Palestra no Centro Paula Souza em São Paulo

Professores da educação de jovens e adultos de escolas técnicas estaduais de São Paulo conhecem mais sobre Recursos Educacionais Abertos


No dia 11 de maio, professores do curso de Aperfeiçoamento em Docência do Centro Paula Sousa tiveram a oportunidade de saber mais sobre Recursos Educacionais Abertos (REA) com a palestra realizada por Priscila Gonsales, diretora do IED, a convite da instituição.

Estiveram presentes cerca de 150 docentes, atuantes no ensino técnico, que estão preparando seus respectivos trabalhos de conclusão de curso e quiseram saber mais sobre as diferenças entre “gratuito” e “aberto” e também como poderiam encontrar recursos com licenças abertas. 

O Instituto Educadigital, por meio do Iniciativa Educação Aberta, pode ser contatado para formações e palestras sobre Educação Aberta, REA e licenças abertas Creative Commons, assim como para apoio técnico-pedagógico na concepção de projetos e políticas focados nessas temáticas. Para saber mais, envie um email para: contato@aberta.org.br


Segue a apresentação utilizada:

[Infográfico] Por que um curso-laboratório online?

O Instituto EducaDigital está com inscrições abertas, até 12 de abril, para o Curso-Laboratório Online de Mídias, Educação e Cidadania na Cultura Digital, que terá início dem 28 de abril.

No infográfico abaixo, você confere informações importantes sobre a dinâmica prevista e os objetivos desse período de aprendizagem colaborativa que se estenderá até novembro na web!

Mais informações sobre os temas estão neste link aqui.


Se interessou? Clique aqui e acesse a ficha de interesse.


1a Semana de Mídias, Cidadania e Educação na Cultura Digital e o #diadedoar

“Já está na minha agenda de eventos 2015!”, escreveu o professor Manuel Gomes Neto no comentário do álbum de fotos da 1a Semana de Mídias, Cidadania e Educação na Cultura Digital que criamos no Facebook.

A 1a Semana, que aconteceu de 8 a 13 de novembro, não nasceu já planejando a segunda, mas talvez uma reedição seja mesmo inevitável, pois tem muita gente interessada em discutir o tema e conhecer novas práticas para aproveitar melhor tudo que a Internet e o conceito de compartilhar e cocriar podem oferecer! Idealizada pelo Instituto Educadigital em parceria com o Plug’nCoworking, a Semana foi também uma atividade prévia do #diadedoar. O #diadedoar é uma iniciativa mundial que visa mobilizar pessoas e empresas para doações – em dinheiro, bens ou horas de trabalho – para organizações da sociedade civil. As formas de doação na #semanaeducadigital foram várias:


– vagas gratuitas nas oficinas para professores da rede pública;
– cessão do espaço pela Plug’nCoworking para realização das atividades;
– horas de trabalho voluntário de todas as facilitadoras das oficinas;
– criação voluntária de logotipo, materiais gráficos e landingpage;
– estímulo à doação das pessoas que se inscreveram para participar ao vivo dos bate-papos ou acompanharam online.

Se você quiser participar com uma doação, ainda dá tempo. Acesse a página do IED no Doare, estamos com uma campanha de disseminação da educação aberta para escolas públicas: https://doare.org/organizacao/357/instituto-educadigital-ied

Reunimos aqui alguns tópicos sucintos das principais atividades:


Oficinas

Nossas atividades começaram com uma oficina básica de Design Thinking para Educadores, facilitada pela diretora-executiva do IED, Priscila Gonsales, e que reuniu educadores, profissionais do terceiro setor, jornalistas e pequenos empresários interessados em vivenciar a experiência de cocriar e exercitar a empatia, a ideação e a experimentação. Como podemos criar práticas mais motivadoras em sala de aula? Como podemos engajar a comunidade na escola? Foram alguns dos desafios!

A segunda oficina foi a de Criar e Compartilhar com Licenças CreativeCommons (CC), facilitada pela Débora Sebriam, coordenadora de projetos do IED e, pela primeira vez, com a colaboração da advogada Mariana Valente, do Internet Lab e legal lead do CC no Brasil. Dentre os participantes, organizações do terceiro setor interessadas em operar sob a perspectiva de Recursos Educacionais Abertos, como o CDI e o IDS. O Portal Ache o Curso gravou uma matéria que em breve deve ir ao ar.

Realizada também pela primeira vez em parceria com a Agência Fervo de Comunicação, a oficina de Mídias Sociais e Narrativas Digitais foi conduzida pela Priscila Cotta, sócia-fundadora da Fervo, com apoio da diretora-executiva do IED, Priscila Gonsales. Foi a oficina que teve mais presença de jornalistas e demais profissionais que atuam na área de comunicação de empresas e instituições.

Veja aqui fotos das oficinas: http://migre.me/mTedq
Veja aqui as apresentações que utilizamos: http://pt.slideshare.net/ieducadigital


Bate-papo sobre Cobertura Política

Nosso primeiro bate-papo trouxe o tema da Cobertura Política – antes e depois das eleições e como as mídias sociais foi usada pelos eleitores para propagar informações da grande imprensa de forma a convalidar suas próprias opiniões em relação a um ou outro candidato e não como forma de disseminar informações relevantes.

A agressividade foi bastante destacada pelos convidados presentes, especialmente durante o segundo turno, que chegou a ser apelidado de “flaXflu”, remetendo à notória rivalidade dos times cariocas. A editora-executiva do El País, Carla Jimenez, comparou com as eleições de 2010 que também havia sido bastante fervorosa mas nunca como as de 2014, cujos debates televisivos tiveram uma audiência imensa e o ódio entre as pessoas nunca ficou tão evidente, as pessoas compartilhavam posts sem checar de fato as fontes.

Para Pedro Markun, do LabHacker, ativista de dados abertos na política, apesar do clima de nada amistoso, o cenário é otimista, pois as pessoas estão começando a debater mais, a participar mais. Manter o debate e a participação desse grande público durante os novos mandatos que se iniciam em 2015 foi outro tema bastante enfatizado.

Fernanda Campagnucci, da Controladoria Geral do Município, lembrou que hoje qualquer pessoa pode pedir informações sobre o que quisera qualquer órgão púvia Lei de Acesso à Informação, e é importante que exercitemos esse direito de acesso à informação para que criemos o hábito de buscar direto na fonte e não apenas absorver o que a imprensa divulga.

Um dos idealizadores do Radar Parlamentar, Leonardo Leite, mostrou o aplicativo criado em software livre que obtém dados da Câmara dos Deputados referentes a propostas e votações, e distribui o resultado em gráficos que mostram o posicionamento ideológico dos partidos e sua distância em relação ao partido da situação.

Assista a íntegra do bate-papo aqui: http://migre.me/mT7Kg


Bate-papo Jornalismo Público, Cidadão e Positivo – utopia?

“Não é novo, sempre foi assim, o que estamos fazendo é resgatar a alma do jornalismo”, disse a Amanda Rahra, da É Nóis, quando perguntada sobre como é fazer jornalismo de uma nova forma e formando jovens das periferias para atuarem como investigadores e repórteres. Amanda trouxe dois jovens jornalistas de sua equipe, HarisonKobalski e Natália Barbosa, que puderam relatar a mudança em suas vidas desde que começaram a participar do projeto anos atrás, quando participavam da Casa do Zezinhoe também mostrar projetos atuais envolvendo revistas segmentadas para jovens, fanzines, dentre outros formatos.

Renato Guimarães, um dos idealizadores da iniciativa O Sujeito, que reúne projetos jornalísticos independentes dentro do site Catarse, visando o financiamento coletivo de temas que normalmente ficam fora da mídia tradicional, contou que a ideia surgiu com as demissões em massa de muitos jornalistas da grande imprensa que, de repente, se viram com a oportunidade de poder criar sua própria história, sua grande reportagem e buscar financiamento independente para isso. Renato enfatizou que as narrativas hoje são construídas pelo usuário que assiste uma transmissão contínua, como no caso do Mídia Ninja, por exemplo, ou qualquer outra forma de selecionar o que se quer ver.

Assista a íntegra do bate-papo: http://migre.me/mT8x0


Bate-papo Mobilização para Causas e Doações no Brasil

Nessa conversa, cinco representantes de iniciativas e projetos que envolvem mobilização de pessoas por meio digital puderam apresentar os benefícios e desafios cotidianos de buscar as mais variadas formas de apoio, desde aliados para causas, suporte financeiro, até abaixo-assinados para melhorar alguma situação da sociedade. O #diadedoar foi um dos destaques, já que é uma ação mundial que visa disseminar a cultura de doação entre pessoas, instituições e empresas. Rafael Maretti lembrou que no Brasil doar ainda é visto muito por aqui como “esmola” e não como o “abraçar de uma causa”. Marcado para o dia 2/12, é possível ver as sugestões sobre como participar diretamente no site www.diadedoar.org.br.

A existência da Internet e a cultura digital foram fundamentais para o surgimento de todos os projetos apresentados pelos convidados, a Liane Lira, do Minha Sampa, que busca incentivar a participação política das pessoas em suas cidades; a Beatriz Bouskela, do Catarse, primeiro site de financiamento coletivo do Brasil, que já movimenta uma rede de mais de 15 mil apoiadores; a Raquel Rosemberg, do Engajamundo que incentiva e mobiliza jovens para participar ativamente das grandes conferências globais em prol do meio ambiente; e a Graziela Tanaka, da Change.org, um site de petições online. Todas citaram o quanto a cultura digital foi e tem sido fundamental para a existência dos projetos, já que possibilita falar com pessoas, independentemente de limitações de tempo e de espaço:

http://www.diadedoar.org.br/ (#‎diadedoar‬‬ em 2/12)

http://juntos.com.vc/projetos/engajamundo/ (apoie jovens que participam de conferências internacionais sobre mudanças climáticas)

http://www.minhasampa.org.br/ (mobilização de pessoas para melhorar cidades)

http://catarse.me/pt/projects (apoie ou crie seu projeto para mudar o mundo)

https://www.change.org/ (participe ou crie sua petição online em prol de uma causa)

Assista a íntegra do bate-papo: http://migre.me/mTa6h


Bate-papo sobre Startups, espaços makers e empreendedorismo digital – ontem e hoje

O bate-papo que fechou a Semana contou com a presença da Geórgia Nicolau, representando a secretaria de economia criativa do Ministério da Cultura (Minc), que aproveitou para contar que o foco da política pública na perspectiva do Minc, que entende o empreendedorismo como um bem simbólico, intangível, que tem em seu DNA a diversidade no modo de produzir e na entrega para a sociedade. E ressaltou que existem muitas dificuldades para quem trabalha nessa área e a busca pela autonomia, sem depender tanto de editais como fontes de financiamento é grande meta do planejamento das políticas do Minc.

Participou ainda como convidado o Alex Fuzinaga, empreendedor do Portal Ache o Curso, que trouxe um pouco das dificuldades iniciais de todo pequeno negócio, por mais inovadora que seja a ideia e que isso precisa ser bastante ponderado. Gabi Augustini, uma das organizadoras das duas edições do Fórum da Cultura Digital e atualmente empreendedora do espaço maker Olabi e do Templo Coworking, ressaltou a importância de pensar o digital menos como plataforma mas como comportamento, como processo de compartilhar.

A conversa contou também com a Vanessa Tonini, do MariaLabHackerspace, uma iniciativa em formato de coletivo – não formalizado com CNPJ – de reunir mulheres programadoras e também levar a formação em programação para meninas e mulheres.

Assista a íntegra do bate-papo aqui: http://migre.me/mTbGq. Leia matérias que saíram sobre a Semana na mídia.


O filme, os vídeos e a mobilização (parte I)

O que o sucesso de bilheteria 2 Filhos de Francisco, de 2005, pode ter em comum com dois projetos de vídeo recentemente bem-sucedidos em sites de crowdfunding? Enquanto me recuperava de uma gripe forte que trouxe dos meus 21 dias de “retiro” em San Francisco/EUA, pensava num gancho para escrever um post sobre a viagem. Foi quando me deparei na madrugada de ontem (insônia pela diferença de 6 horas de fuso), zapeando pela TV, com as cenas que eu mais adoro nesse longa do diretor brasiliense Breno Silveira, atualmente em cartaz com o ótimo Gonzaga de Pai para Filho.

Com todo seu entusiasmo misturado com amor e perseverança, o “seu” Francisco, pai de Zezé e Luciano, aposta, literalmente, todas as fichas mobilizando sua rede social para promover  a música de seus filhos. Para quem não lembra, ele primeiro deixa a fita demo na rádio local e depois começa a telefonar dos orelhões na cidade pedindo para tocar a música e, ao perceber que a ideia funcionava, compra muitas fichas de telefone e passa a engajar amigos, companheiros de trabalho e até desconhecidos nas ligações para poder conquistar seu objetivo de ver “É o amor” como a mais pedida nas paradas de sucesso.

Sempre choro nessa parte, confesso. Me emociono demais pensando em como é mesmo gratificante conseguir algo com nosso esforço e persistência, especialmente coisas em que se acredita e que parecem impossíveis. Nosso projeto da vídeo-entrevista da Léa Fagundes no Catarse foi assim. Quando tudo começou era apenas uma ideia que a gente sabia que devia fazer, que devia ir atrás. A trajetória de uma personalidade ilustre da educação brasileira, que vem inovando há tempos mesmo com todas as dificuldades, mostra que o foco sempre deve estar no desenvolvimento humano,  independentemente das mais avançadas tecnologias digitais.

Estamos muito felizes com o resultado, um trabalho árduo de edição (mais de 10 horas gravadas!) feito com nossos criativos parceiros da Filmes Para Bailar. O lançamento oficial será em fevereiro. Para tornar o projeto realidade, foram necessários 40 dias de trabalho intenso de mobilização de redes sociais. E nossas “fichas” estavam nos cliques e recursos digitais disponíveis, além dos inúmeros e-mails mais que pedintes para familiares e amigos íntimos. E conseguimos, até passamos da meta pretendida!

Nesse início de ano em San Francisco, tive a feliz oportunidade de acompanhar de perto outro projeto de vídeo bem-sucedido em crowdfunding graças também à forte mobilização de rede: o documentário Lives in Transit (vidas em trânsito) do Global Lives Project. Global Lives Project é uma ONG fundada em 2004 pelo sociólogo californiano David Evan Harris, que fez seu mestrado aqui na nossa USP e por isso fala um ótimo português. Sua missão é criar uma videoteca sobre a experiência de vida humana a partir da produção de vídeos que registram 24 horas na vida de pessoas comuns de diferentes lugares do mundo. Os vídeos, produzidos por videomakers independentes, são licenciados em Creative Commons, estão disponíveis na web (alguns já com legendas feitas por voluntários) e também em exibições periódicas em formato de instalação artística.

Empatia é a palavra-chave. Conhecer o outro para conhecer melhor a si mesmo. Uma iniciativa encantadora que faz lembrar as palavras de Eduardo Galeano: “é preciso ser capaz de olhar o que não se olha, mas que precisa ser olhado, as pequenas coisas de pessoas anônimas que os intelectuais costumam desprezar”.

Quando cheguei ao escritório deles no aconchegante coworking PariSoma, no início de janeiro, a arrecadação no Kickstarter não tinha chegado nem na metade e só restavam 6 dias para o prazo final. Postais estavam sendo preparados para enviar pelo correio, tuitadas e mais tuitadas, e-mails para amigos e amigos de amigos, posts os mais diversos no Facebook. Mas a ação mais bacana que participei foi a uma força-tarefa do conselho de voluntários, um dia antes do prazo final. Todos juntos, na mesma sala, divulgando e acompanhando a arrecadação em tempo real. Um lindo processo que gerou um resultado mais que satisfatório: a campanha atingiu 10 mil dólares a mais do pretendido. Com o valor excedente, a equipe vai produzir um material educativo para apoiar o uso dos vídeos nas escolas. E um novo site do projeto será lançado também agora em 2013.


Mais sobre San Francisco:
Pessoas, projetos, inspirações (parte II)
Dicas da cidade (parte III)

Dicas da cidade (parte III)

Um lugar fascinante que não tinha ido da primeira vez é o Palace of Fine Arts, apresentado pela amiga e consultora de propriedade intelectual, Carolina Rossini, seu gentil  e talentoso marido John Wilbanks e o pequeno Noah que, aos 2 anos, era uma atração à parte por seu encantamento com os patos no lago. Uma estrutura momumental de inspiração greco-romana construída em 1915 para exibir o trabalho de artistas.

Para quem gosta de museu como eu, não dá para perder o lindo Asian Art Museum que traz um acervo belíssimo de obras artísticas das civilizações que formam o continente. Além de China (30% da população de SF é de origem chinesa) e Japão, o museu também contempla Vietnã, Índia e Mongólia, além de oferecer audio-guia gratuito para visitantes.

Na sequência, recomendo tomar um café no bairro Hyes Valley, ali pertinho, cruzando o Civic Center. Depois que conheci essa parte da cidade agora, apresentada pelo amigo e morador Jordy Mont-Reynaud, não achei mais graça no downton da Union Square.  Mais aconchegante e com menos turistas, o local tem uma atmosfera pacata durante o dia e boêmia durante a noite. Um certo ar parisiense até, para quem conhece Montmartre.

Quem quiser observar um pouco os contrastes da cidade, recomendo pegar um Muni no início da Mission St. a partir da 2nd ou 3th St. e ir até o ponto final. Dá para ter uma ideia de como a paisagem vai ficando diferente, algumas vezes mais residencial, outras parecendo que se está numa cidade completamente diferente, especialmente pelas evidências de imigração de hispanofalantes e asiáticos nos estabelecimentos comerciais.

Fiquei espantada com tantas pessoas que falam sozinhas nas ruas e nos ônibus em San Francisco, umas brigam mesmo, falando alto e gritando com as pessoas. E ninguém se incomoda, até riem. Parece que já estão acostumadas aos “crazy people”, como dizem e aos “homeless”, cada vez mais comuns nas áreas centrais, atraídos por uma ação humanitária que a cidade desenvolve.

Para quem quer aliar museu, conhecer cidade nova e ter, de quebra, uma vista deslumbrante, nada melhor do que ir a Berkeley . Pegue o bart (o metrô deles) no sentido East Bay e desça na estação Downtown Berkeley. Caminhe um pouco pela agradável Shattuck Ave e depois pegue um ônibus até o Lawrence Hall of Science para ter uma das vistas mais lindas da Bay Área. Fiquei umas duas horas ali só olhando para aquela beleza toda. Meditei bastante. Hoje posso dizer sem hesitar que esse é um passeio tão imperdível quando andar de bike na Golden Gate Bridge (que fiz na minha primeira vez).

Outra vista panorâmica imperdível e que fica dentro da cidade é Twin Peaks. De lá de cima dá para ter uma ideia de como SF é uma cidade plana, com poucos prédios concentrados no Financial District.

Comer em San Francisco é simples e barato. Saladas as mais diversas são encontradas em delis, pequenos restaurantes a até em farmácias (sim, as farmácias de lá parecem nossos supermercados daqui). Mas se a vontade pedir um jantar mais requintado, com preço justo e atendimento cordial, indico o Perbacco, também apresentado por Carol e John, que traz pratos criativos e deliciosos, especialmente frutos do mar.

Agora se a ideia é sair para dançar, a salsa é a opção mais divertida. Há várias casas que oferecem aulas antes da balada começar de fato. A mais famosa é o Café Cocomo, que fica num bairro um pouco escondido, mas está sempre cheio de pessoas das mais diversas nacionalidades. Desde os norte-americanos mais “duros” tentando aprender os primeiros passos até os hispanofalantes mais rodopiantes.

E o melhor da noite em SF é que acaba cedo, ou seja, dá para curtir sem correr o risco de não acordar a tempo no dia seguinte. Ah e uma dica incrível para quem ama dançar como eu: a OCD Dance é uma escola de danças, que oferece vários ritmos e funciona 7 dias por semana em todos os períodos. Dá para fazer aula avulsa ou fechar um pacote. Fiz uma aula maravilhosa de afro-brazilian dance, sugerida pela amiga Lauren Valdez, com quem trabalhei no projeto Global Lives Project.

Mais sobre San Francisco:
O filme, os vídeos e a mobilização (parte I)
Pessoas, projetos e inspirações (parte II)

Educação e Cultura Digital: o carnaval como inspiração para a escola da era digital

Em reportagem publicada hoje no jornal O Globo, a diretora executiva do IED, Priscila Gonsales, a professora Léa Fagundes, o pesquisador Henry Jenkins e a diretora do Instituto Paramitas, Cláudia Stippe falam sobre educação e cultura digital.

Henry Jenkins vê no carnaval mais do que uma festa popular: um exemplo de interação social que deve servir como modelo para os educadores da era digital. De acordo com o pesquisador americano, o carnaval e as escolas de samba são exemplos típicos de cultura participativa, onde todos estão aptos a produzir informação, e o conhecimento é passado de maneira informal.

Com a proliferação das tecnologias de informação, o sistema tradicional de ensino está com os dias contados. As pessoas, principalmente as mais jovens, buscam bens culturais antes inacessíveis, se comunicam por diversas mídias com grupos distantes fisicamente, mas com os mesmos interesses. Para Jenkins, se a escola não se apropriar dessa nova forma de difusão do conhecimento, ficará para trás.


Ética e segurança no currículo escolar

Além da falta de acesso, faltam treinamento e incentivos para que a tecnologia mude o dia a dia das salas de aula. Especialistas concordam que não basta colocar um tablet na mão do aluno e trocar o quadro negro por uma lousa interativa. É preciso mudar a maneira de ensinar.

“Ainda se olha para a tecnologia com o paradigma da revolução industrial. A cultura digital mudou o mundo, mas a escola continua com o sistema falido, de aulas de 50 minutos com o professor falando e o aluno escutando”, avalia Priscila Gonsales, diretora-executiva do Instituto Educadigital.

Para Jenkins, essa é uma das principais lacunas deixadas pela escola. Em vez de aproveitar os dispositivos técnicos para incentivar a participação, os estudantes ainda são mantido apenas como receptores. Segundo ele, os jovens da era digital são acostumados a produzir informação. Eles publicam filmes no YouTube, compartilham informações em redes sociais, e manter esse mundo fora das escolas é até mesmo perigoso para as crianças.

Apesar das dificuldades, existem experiências exitosas e não são poucas. A professora da UFRGS Léa Fagundes, de 82 anos, pioneira no uso da tecnologia na educação no Brasil, conta que em uma escola do Rio Grande do Sul atendida pelo projeto “Um Computador por Aluno”, do Ministério da Educação, os alunos estão se comunicando e trocando experiências com crianças do Uruguai e da Argentina.

Leia reportagem completa em  http://oglobo.globo.com/tecnologia/o-carnaval-como-inspiracao-para-escola-da-era-digital-6473977#ixzz2BMpkrTn1

“Mais importante do que falar de tecnologia na educação, é falar de cultura digital”

Priscila Gonsales, Diretora-Executiva do Instituto Educadigital colaborou com a matéria Inserir a Educação no mundo digital pode melhorar a qualidade de ensino do Blog Educação, veja abaixo.

As novas tecnologias já fazem parte do cotidiano da maior parte dos estudantes brasileiros. A pesquisa de Tecnologia da Informação e Comunicação – TIC, na categoria Kids Online, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI, em 2012, comprovou que 47% das crianças entre 9 e 16 anos usam a internet todos os dias no país; 38% utilizam de duas a três vezes por semana; e apenas 5% utilizam uma vez por mês. Com base em dados como esses, especialistas acreditam que uma das grandes questões a enfrentar para garantir a qualidade do ensino seja a dificuldade existente para inserir a Educação no mundo digital.

“A nossa sociedade está mudando. Então, mais importante do que falar de tecnologia na educação, é falar de cultura digital”, disse a diretora do Instituto Educadigital, Priscila Gonsales. Para ela, a cultura digital que temos, hoje, não está inovando a maneira de ensinar. “Quando falamos só em tecnologia digital na educação, podemos, muitas vezes, fazer mais do mesmo. Você não muda as práticas e metodologias antigas só disponibilizando e introduzindo os equipamentos. Na verdade, precisamos começar a pensar em como mudar a lógica, em como a escola se abre para o mundo que está lá fora”, explicou.

Ao mudar a cultura digital atual, a escola atuaria como questionadora das novas formas de ser e estar. “A internet está criando valores que não tínhamos antes. A instituição de ensino, dessa forma, pode criar reflexões do tipo ‘identidade virtual versus identidade presencial’. Dá para ser duas pessoas ao mesmo tempo? Qual deve ser a postura no meio digital, já que todo mundo pode publicar o que quiser?”, exemplificou a diretora.

Além de assumir esse papel, a instituição de ensino, segundo Gonsales, teria que explorar três focos de aprendizagem: a pesquisa, a comunicação e a publicação. O primeiro ensinaria o aluno a como pesquisar, como achar o que procura em meio a quantidade ilimitada de informações que a internet proporciona. “É interessante pensar que, hoje, temos a vantagem de as coisas não serem totalmente confiáveis, porque é importante para o aprendizado o aluno saber desconfiar das informações, poder buscar em várias fontes, comparar e chegar ao que realmente vai ser útil”, contou a diretora.

O segundo foco, a comunicação, ou trabalho coletivo, abre o universo de informações da escola e permite o intercâmbio de informações com a sociedade. “As redes digitais possibilitam a comunicação entre escolas. Uma escola do Sul do país pode falar com uma escola do Norte. E, de repente, fazer um trabalho em conjunto, colaborativamente, respeitando as diversidades regionais”, sugeriu Gonsales.

Por fim, o foco na publicação ensina sobre a responsabilidade ao criar um conteúdo próprio e divulgá-lo na rede. “A criação de conteúdo próprio é muito positiva para o aluno. Mas, ele deve saber de sua responsabilidade diante do que publica. A escola pode ajudá-lo a compreender melhor seu papel no mundo digital”, afirmou.


O papel do professor

Desde que a internet se tornou ponto fundamental na vida do estudante, o professor e os livros didáticos deixaram de ser a única fonte de informação nas escolas. Por isso, o educador, segundo Gonsales, deve ser o facilitador da aprendizagem. “É por meio dessa nova dinâmica que a educação precisa pensar nas tecnologias digitais e em como, de fato, se consegue envolver os estudantes para que eles sintam vontade de aprender, para que a aprendizagem seja uma coisa para a vida toda – não só aquelas disciplinas específicas do currículo de cada ano.”

Para tanto, a especialista acredita que o professor deve deixar o medo de lado. “Ele tem que experimentar. Não dá para achar que precisa aprender primeiro para trabalhar e aplicar as tecnologias digitais na escola. A tecnologia se renova sempre. Por isso, é importante que ele experimente com seus alunos, porque eles também têm muito o que ensinar. Vamos todos aprender juntos.”

A introdução dessa cultura nas escolas não tem fórmula mágica. Para a diretora, isso deverá acontecer a partir do momento que estimular a troca de experiências entre os professores. “Na pesquisa TIC Educação, tanto de 2010 quanto de 2011, 70% dos professores revelaram que aprendem melhor sobre como inserir a tecnologia na aprendizagem quando trocam informações uns com os outros, informalmente”, explicou. Esse estímulo, para ela, partiria das políticas públicas voltadas à Educação. “Hoje, existem muitos programas de entrega de equipamentos nas escolas públicas, o que é muito bom, mas ainda falta uma formação continuada que estimule o professor a implantar a tecnologia em sala de aula. E não é alguém chegar e ensinar, é propiciar espaços de aprendizagem entre os professores. Isso é uma coisa que não vemos na política pública”, conclui.

Continue lendo e veja boas práticas de professores que integram e inovam com tecnologia na sala de aula.

Livros, leitura e acesso na cultura digital

Artigo de Priscila Gonsales e Bianca Santana publicado no Estadão baseado na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2012.


Nem mesmo a desoladora média de 2,1 livros lidos por ano pelos brasileiros ou o fato de 75% da população do País nunca ter frequentado uma biblioteca chamam tanto a atenção na edição 2012 da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (*1) como os resultados em relação aos livros digitais.

Pela primeira vez, o estudo traz um panorama sobre o hábito de leitura de livros digitais. Um olhar pouco cuidadoso poderia apenas destacar que 46% dos entrevistados disseram que nunca ouviram falar de livros digitais (ou e-books, como enfatiza o questionário) e, consequentemente, proclamar que esse novo suporte para o livro, ou melhor, essa nova possibilidade de leitura, está ainda muito distante da realidade.

No entanto, uma análise qualitativa sobre os resultados vai trazer à tona algo que está nas entrelinhas. Se considerarmos o grupo que afirmou já ter lido livros digitais, vamos observar que 54% dos entrevistados disseram que gostaram muito da experiência, 40% gostaram pouco e 6% responderam que não gostaram.

Esse resultado é altamente positivo apesar de vir de um pequeno percentual (18%) que afirmou ter tido contato com o livro digital. Isso imediatamente nos instiga a pensar que existe sim um interesse e uma recepção até calorosa por parte de quem já experimentou. Quem não conhece, quer conhecer (25% ) e quem já usou, gostou e quer mais (34% vão ler mais livros digitais a partir de agora). Não seria esse público o que o mercado publicitário chama de early adopter (*2)?

Outro aspecto que merece uma reflexão mais aprofundada neste contexto é o conceito e de “livro digital”. Segundo a própria pesquisa:  “Ao falar de livros, estamos falando de livros tradicionais, livros digitais/eletrônicos, áudio livros, digitais-daisy, livros em braile e apostilas escolares. Estamos excluindo manuais, catálogos, folhetos, revistas, gibis e jornais”.

Trazer uma definição geral para “livro” é um avanço importante em relação às pesquisas de anos anteriores, no entanto, a mesma conduta poderia ter sido adotada para buscar definir o que se entende por livros digitais e/ou eletrônicos. Quando se fala em livro digital, o que mais vem à mente são os dispositivos eletrônicos de suporte à leitura, os chamados “e-readers” (*3). Um livro ou um jornal em um leitor eletrônico, como o Kindle (*4), por exemplo, retoma a ideia de um produto fechado, como o impresso, com uma temporalidade também delimitada como a edição mais recente ou, no caso do jornal, a edição do dia.

A maioria dos e-readers oferece navegação semelhante ao manuseio do papel, remete quase à mesma sensação de ler um livro ou um jornal impresso. No entanto, é fundamental refletir sobre o conceito de livro digital que devemos considerar no contexto da cultura digital em que estamos. Seria meramente uma reprodução do livro em papel? Um arquivo eletrônico PDF? Uma animação multimídia cheia de cliques?

As possibilidades de leitura propiciadas por computadores, tablets, celulares e outros dispositivos extrapolam o que chamamos de livro. Como uma mídia de convergência de infinitas tecnologias e linguagens, a internet permite que textos, imagens, tabelas, infográficos, vídeos, games e diversos aplicativos multimídia possam ser simultaneamente acionados para contar uma história, seja ela ficcional ou informativa, linear ou descontínua.

Arte Fora do Museu (*5), por exemplo, é um projeto digital sobre as obras de arte que estão nas ruas de São Paulo. Ele reúne informações em textos e fotografias, que poderiam estar em um livro, mas foram publicados online, agregando vídeos e georreferenciamento das obras. É pouco provável que alguém defina o Arte Fora do Museu como um livro digital ou um e-book. Mas muitos dos que navegaram por aquelas páginas leram tanto quanto fariam em um e-book sobre o mesmo tema. Além disso, o conteúdo de um projeto como este está distribuído pela rede, no YouTube, no Facebook, no Flickr, fazendo com que as informações sejam acessadas de muitas maneiras, fragmentadas, e que se alguém tiver interesse em se aprofundar no assunto, possa sempre ser levado à fonte original.

Os e-books e os PDF de impressos não aproveitam uma importante possibilidade trazida pelo digital: o hipertexto. O termo hipertexto, cunhado por Ted Holm Nelson nos anos 1960, significa, nas palavras de Sergio Amadeu da Silveira “uma escrita não sequencial, um texto que se bifurca e que permite ao leitor escolher o que deseja ler. São blocos de textos, conectados entre si por nexos que formam diferentes itinerários para os usuários”. O hipertexto coloca a possibilidade de os indivíduos aprofundarem conhecimento nos temas que os interessem de maneira livre e autônoma. Nesse sentido, as possibilidades abertas pela digitalização de conteúdos são potencializadas pela expansão do acesso à internet.

Antes, a veiculação da informação e do conhecimento estava vinculada a suportes materiais: livros, discos, CDs, apostilas, enciclopédias. Para disseminar informações era preciso ter acesso a esses recursos materiais, caracterizando um modelo de comunicação “de um para muitos”. A internet deu a todos o poder de criar, moldar e disseminar informações com a ponta dos dedos, abrindo a possibilidade de uma comunicação “de muitos para muitos”. O modo como produzimos e consumimos informação atualmente é muito diferente do que era no curto espaço de tempo de 20 anos atrás.

Reportagem do jornal Brasil Econômico, de 23/3/2012, traz dados da pesquisa Ipso/Reuters, mostrando que 85% da comunicação no globo já é feita pela web. A maior parte do mundo está interconectada graças aos recursos de e-mail e de redes sociais, como Facebook e Twitter. E-mails são enviados e recebidos por 85% das pessoas que estão conectadas à internet e 62% delas se comunicam por sites de redes sociais. O Brasil é o 5º país em usuários conectados a essas redes. Segundo o Ibope Nielsen Online, o país atingiu 41,7 milhões de usuários de internet em outubro de 2010.

Além de os conteúdos estarem disponíveis mais facilmente, sem depender de suporte material, eles podem ser compartilhados quase que instantaneamente pela rede www.arteforadomuseu.org mundial de computadores. Segundo o sociólogo Manuel Castells, a intensidade e o ritmo acelerado das mudanças permitem afirmar que estamos vivendo uma revolução tecnológica, saindo de uma era industrial para uma era “informacional”. Esta revolução seria um evento histórico da mesma importância da Revolução Industrial do século XVIII, “induzindo um padrão de descontinuidade nas bases materiais da economia, sociedade e cultura”.

Se o gosto pelo livro digital parece ser uma questão de “ver para crer” e, segundo a maioria dos leitores (52%) a tendência é que ele conviva igualmente com os livros impressos, o ponto que continua em suspense é, sem dúvida, se essa convivência vai possibilitar o aumento no índice de leitura no Brasil.

Uma pesquisa (*6) realizada nos Estados Unidos pelo grupo de mídia e educação Scholastic e pela empresa de consultoria Harrison Group, mostra que e-books podem estimular a leitura de crianças: 57% das crianças disseram que ficariam mais interessadas em ler nos dispositivos de e-reader. Segundo o estudo, cerca de um terço das crianças disseram que leriam mais livros por prazer caso os leitores digitais estivessem a seu alcance. No entanto, 66% afirmaram que continuariam a ler livros impressos mesmo com uma maior disponibilidade do e-book.

O que poderia estimular a leitura e igualar nossos índices, no mínimo, aos de nossos vizinhos Argentina e Chile (5,4 e 4,6 livros por ano, respectivamente)(*7) passa por dois importantes aspectos. O primeiro deles envolve a conceituação de livro digital. O imenso público de internautas usuários de redes sociais no Brasil e o cada vez mais precoce contato de crianças e adolescentes com as telas digitais (29% das crianças de 5 a 9 anos já estão nas redes sociais) (*8) estão trazendo o desafio de dar novo significado à definição tradicional de livro e de leitura na era digital.

O segundo aspecto, fundamental e que faz remeter aos dados alarmantes apontados no primeiro parágrafo deste artigo, gira em torno do que chamamos de acesso. Se queremos ser um país de leitores, estamos estimulando que nossa população leia? Segundo diagnóstico do setor livreiro (*9) de 2009, verifica-se a concentração de livrarias na região Sudeste (56%), seguida pela Sul (19%), Nordeste (12%), Centro-Oeste (6%), DF (4%) e Norte (3%). Dois terços dos municípios brasileiros não possuem livraria.

Seriam os livros digitais agentes de promoção de leitura à medida que dispensam o custo de suporte material, impressão e distribuição? Durante sua participação na Festa Literária de Paraty – Flip, em 2008, o escritor inglês Neil Gaiman deu uma entrevista coletiva na qual diz não se importar se as pessoas têm acesso a seus livros, emprestando umas das outras ou se baixam gratuitamente da internet. Gailman ressalta que seu interesse é que as pessoas ingressem na “sua tribo”, uma tribo de leitores.(*10)

Se nosso desejo também combina com o de Gailman, precisamos aprofundar aqui a questão do acesso. A pesquisa traz um dado bastante curioso em relação à enorme porcentagem dos que já leram livro digital que realizaram download de obras. 87% disseram que baixaram publicação gratuitamente da internet. Desses, 38% responderam “sim” quando questionados se a publicação era “pirata”.

O termo “pirataria” vem sendo cotidianamente empregado para designar toda e qualquer obra artística ou intelectual (incluindo livros) que pode estar violando os termos de direito autoral ou copyright (*11). Há que se relativizar, no entanto, que a metáfora semântica em relação aos criminosos dos mares que roubavam ouro e outros tesouros dos navios não é a mais apropriada. Quem rouba um bem material faz, de fato, com que outra pessoa o perca. No entanto, no mundo digital não existe perda quando se faz uma cópia de uma música ou de um texto na internet. Um livro ou uma música podem ser copiados de um dispositivo para outro, sem que o cedente da cópia perca seu acesso ao conteúdo, que ainda pode ser apreciado por milhões de pessoas simultaneamente. Os bens intangíveis e imateriais não conhecem a escassez, nem o desgaste.

No início do mês de maio, quem é usuário frequente do Twitter pode acompanhar a polêmica em torno da hashtag #freelivrosdehumanas, uma manifestação pública em favor da manutenção do site de compartilhamento livrodehumanas.org (*12), criado há 3 anos, que possibilita baixar gratuitamente cerca de 2 mil livros esgotados nas áreas de filosofia, psicologia, literatura e psicanálise em formato PDF ou EPUB. O site foi retirado do ar mediante notificação da justiça a partir de uma ação movida pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) que pretende enquadrar o site em uma das maiores ações de pirataria ocorridas no país.(*13) Para reunir as diversas reações contrárias a essa ação, foi criado o blog Direito de Acesso.(*14)

O caso do livrodehumanas.org é um ótimo exemplo para elaborarmos um pouco mais o que entendemos por digital e como o digital faz hoje parte da nossa sociedade – uma sociedade em constante transformação. Não se trata somente da transformação de qualquer informação em bit, apesar de se tratar também disso. Comprimir dados – sejam eles textos, áudios, vídeos ou imagens – de seu suporte material, livros, revistas ou jornais, aumenta as possibilidades de reprodução e de distribuição de conteúdos. Ou seja: aumenta as possibilidades de acesso e difusão da leitura. Para Pablo Ortellado, professor da USP e coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (GPOPAI) (*15), a digitalização do livro tem um impacto fundamental na difusão do conhecimento entre classes sociais que antes não conseguiriam adquirir livros, já que a renda familiar de muitos estudantes é inferior ao valor da bibliografia solicitada em cursos universitários.

Não afirmamos com isso que o livro impresso vai acabar ou que não é possível lucrar com conteúdos digitais. Trata-se de buscar um outro modelo de negócio, que não esteja baseado em cobrar pelo acesso aos conteúdos, mas sim ao uso de serviços associados ao conteúdo. Já existem algumas iniciativas pelo mundo que podem servir de exemplo e inspiração para editoras, como a Flatword Knowledge (*16), citada na última partes deste artigo.

Yochai Benkler, professor de Direito da Universidade de Harvard e diretor do Berkman Center for Internet and Society (*17), um dos pensadores contemporâneos mais referenciados quando o assunto é movimento colaborativo como modelo de produção na era digital, traz uma reflexão interessante para destacar que trabalho realizado pelo autor de uma obra não será refeito sempre que um usuário tem acesso a ela : “Tolstoi não precisaria gastar nem mais um segundo de trabalho a fim de atender ao centésimo milionésimo leitor de Guerra e Paz, além do que gastou para atender ao primeiro leitor” (2010: 14). Diferentemente dos altos custos inerentes à impressão e à distribuição de material impresso, distribuir materiais digitais tem um custo muito baixo.

Com a expansão do acesso à internet, diversos movimentos pela liberdade de distribuir e modificar trabalhos e obras criativas têm ganhado força e se justificam pelo direito à educação e à cultura e também pelo direito do autor em decidir que usos quer permitir para sua produção. São cada vez mais conhecidos os movimentos do software livre, do Creative Commons (*18), da transparência de dados públicos, dos recursos educacionais abertos (REA).

O termo “recursos educacionais abertos” (open educational resources, em inglês, OER) foi adotado, pela primeira vez, durante um fórum da Unesco, em 2002. Trata-se do esforço de uma comunidade de educadores, políticos e usuários articulada para criar, reutilizar e propagar bens educacionais pertencentes à humanidade. Em 2007, foi publicada a Declaração da Cidade do Cabo para a Educação Aberta:

“Esse movimento emergente de educação combina a tradição de partilha de boas ideias com colegas educadores e da cultura da internet, marcada pela colaboração e interatividade. Esta metodologia de educação é construída sobre a crença de que todos devem ter a liberdade de usar, personalizar, melhorar e redistribuir os recursos educacionais, sem restrições. Educadores, estudantes e outras pessoas que partilham esta crença estão unindo-se em um esforço mundial para tornar a educação mais acessível e eficaz.”

Quando materiais didáticos e educacionais são considerados bens públicos e comuns, todos podem se beneficiar: professores, estudantes e autores interessados na utilização de sua produção. Quando tais materiais são pagos com dinheiro público, seja pelos programas de incentivo ao livro e à leitura ou por iniciativas próprias de governos produzirem materiais, faz ainda mais sentido que sejam bens públicos. E por incentivarem a produção aberta, o compartilhamento e o acesso a conteúdos, REA otimizam a utilização de recursos públicos.

Além de tais benefícios, os recursos educacionais abertos criam a oportunidade para uma transformação ainda mais fundamental na educação: a de ter educadores, estudantes e mesmo aqueles não formalmente vinculados a uma instituição de ensino envolvidos no processo criativo de desenvolver e adaptar recursos educacionais. Governos e instituições de ensino podem formar professores e alunos para a produção colaborativa de textos, imagens e vídeos de qualidade. É criado espaço para a formação continuada de professores e estudantes para a produção e edição de material didático e a apropriação de tecnologias digitais em seu cotidiano. Com a abertura dos materiais na rede, a possibilidade de formação continuada se expande a toda a sociedade.

No Brasil, nos últimos três anos, tanto governo federal como governo estadual e municipal de São Paulo começam a debater e criar leis visando o uso e o desenvolvimento de REA. O país também foi sede do Fórum Regional para a Declaração da Unesco, que convida governos do mundo todo a declarar que recursos educacionais financiados com recursos públicos devem adotar o modelo REA.

Um exemplo é o Plano Nacional de Educação (PNE) a ser votado este ano no Congresso Nacional e que estabelece diretrizes e metas para a educação no Brasil até 2020. Pela primeira vez, o PNE contempla o incentivo a REA dentro da meta 7, que foca a melhoria da qualidade por meio do aumento do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Ainda no âmbito federal, o Projeto de Lei 1513/2011 visa garantir que as compras públicas ou contratação de serviços e materiais educacionais sejam regidas por meio de licenças livres, permitindo a difusão e a ampliação do acesso a esses bens.

O Brasil não está sozinho no debate sobre políticas públicas de REA. Nos EUA, por exemplo, o presidente Barack Obama pretende acelerar o processo de inclusão digital em todas as escolas norte-americanas, propiciando que todos os estudantes tenham acesso a livros didáticos digitais até 2017 (ROSSINI e GONZALEZ, 2012). Além disso, abriu uma linha de financiamento de US$ 2 bilhões destinada a produção de REA em colégios comunitários (*19).


Novos modelos de negócio

Se a ampliação da disseminação de obras propiciada pela internet está promovendo uma revolução no acesso ao conhecimento, ao mesmo tempo esbarra nos interesses comerciais do mercado editorial. Nesse sentido, vale a pena remeter à situação da indústria fonográfica que tem saído na frente na direção de buscar reinventar-se com a proliferação do acesso online para música. Inúmeros artistas começam a olhar para esse cenário como uma oportunidade de divulgação e oferta de serviços derivados de seu produto, como por exemplo, o Teatro Mágico. O grupo, originário da cidade de Osasco, na Grande São Paulo, não se vincula a nenhuma gravadora, permite que o público baixe suas músicas na internet. Em entrevista à Revista Forum, Fernando Anitelli, um dos fundadores, conta que a fórmula deu tão certo que, mesmo com as canções podendo ser baixadas gratuitamente, seus CDs são vendidos às dezenas nos shows e suas turnês são cada vez mais requisitadas (*20).

Ao considerar o livro digital de uma perspectiva técnica econômica, podemos afirmar que a informação, uma vez produzida, pode ser oferecida com custo praticamente zero. É claro que a produção da informação, com todo o processo editorial que a acompanha, é cara e precisa ser devidamente remunerada e recompensada. Ou seja, o trabalho do autor que cria, produz ou desenvolve uma obra deve continuar sempre sendo remunerado. Mas é necessário criar novos modelos de negócio que deem conta desta necessidade sem restringir o acesso. Não é possível afirmar o que está por vir. Mas também não é possível negar que as mudanças estão se anunciando. Em vez de ameaça, o mundo digital pode oferecer uma oportunidade para o aumento do número de leitores e de livros publicados.

Uma editora norte-americana, a Flatworld Knowledge, já aprendeu a lucrar neste novo cenário. Pioneiramente, a editora implementou um novo modelo de negócio a partir do contexto da cultura digital, baseado no consumo sob demanda. Qualquer usuário pode ter acesso livre aos livros online, por meio de uma plataforma multimídia, que permite fazer leituras online e buscas no livro. No entanto, se o usuário deseja comprar o livro impresso, tem a opção de escolher se em cores ou preto e branco e ainda uma versão em áudio, guias e material de apoio.

No caso dos livros didáticos, a editora permite que o educador decida como quer utilizar o livro. Pode modificá-lo à vontade, alterar a ordem de capítulos, acrescentar ou retirar material, de uma forma que esse educador usuário desempenha um papel de editor do livro. Nossa experiência com formação de educadores nos últimos dez anos nos permite afirmar que todo professor gostaria de poder escolher partes de um livro para utilizar, como também a agregar a esses trechos outros materiais que julga interessante para compor seu plano de aula, ou seja, ser um receptor ativo de materiais educativos
que estão ao seu alcance. A empresa desenvolveu ainda uma comunidade de leitores dos livros, que podem conversar a qualquer momento, postar suas dúvidas online e produzir material de estudo. Nesse caso, como autor, o usuário determina o preço para disponibilizar sua produção para download.

Outra característica interessante desse modelo é que a porcentagem de direito autoral que os autores dos livros recebem é de 20% do preço de venda, bem acima da média do que é pago pelos modelos tradicionais. O lucro da empresa vem diretamente das vendas de livros impressos e em áudio, e também da venda de serviços (por exemplo, guias de estudo em podcast, exercícios, soluções animadas para problemas complexos, vídeos, flashcards etc.), que podem ser comprados individualmente (US$ 0.99) ou por assinatura semestral – US$ 19.95. Todos os autores recebem também 20% sobre esse
material comercializado.

Segundo Eric Frank, fundador da empresa, que esteve no Brasil em 2010 durante a Conferência Internacional Impacto das TIC na Educação, promovido pela SEED/Unesco, os custos que a empresa têm ainda são inferiores ao custo de manutenção de grandes editoras, que trabalham no modelo de distribuidores e representantes de vendas.

O argumento de que a cultura de compra sob demanda ainda não chegou para ficar no Brasil não combina com as recentes pesquisas. A e-bit divulgou os dados da 23ª edição do relatório WebShoppers21, com informações completas sobre o comércio eletrônico no Brasil em 2011 e mostra que os brasileiros estão comprando mais produtos pela internet.

O e-commerce nacional faturou 14,8 bilhões de reais no ano passado, com um aumento que superou a marca de 40%. Esse resultado, aliás, superou a previsão anterior da empresa, que considerava um faturamento de R$ 14,5 bilhões. Os argumentos podem ser sustentados por números: em 2010, foram feitos mais de 40 milhões de pedidos, divididos em uma base de aproximadamente 23 milhões de “e-consumidores” que gastaram, em média, R$ 373.

O caso da Flatworld ilustra como algumas iniciativas editoriais começam a se abrir para o novo. O contexto da cultura digital pede um novo olhar, ainda que, aparentemente, a forma de atuação em vigor esteja sendo eficiente e trazendo lucro. Os modelos de negócio bem-sucedidos também podem criar inércia.

Em entrevista à Revista Época em 2009, Yochai Benkler ressalta que as empresas que já estão preocupadas em olhar para seus consumidores como participantes ativos, certamente tem pela frente um vasto campo de oportunidades e não de riscos. Um clássico exemplo é o Google, uma companhia que já nasce longe da ideia de produzir produtos prontos e acabados para consumidores passivos.(*22)

Livro digital é um tema que merece ainda mais atenção do que vem recebendo por parte do mercado editorial brasileiro. Não se trata de pensar apenas no produto em si e esperar que ele revolucione. Estamos diante de um contexto complexo e exigente que pede releitura de conceitos para criar melhores serviços, compromisso de transformação social para promover o acesso e revisão de estruturas comerciais que permitam maleabilidade e adaptação constantes.


Ações e campanhas pelo livro digital

Algumas ações em prol dos livros digitais começam a surgir na rede. Uma delas é a “campanha” pela digitalização dos livros que oferece um banner para ser disponibilizado embedado em blogs e sites: http://www.ebookbr.com/2011/12/campanha-pela-popularizacao-dos-livros.html.

Outra iniciativa tem por objetivo tornar o livro acessível a portadores de necessidades especiais, apostando no potencial que o meio digital tem para favorecer essa causa: http://www.livroacessivel.org/.

A “Semana da Leitura Digital”, uma iniciativa da escritora canadense Rita Toews que existe desde 2004. Durante uma semana, que em 2012 ocorreu de 4 a 10 de março, autores e editoras oferecem milhares de livros grátis ou com grandes descontos, com o objetivo de encorajar os apaixonados pela leitura a descobrirem e experimentarem os livros digitais.: http://www.ebookweek.com/ (em inglês).

O grande destaque nesse cenário é o Projeto Gutemberg (http://www.gutenberg.org/), considerada a mais antiga biblioteca digital. Criada em 1971 por um estudante da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, foi sendo construída por voluntários de todo o mundo ao longo dos últimos anos, que mantém em uma plataforma wiki. Disponível também em português, o projeto hoje oferece uma página especial, com iniciativas remixadas a partir dos livros, todos em domínio público: http://www.gutenberg.org/wiki/PT_Reutilizar_os_textos_do_Project_Gutenberg


Citações

BENKLER, Yochai The Wealth of Networks: How Social Production Transforms Markets and Freedom. New Haven, Conn: Yale University Press. 2006. Disponível em: www.benkler.org/Benkler_Wealth_Of_Networks.pdf

__________________. Saber Comum: Produção de Materiais Educacionais entre Pares. Revista FACED, Salvador, n.15, jan./jul. 2009. Disponível em: http://

Acesso à entrevista completa:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT53938-15228,00.html

www.benkler.org/Benkler_Wealth_Of_Networks.pdf

CASTELLS. Manuel. A sociedade em rede. São Paulo, Paz e Terra, 1999.

________________. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 2003.

CHESBROUGHT, Henry. Modelos de Negócios Abertos. Bookman, 2012

FRIEDMAN, Thomas. O Mundo é um Plano, uma breve história do século XXI, Objetiva, 2005.

LEMOS, André. Materialidade dos Dispositivos