O filme, os vídeos e a mobilização (parte I)

O que o sucesso de bilheteria 2 Filhos de Francisco, de 2005, pode ter em comum com dois projetos de vídeo recentemente bem-sucedidos em sites de crowdfunding? Enquanto me recuperava de uma gripe forte que trouxe dos meus 21 dias de “retiro” em San Francisco/EUA, pensava num gancho para escrever um post sobre a viagem. Foi quando me deparei na madrugada de ontem (insônia pela diferença de 6 horas de fuso), zapeando pela TV, com as cenas que eu mais adoro nesse longa do diretor brasiliense Breno Silveira, atualmente em cartaz com o ótimo Gonzaga de Pai para Filho.

Com todo seu entusiasmo misturado com amor e perseverança, o “seu” Francisco, pai de Zezé e Luciano, aposta, literalmente, todas as fichas mobilizando sua rede social para promover  a música de seus filhos. Para quem não lembra, ele primeiro deixa a fita demo na rádio local e depois começa a telefonar dos orelhões na cidade pedindo para tocar a música e, ao perceber que a ideia funcionava, compra muitas fichas de telefone e passa a engajar amigos, companheiros de trabalho e até desconhecidos nas ligações para poder conquistar seu objetivo de ver “É o amor” como a mais pedida nas paradas de sucesso.

Sempre choro nessa parte, confesso. Me emociono demais pensando em como é mesmo gratificante conseguir algo com nosso esforço e persistência, especialmente coisas em que se acredita e que parecem impossíveis. Nosso projeto da vídeo-entrevista da Léa Fagundes no Catarse foi assim. Quando tudo começou era apenas uma ideia que a gente sabia que devia fazer, que devia ir atrás. A trajetória de uma personalidade ilustre da educação brasileira, que vem inovando há tempos mesmo com todas as dificuldades, mostra que o foco sempre deve estar no desenvolvimento humano,  independentemente das mais avançadas tecnologias digitais.

Estamos muito felizes com o resultado, um trabalho árduo de edição (mais de 10 horas gravadas!) feito com nossos criativos parceiros da Filmes Para Bailar. O lançamento oficial será em fevereiro. Para tornar o projeto realidade, foram necessários 40 dias de trabalho intenso de mobilização de redes sociais. E nossas “fichas” estavam nos cliques e recursos digitais disponíveis, além dos inúmeros e-mails mais que pedintes para familiares e amigos íntimos. E conseguimos, até passamos da meta pretendida!

Nesse início de ano em San Francisco, tive a feliz oportunidade de acompanhar de perto outro projeto de vídeo bem-sucedido em crowdfunding graças também à forte mobilização de rede: o documentário Lives in Transit (vidas em trânsito) do Global Lives Project. Global Lives Project é uma ONG fundada em 2004 pelo sociólogo californiano David Evan Harris, que fez seu mestrado aqui na nossa USP e por isso fala um ótimo português. Sua missão é criar uma videoteca sobre a experiência de vida humana a partir da produção de vídeos que registram 24 horas na vida de pessoas comuns de diferentes lugares do mundo. Os vídeos, produzidos por videomakers independentes, são licenciados em Creative Commons, estão disponíveis na web (alguns já com legendas feitas por voluntários) e também em exibições periódicas em formato de instalação artística.

Empatia é a palavra-chave. Conhecer o outro para conhecer melhor a si mesmo. Uma iniciativa encantadora que faz lembrar as palavras de Eduardo Galeano: “é preciso ser capaz de olhar o que não se olha, mas que precisa ser olhado, as pequenas coisas de pessoas anônimas que os intelectuais costumam desprezar”.

Quando cheguei ao escritório deles no aconchegante coworking PariSoma, no início de janeiro, a arrecadação no Kickstarter não tinha chegado nem na metade e só restavam 6 dias para o prazo final. Postais estavam sendo preparados para enviar pelo correio, tuitadas e mais tuitadas, e-mails para amigos e amigos de amigos, posts os mais diversos no Facebook. Mas a ação mais bacana que participei foi a uma força-tarefa do conselho de voluntários, um dia antes do prazo final. Todos juntos, na mesma sala, divulgando e acompanhando a arrecadação em tempo real. Um lindo processo que gerou um resultado mais que satisfatório: a campanha atingiu 10 mil dólares a mais do pretendido. Com o valor excedente, a equipe vai produzir um material educativo para apoiar o uso dos vídeos nas escolas. E um novo site do projeto será lançado também agora em 2013.


Mais sobre San Francisco:
Pessoas, projetos, inspirações (parte II)
Dicas da cidade (parte III)

Biografia da Léa Fagundes: Fase 1 bem-sucedida

Colaboração é o conceito que rege a proposta da biografia da educadora Léa Fagundes, projeto idealizado pelo Instituto EducaDigital. Colaboração em rede é o caminho que buscamos para a construção dessa biografia….e vem dando certo!

Nos últimos dias comemoramos uma etapa importante e bem-sucedida do projeto. Com 213 apoiadores, a parte audiovisual da biografia, um vídeo-entrevista com a própria Léa Fagundes, foi financiada na plataforma de crowdfunding Catarse e será produzida nos próximos meses. No total, R$ 21.775 foram arrecadados e o valor será investido na produção de um vídeo com ares de documentário, com aproximadamente 40 minutos de duração.

Para atingirmos esse resultado tão positivo em uma campanha de doação na web, foram 45 dias de muito engajamento – da nossa equipe e de muitos que fazem parte da nossa rede. Usamos as redes sociais, contatamos centenas de pessoas por e-mail e contamos com ações presenciais, como a divulgação na Bienal do Livro, em São Paulo, e em seminários que reuniram especialistas em educação e novas tecnologias.

Vimos educadores, pesquisadores, gestores de educação e pessoas de diversas outras áreas que reconhecem a importância de personagens com a Léa Fagundes dedicando-se a divulgar e a declarar o apoio à iniciativa do Instituto EducaDigital no Catarse. Sem todo esse movimento, não teria sido possível alcançar o sucesso.

Contrapartidas – Todos os colaboradores tiveram a oportunidade de escolher recompensas na página do projeto. Essas contrapartidas permitem aos doadores desde garantirem os seus nomes nos créditos do vídeo-entrevista até realizarem um workshop presencial sobre Uso das Licenças Creative Commons. Camisetas do projeto e cópias do DVD com a vídeo-entrevista também estão entre as recompensas, que variam de acordo com o valor doador.

O modelo de crowdfunding foi uma escolha acertada para esta etapa da biografia, e se apresenta como mais um caminho para viabilizar projetos de empreendedores em quaisquer áreas, inclusive na educação. A partir de agora, a nossa equipe passa a produzir o roteiro do vídeo-entrevista e segue buscando captar recursos para a segunda parte da biografia, o livro (impresso e digital).
Você pode acompanhar todo o projeto no blog. E participar por meio da galeria colaborativa, lá mesmo, no mesmo blog.