos estudar e gerar conhecimento sobre novos modelos de negócio que podem gerar sustentabilidade para as editoras.

Por fim, o governo brasileiro, diferente de outros, como o dos EUA ou da África do Sul (este último acabou de adotar livros didáticos abertos para todas as suas escolas da rede pública), ainda está longe desse debate. No Brasil, as práticas REA têm surgido de indivíduos que levam suas ideias para suas instituições, que reconhecem REA como parte de sua função social de geração e publicação de conhecimento e pesquisa.

Link original: Tribuna do Planalto

Biografia da Léa Fagundes: Fase 1 bem-sucedida

Colaboração é o conceito que rege a proposta da biografia da educadora Léa Fagundes, projeto idealizado pelo Instituto EducaDigital. Colaboração em rede é o caminho que buscamos para a construção dessa biografia….e vem dando certo!

Nos últimos dias comemoramos uma etapa importante e bem-sucedida do projeto. Com 213 apoiadores, a parte audiovisual da biografia, um vídeo-entrevista com a própria Léa Fagundes, foi financiada na plataforma de crowdfunding Catarse e será produzida nos próximos meses. No total, R$ 21.775 foram arrecadados e o valor será investido na produção de um vídeo com ares de documentário, com aproximadamente 40 minutos de duração.

Para atingirmos esse resultado tão positivo em uma campanha de doação na web, foram 45 dias de muito engajamento – da nossa equipe e de muitos que fazem parte da nossa rede. Usamos as redes sociais, contatamos centenas de pessoas por e-mail e contamos com ações presenciais, como a divulgação na Bienal do Livro, em São Paulo, e em seminários que reuniram especialistas em educação e novas tecnologias.

Vimos educadores, pesquisadores, gestores de educação e pessoas de diversas outras áreas que reconhecem a importância de personagens com a Léa Fagundes dedicando-se a divulgar e a declarar o apoio à iniciativa do Instituto EducaDigital no Catarse. Sem todo esse movimento, não teria sido possível alcançar o sucesso.

Contrapartidas – Todos os colaboradores tiveram a oportunidade de escolher recompensas na página do projeto. Essas contrapartidas permitem aos doadores desde garantirem os seus nomes nos créditos do vídeo-entrevista até realizarem um workshop presencial sobre Uso das Licenças Creative Commons. Camisetas do projeto e cópias do DVD com a vídeo-entrevista também estão entre as recompensas, que variam de acordo com o valor doador.

O modelo de crowdfunding foi uma escolha acertada para esta etapa da biografia, e se apresenta como mais um caminho para viabilizar projetos de empreendedores em quaisquer áreas, inclusive na educação. A partir de agora, a nossa equipe passa a produzir o roteiro do vídeo-entrevista e segue buscando captar recursos para a segunda parte da biografia, o livro (impresso e digital).
Você pode acompanhar todo o projeto no blog. E participar por meio da galeria colaborativa, lá mesmo, no mesmo blog.