O filme, os vídeos e a mobilização (parte I)

O que o sucesso de bilheteria 2 Filhos de Francisco, de 2005, pode ter em comum com dois projetos de vídeo recentemente bem-sucedidos em sites de crowdfunding? Enquanto me recuperava de uma gripe forte que trouxe dos meus 21 dias de “retiro” em San Francisco/EUA, pensava num gancho para escrever um post sobre a viagem. Foi quando me deparei na madrugada de ontem (insônia pela diferença de 6 horas de fuso), zapeando pela TV, com as cenas que eu mais adoro nesse longa do diretor brasiliense Breno Silveira, atualmente em cartaz com o ótimo Gonzaga de Pai para Filho.

Com todo seu entusiasmo misturado com amor e perseverança, o “seu” Francisco, pai de Zezé e Luciano, aposta, literalmente, todas as fichas mobilizando sua rede social para promover  a música de seus filhos. Para quem não lembra, ele primeiro deixa a fita demo na rádio local e depois começa a telefonar dos orelhões na cidade pedindo para tocar a música e, ao perceber que a ideia funcionava, compra muitas fichas de telefone e passa a engajar amigos, companheiros de trabalho e até desconhecidos nas ligações para poder conquistar seu objetivo de ver “É o amor” como a mais pedida nas paradas de sucesso.

Sempre choro nessa parte, confesso. Me emociono demais pensando em como é mesmo gratificante conseguir algo com nosso esforço e persistência, especialmente coisas em que se acredita e que parecem impossíveis. Nosso projeto da vídeo-entrevista da Léa Fagundes no Catarse foi assim. Quando tudo começou era apenas uma ideia que a gente sabia que devia fazer, que devia ir atrás. A trajetória de uma personalidade ilustre da educação brasileira, que vem inovando há tempos mesmo com todas as dificuldades, mostra que o foco sempre deve estar no desenvolvimento humano,  independentemente das mais avançadas tecnologias digitais.

Estamos muito felizes com o resultado, um trabalho árduo de edição (mais de 10 horas gravadas!) feito com nossos criativos parceiros da Filmes Para Bailar. O lançamento oficial será em fevereiro. Para tornar o projeto realidade, foram necessários 40 dias de trabalho intenso de mobilização de redes sociais. E nossas “fichas” estavam nos cliques e recursos digitais disponíveis, além dos inúmeros e-mails mais que pedintes para familiares e amigos íntimos. E conseguimos, até passamos da meta pretendida!

Nesse início de ano em San Francisco, tive a feliz oportunidade de acompanhar de perto outro projeto de vídeo bem-sucedido em crowdfunding graças também à forte mobilização de rede: o documentário Lives in Transit (vidas em trânsito) do Global Lives Project. Global Lives Project é uma ONG fundada em 2004 pelo sociólogo californiano David Evan Harris, que fez seu mestrado aqui na nossa USP e por isso fala um ótimo português. Sua missão é criar uma videoteca sobre a experiência de vida humana a partir da produção de vídeos que registram 24 horas na vida de pessoas comuns de diferentes lugares do mundo. Os vídeos, produzidos por videomakers independentes, são licenciados em Creative Commons, estão disponíveis na web (alguns já com legendas feitas por voluntários) e também em exibições periódicas em formato de instalação artística.

Empatia é a palavra-chave. Conhecer o outro para conhecer melhor a si mesmo. Uma iniciativa encantadora que faz lembrar as palavras de Eduardo Galeano: “é preciso ser capaz de olhar o que não se olha, mas que precisa ser olhado, as pequenas coisas de pessoas anônimas que os intelectuais costumam desprezar”.

Quando cheguei ao escritório deles no aconchegante coworking PariSoma, no início de janeiro, a arrecadação no Kickstarter não tinha chegado nem na metade e só restavam 6 dias para o prazo final. Postais estavam sendo preparados para enviar pelo correio, tuitadas e mais tuitadas, e-mails para amigos e amigos de amigos, posts os mais diversos no Facebook. Mas a ação mais bacana que participei foi a uma força-tarefa do conselho de voluntários, um dia antes do prazo final. Todos juntos, na mesma sala, divulgando e acompanhando a arrecadação em tempo real. Um lindo processo que gerou um resultado mais que satisfatório: a campanha atingiu 10 mil dólares a mais do pretendido. Com o valor excedente, a equipe vai produzir um material educativo para apoiar o uso dos vídeos nas escolas. E um novo site do projeto será lançado também agora em 2013.


Mais sobre San Francisco:
Pessoas, projetos, inspirações (parte II)
Dicas da cidade (parte III)

Instituto Educadigital e Projeto REA Brasil no 4º Anuário ARede de Inclusão Digital

Instituto Educadigital tem a honra de fazer parte do 4º Anuário ARede de Inclusão Digital


Priscila Gonsales e Débora Sebriam do Instituto Educadigital estiveram presentes no Prêmio ARede de Inclusão Digital para prestigiar os vencedores da edição 2012 e o lançamento do 4º Anuário ARede de Inclusão Digital. A publicação retrata iniciativas de todo o país, realizadas pelo terceiro setor, setor privado e sociedade civil organizada.


Projeto REA Brasil e IED

O Instituto Educadigital é desde 2011 a instituição responsável pelo Projeto REA Brasil, coordenado por Priscila Gonsales e Bianca Santana. O Projeto REA Brasil é uma das iniciativas retratadas no Anuário ARede de Inclusão Digital 2012/2013.  O texto aborda as recentes conquistas do movimento REA no Brasil, como o Decreto do município de São Paulo, em que, a Secretaria Municipal de Educação instituiu licenciamento de toda a produção de material didático em Creative Commons, a chegada da proposta também para o Estado de São Paulo em 2011 e o PL Federal. Os eventos regionais que buscam empoderar professores, gestores públicos, advogados, analistas de sistema, etc, para levar REA para outros estados do Brasil tiveram destaque. O recente livro Recursos Educacionais Abertos: práticas colaborativas e políticas públicas, organizado por Bianca Santana (Instituto Educadigital/Casa de Cultura Digital), Carolina Rossini (Projeto REA Brasil/GPOPAI-USP) e Nelson Pretto (UFBA), que trata da questão da educação aberta e dos recursos educacionais abertos também foi citado.

Veja todos os premiados e homenageados na revista ARede.

REA: material didático, produção colaborativa e autoria na era da informação

O tema Recursos Educacionais Abertos esteve presente no 35º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, realizado no estado de Pernambuco, entre os dias 21 e 24/10/2012. Bianca Santana, diretora de educação do Instituto Educadigital a tual coordenadora do Projeto REA Brasil juntamente com Priscila Gonsales, ministrou o minicurso REA: material didático, produção colaborativa e autoria na era da informação.

Estiveram presentes pesquisadores e pesquisadoras em Educação, docentes e discentes dos 111 Programas de Pós-Graduação em Educação deste país, além de convidados especiais que, com suas experiências e reflexões,  enriquecem o debate educacional. São eles pesquisadores estrangeiros de distintos países da América Latina, dos Estados Unidos e Europa. As Reuniões Anuais da Anped contam ainda com representantes de segmentos da sociedade civil organizada e do governo em seus distintos âmbitos.

Confira abaixo a apresentação utilizada para o minicurso.


OpenEd 2012: educação aberta

Aconteceu em Vancouver, de 16 a 18/10, a Conferência “Open Education” que na edição de 2012 procurou traçar um caminho para a educação aberta que caminha além dos conteúdos para a próxima década. O Brasil foi representado  na conferência com Débora Sebriam, coordenadorea de projetos do Instituto Educadigital e Carolina Rossini, ex-coordenadora e fundadora do projeto no Brasil.

Entre os projetos e temas tratados na conferência estiveram:

  • Estragégias de política institucional e governamental
  • Avaliações – formativa e somativa, diagnóstica e adaptativa
  • Abertura de grupos de estudo e outras oportunidades para a interação social
  • Novas pedagogias que aproveitam a reutilização, remixe e redistribuição de REA
  • Novos modelos de negócio
  • Novos modelos de certificação
  • Colaborações para expandir a educação aberta

Carolina Rossini (atualmente Electronic Frontier Foundation) e consultora do IED, foi uma das palestrantes convidadas do evento, juntamente com Gardner Campbell (Virginia Tech) e John Willinsky (Stanford University School of Education) e falou no auditório principal sobre REA no Brasil e outros casos interessantes.

Você pode conferir a apresentação e vídeo de Carolina Rossini na íntegra, logo abaixo.



Programa Roda de Conversa da Escola Municipal de Saúde aborda REA

No fim do mês de agosto, o Programa Roda de Conversa da Escola Municipal de Saúde de São Paulo convidou especialistas em Recursos Educacionais Abertos para abordar o tema. Participaram Priscila Gonsales, diretora-executiva do Instituto Educadigital representando o Projeto REA Brasil, Andreia Inamorato dos Santos do Projeto Oportunidad e Universidade Mackenzie, Alexandre Barbosa, do Centro de Estudos sobre Tecnologias da Informação e Comunicação e a coordenadora de gestão de pessoas da Escola Municipal de Saúde, Jeane Marinho.

Inaugurada em 2008, a Rede São Paulo Saudável, rede de transmissão e recepção de sinais de TV digital via satélite, conta com cerca de 1000 pontos de recepção dois estúdios de geração e três canais de TV, o Canal Cidadão, o Canal Profissional e o Canal Interativo.

Os objetivos do projeto são melhorar a capacitação dos profissionais, através de Educação à Distância; transmitir conteúdo educativo para os cidadãos usuários das unidades de saúde, enquanto estes estão aguardando atendimento. A Rede São Paulo Saudável é uma ferramenta de comunicação, que integra e difunde informações importantes em toda a rede municipal de saúde, de forma direta, rápida e objetiva.

Confira os 4 blocos do programa na íntegra:


Novo paradigma educacional: Bianca Santana fala sobre REA

Bianca Santana, diretora de educação do Instituto Educadigital conversou com a Revista ARede, edição nº 83 – agosto de 2012, para falar sobre Recursos Educacionais Abertos. Veja abaixo e não esqueça de citar a revista ARede ao republicar a notícia.

UMA ABORDAGEM diferente sobre como o conteúdo é usado nas escolas, os recursos educacionais abertos (REA) vêm ganhando espaço entre os profissionais da área pela liberdade de trabalho que proporciona. Quem usa REA é ao mesmo tempo consumidor e produtor do conteú­do, se assim quiser. Não por acaso, já na primeira página da obra Recursos Educacionais Abertos – Práticas Colaborativas e Políticas Públicas, lê-se o convite “Remixe este livro”. Recém-lançado pela Casa da Cultura Digital em parceria com a Editora da Universidade Federal da Bahia, a publicação reúne reflexões, experiências, depoimentos e entrevistas de professores e outros profissionais que vêm descobrindo o potencial dos REA. Seguindo os preceitos dessa abordagem, a obra foi licenciada sob Creative Commons e pode ser baixada na internet livremente.

A pesquisadora, educadora e jornalista Bianca Santana, uma das organizadoras do livro, explica o que os REA possibilitam: “Imagine que preciso usar a imagem de uma flor em algum trabalho escolar. Se a imagem escolhida, seja em um livro ou em um site na rede, tiver o símbolo de copyright, não posso utilizá-la. Mas se for um recurso educacional aberto, sim, será possível usá-la. Isso vale tanto para textos quanto para imagens e aplicativos que geralmente estão sob licença Creative Commons”.

Da mesma forma que o software livre fez com a tecnologia, os REA transformam o processo de ensino e aprendizagem dentro e fora das escolas. “Esse formato está associado à liberdade de acesso ao conhecimento, à capacidade de investigação e de criação de coisas novas. Uma educação de verdade é aquela que forma pessoas críticas, que produzem inovação. O uso de REA é uma maneira de transmitir para as pessoas que elas podem e têm condições de interferir no mundo”, defende Bianca.


Os REA se tornaram um movimento social?
Bianca Santana Já existe bastante gente engajada em um movimento que está crescendo no Brasil. Entre as pessoas que participam ativamente via Facebook ou lista de discussão, há mais de 500 envolvidos. Esse número inclui professores, estudantes de graduação, pensadores de universidade pública, profissionais de TICs, participantes de movimentos sociais que trabalham com educação fora da escola, advogados. Quando comecei, em 2009, quase não existia material sobre REA. Naquela época, o grupo de discussão somava apenas 40 pessoas envolvidas em cultura digital.


A que se deve esse crescimento?
Bianca – Pela importância dessa proposta educacional. Para se ter uma ideia, estava na Conferência Nacional de Educação (Conae) explicando o conceito dos REA para uma professora de ensino fundamental do Pará, quando ela disse: “Sei porque isso é importante. Hoje eu recebo um livro didático de história e geografia que tem cinco páginas falando sobre os japoneses em São Paulo e só dois parágrafos falando do estado do Pará. Sou de uma comunidade ribeirinha, que é muito diferente de outra comunidade da região, mas nada é mostrado.”


Como os REA podem ajudar a resolver a limitação do livro didático?
Bianca – Se o livro estivesse disponível na internet, a professora do Pará, por exemplo, poderia alterar esse conteúdo. Poderia, junto com os alunos ou com outros professores, acrescentar informação sobre sua comunidade local. E esse material se transformaria em uma informação oficial para ser compartilhada por outros professores e estudantes do Brasil, inspirando mais iniciativas como essa. Às vezes, muito mais importante do que adaptar um material que já vem pronto, é dar vazão para as produções locais. A política pública precisa olhar para essa questão. Não dá para o governo continuar pagando fortunas para as grandes editoras produzirem em São Paulo e Rio de Janeiro, grandes polos editoriais. É preciso distribuir recursos para produzir material em todos os lugares, pois o conhecimento não está apenas nas grandes capitais.


Como as editoras estão reagindo?
Bianca – Elas estão assustadas, o que é uma bobagem. A editora estadunidense Flat World Knowledge é comercial, mas produz REA e não deixou de ser lucrativa por causa disso. Só mudou o modelo de negócio. Certa vez, Ronaldo Lemos [coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-RJ e do projeto Creative Commons no Brasil] disse em uma entrevista que o educacional seria o próximo setor a se mexer, tal como aconteceu com o musical. É no que acreditamos. Há necessidade de uma mudança para criar um novo modelo de negócio porque o que está em jogo é dar acesso ao conhecimento e flexibilizar o direito autoral.


Essa é a razão pela qual a questão do copyright está ligada aos REA?
Bianca – Sim. Não dá para falar de REA sem pensar na lei do direito autoral. Para se ter uma ideia, hoje não se encontra Cecília Meireles nem Manuel Bandeira em livro didático porque as famílias dos escritores não deixam publicar. Diante disso, o que é mais importante: o direito dos herdeiros de lucrar muitíssimo com a obra deles, ou o direito de crianças, jovens e adultos brasileiros de conhecerem esses importantes escritores? Não significa que uma coisa é mais importante que a outra, mas é preciso encontrar um equilíbrio. No livro REA, por exemplo, todos os autores foram remunerados. Com o dinheiro que conseguimos por meio de um edital, pagamos a edição, a impressão e os autores. Mas acreditamos que os autores não precisam ficar a vida inteira ganhando com o que escreveram, restringindo acesso de outras pessoas. Por essa razão, publicamos todos os textos na internet sob licença Creative Commons.


Os professores se sentem intimidados com tecnologia, o que seria uma barreira à entrada de REA em sala de aula?
Bianca – O discurso de que o professor tem medo é mito. A última pesquisa realizada pelo Comitê Gestor de Internet no Brasil (CGI.br), divulgada em junho, mostra que mais de 70% dos docentes acessam a internet todos os dias. O estudo revelou que eles aprendem tecnologia com outros professores, seus pares, e não fazendo curso. E eles não se sentem ameaçados pelos alunos. Pelo contrário, acham que isso pode levar a construção coletiva. Uma vez um professor me disse que muitos colegas, como ele, tinham medo de tecnologia. A minha primeira reação é de defesa desse professor. É preciso entender sua realidade. Como alguém que dá aula da manhã à noite, com família para cuidar e prova para corrigir, vai ter tempo de incorporar tecnologia? A solução é criar condição de trabalho para que haja essa interação. O que falta é política pública.


Como anda a produção de REA no Brasil?
Bianca – Hoje, infelizmente, os editais de compra de material didático não privilegiam REA. Os poucos que já existiram produziram coisas interessantes para o Portal do Professor, do Ministério da Educação, por exemplo. Mas no último Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) há pedido de material digital, mas não há menção a licença, nem a formatos abertos. Então, vai ter um monte de aula em Flash que depois de um ano a editora vai tirar do ar, o que é um desperdício de oportunidade. Vai-se gastar recursos públicos com uma produção de material sem exigências inovadoras. Faltam regras claras para estimular a produção de REA, que hoje são produzidos por muita gente em centros e grupos de pesquisa, por professores da rede pública e privada, alunos, ONGs, comunidades. Mas precisa crescer muito mais.


Onde é possível encontrar essa produção?
Bianca – Não existe um local que centralize a produção do país. O Portal do Professor tinha a pretensão de reunir recursos digitais, mas falta uma política clara sobre autoria. Lá dentro tem muito copyright, o que gera insegurança nos professores sobre o uso de materiais educacionais. Quando perguntam onde colocar as aulas com REA, costumo falar para reunir em um blog. Dá para encontrar material aberto usando um buscador. Quando se usa licença Creative Commons, a máquina gera um código específico que só os mecanismos de busca vão reconhecer. Ao colocar o HTML desse trabalho no site ou blog, ele será localizado. Um dos caminhos é entrar na pesquisa avançada do Google e selecionar no campo “direitos de uso” o item “sem restrição de uso ou compartilhamento”. Tudo o que vier dessa pesquisa poderá ser utilizado sem o limite de copyright.


Quais os tipos de aplicação de REA e para quais níveis de ensino podem ser aplicados?
Bianca – Um material REA pode ter uso sem nenhuma modificação, como por exemplo, um joguinho educativo para a criança apenas brincar. Há também a possibilidade de distribuição, ou seja, encaminhar um artigo para alguém sem as restrições de copyright. Existem também usos e aplicações de REA mais complexos: pegar um vídeo para remixar, adequar algum material, modificar, enfim, fazer o que se desejar.


Os REA cabem fora da sala de aula tradicional?
Bianca – Para quem está fora da escola, os REA se tornam excelentes oportunidades de aprendizado. O PNLD só dá livro para pessoas matriculadas em uma instituição de ensino. Mas se a obra está aberta na internet, a dona fulana que fica em casa cozinhando, cuidando de filho e não tem acesso ao ensino formal, pode se apropriar de uma ferramenta para aprender. Pode ser que ela não se interesse, mas existe a possibilidade.


Quais são os projetos REA bem-sucedidos no país?
Bianca – Existia o Projeto Folhas, que tinha um grande diferencial: o professor se candidatava para participar. Ao ser selecionado, recebia licença remunerada e ponto na carreira para pesquisar sobre REA com apoio de especialistas. No final, publicava o estudo em livro que também ficava disponível online. O livro chegava à escola com o nome do professor na capa. Há também a plataforma de educação superior e acadêmica Scielo, que publica a produção científica com licença Creative Commons, o que expande enormemente a possibilidade de pesquisa. Agora tem o Scielo Books, onde as editoras universitárias estão colocando livros acadêmicos. Existem iniciativas de organizações educacionais não-governamentais, como o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), Ação Educativa, Instituto Paulo Freire, Coletivo Digital, entre outros. Há ainda trabalhos realizados em escolas privadas, como Porto Seguro e Dante Alighieri.


O que existe de iniciativas públicas?
Bianca – O Ministério da Educação (MEC) já fez editais específicos pequenos, pontuais, que não se repetiram. O Programa Nacional Livro Didático, que realiza uma das maiores compras de livros didáticos do mundo, não tem nada de REA porque está voltado às editoras. Espero que o MEC acorde para essa questão. Depois de abrir diálogo com o ex-ministro Fernando Haddad, que não evoluiu, a diretora de formulação de conteúdos educacionais da Secretaria de Educação Básica do MEC, Monica Gardelli Franco, sinalizou uma nova aproximação. Vamos ver se desta vez acontece alguma coisa em favor dos REA. No setor público, além do Folhas, programa pioneiro que existiu entre 2003 e 2010 e foi realizado pela Secretaria Estadual de Educação do Paraná, tem o projeto Educopédia, promovido pela Secretaria Municipal de Educação do Rio, com produção de materiais abertos para adaptar, compartilhar e remixar. Há ainda a experiência do município de São Paulo, que adotou políticas de REA. Desde 2011, todo material didático produzido pela Secretaria Municipal de Educação é registrado sob licenças flexíveis e está disponível online. Prefeituras menores, sem verba para produzir material do zero, têm usado o material da capital paulista, incentivando seus professores a alterar a produção e adaptá-la para a realidade local.


Há vários fóruns sobre os REA. Não seria outro sinal de que essa nova proposta está se fortalecendo?
Bianca – Sim, esses eventos mostram que o tema está sendo apropriado por muita gente e disseminado. Em julho, foi realizado em Paris o Congresso Mundial da Unesco sobre Recursos Educacionais Abertos, o qual contou com a presença de uma delegação brasileira. A Unesco tem se colocado como um ator relevante dessa temática no mundo.


Como andam os projetos de lei no Brasil voltados para os REA?
Bianca – Tanto o projeto de lei estadual, elaborado pelo deputado Simão Pedro (PT-SP), como o federal, do deputado Paulo Teixeira (PT-SP), estão tramitando no plenário. Os textos já receberam parecer favorável da Comissão de Educação e Cultura. O objetivo de ambos é institucionalizar os REA como política pública, regulamentar essa proposta educacional, ampliar o acesso aos materiais didáticos e otimizar os recursos públicos a partir do incentivo à produção de REA.

REA foi tema de encontro para acadêmicos da UniBrasil

As Faculdades Integradas do Brasil e o Instituto Educadigital-Projeto REA realizaram, de 24 a 26 de setembro, a Semana de Estudos Interdisciplinares sobre Recursos Educacionais Abertos. O evento, voltado para os acadêmicos dos cursos de Educação Física, Pedagogia e Sistemas de Informação, trouxe para a palestra de abertura o Deputado Ângelo Vanhoni, que falou sobre “A discussão política sobre REA”, e uma das  coordenadoras do Projeto REA Brasil, Débora Sebriam (IED), que abordou o tema “REA: conceito, uso, criação e compartilhamento”.

Débora Sebriam, do IED/REA Brasil abriu o evento dando uma palestra introdutória sobre o assunto, discutindo sobre o conceito e a importância de REA, domínio público, licenças e formatos abertos, direitos autorais, repositórios do MEC, professor como autor de conteúdo e a necessidade do acesso a uma educação de qualidade por todas as pessoas e também com a participação das pessoas.

O Deputado Ângelo Vanhoni contou um pouco sobre o encontro relacionado aos recursos educacionais abertos, que aconteceu na sede da UNESCO, em Paris, com a participação de representantes de diversos países. Segundo ele, a experiência já está se consolidando na Inglaterra, na Califórnia e em outros estados americanos. “No Brasil tramitam projetos na Câmara dos Deputados a fim de garantir que as compras realizadas pelo estado brasileiro tenham conteúdos que estejam disponibilizados em rede livre, oportunizando a todos utilizar e contribuir para a produção desses conteúdos a fim de desenvolver a educação em todo território nacional”.

“A proposta estabelece que os recursos educacionais comprados pelo estado para serem utilizados em sala de aula possam ser também disponibilizados na internet de forma livre para todos que queiram acessar estes conteúdos, trabalhar com eles, recombiná-los ou desenvolver outros a partir deles”.

Vanhoni lembra também que o PL REA, “…é um projeto que certamente vai gerar muito debate. São interesses de diversas ordens que incidem sobre esta questão e há uma forte pressão do mercado. Para vocês terem uma ideia, o governo brasileiro é um dos maiores compradores de livros do mundo”.

Experiências Nacionais de REA

A 2ª noite de evento foi marcada por políticas públicas em tecnologia educacional no Paraná na apresentação da profa. Cineiva Paulino e algumas experiências de REA no Brasil com Mary Lane Hutner, professora da UniBrasil, que falou do projeto Folhas e Livro Didático Público, um projeto de Política Educacional implementada no estado do Paraná (2003-2010) com o objetivo de disponibilizar Recursos Educacionais Abertos.

O projeto Folhas é basicamente um processo de formação continuada dos professores, por meio da produção colaborativa de textos de conteúdos pedagógicos,  que  constituíram material didático para os  alunos e apoio ao trabalho docente. Devido a uma demanda da época (a compra de livros didáticos para o ensino médio), do Projeto Folhas acabou nascendo a ideia do Livro Didático Público que é composto basicamente de:

  • Texto de apresentação para cada conteúdo estruturante
  • Os Folhas partem de um problema e são  escritos com base em referência bibliográfica específica da disciplina, numa linguagem que busca contextualizar o conteúdo e fazer relações interdisciplinares.
  • Atividades de pesquisa e debates

Na 1ª noite do evento, Jairo Marçal, diretor acadêmico da Unibrasil e um dos responsáveis pelo Livro Didático Público do Paraná, endossou a fala do deputado Vanhoni e falou da importância de políticas públicas que valorizem o professor e que empreguem melhor os impostos pagos pela sociedade:

“…o mercado do livro didático é extremamente poderoso. Hoje um livro didático deve custar em torno de 60 reais. Nós conseguimos produzir, envolvendo professores da rede num esquema de pesquisa com apoio da universidade e provar que o professor era capaz de produzir textos de qualidade e material impresso com a mesma qualidade gráfica das grandes editoras e a um custo muito reduzido. Nós conseguimos produzir e entregar ao aluno gratuitamente e o custo para o estado foi 2 reais por livro. Estou falando de livros de 300 a 400 páginas com impressão colorida! Foi um choque tão grande e quem acompanhou sabe que a mídia se mobilizou muito naquela época para nos criticar. Pena que isso não se transformou numa política pública de estado. Ou seja, essa iniciativa demonstrou que apesar das forças contrárias é possível a sociedade se mobilizar e fazer enfrentamentos interessantes contra as imposições do mercado”.

Débora Sebriam, apresentou alguns projetos REA no Brasil, como o Portal do Professor, Domínio Público, Educopédia, Centro de Referência Paulo Freire, Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, Biografia colaborativa da Lea Fagundes e seus detalhamentos quanto a formato e licenciamento, além de publicação de material pelos professores em alguns desses espaços.

Talita Moretto, coordenadora de Programa Jornal e Educação (Projeto Vamos Ler/Jornal da Manhã) e professora de Mídias Digitais, trouxe sua experiência com recursos educacionais abertos, tecnologias digitais e uso de mídia na educação.  Para Talita, saber como utilizar os conteúdos é imprescindível antes de começar a publicar. É importante abordar a legalidade quanto ao que fazemos dentro dessas mídias. Ainda é pouco falado e considerado o direito digital e as pessoas se confundem sobre o que é “compartilhar”e o que é “se apropriar” de conteúdo de terceiros. Então, ao explicar sobre as leis que fiscalizam o mundo virtual falei sobre o Creative Commons e, consequentemente, sobre o REA. Nenhum aluno conhecia. Mostrei como funcionava o CC e, inclusive, levei materiais licenciados para eles perceberem que realmente existe.  O REA é o caminho para melhorar a educação de todos quanto à ética de uso e o bom senso, além de saber que é um material de qualidade diante de tantas coisas que encontramos sem curadoria na rede.

O evento terminou na noite do dia 26, com Awdrey Miquelin (UTFPR), falando sobre o papel do conhecimento tecnológico e a prática educacional em sala de aula e Antônio C. C. Marques (SEED-PR), que falou sobre Educação, tecnologia e software livre.

Leia mais sobre o evento em UniBrasil, REA Brasil e no site do Deputado Angelo Vanhoni.

UniBrasil, Instituto Educadigital e Projeto REA promovem seminário em Curitiba

Acontece entre 24 e 26/09 em Curitiba, no campus da UniBrasil, a Semana de Estudos Interdisciplinares sobre Recursos Educacionais Abertos. O evento é uma parceria entre a UniBrasil e o Instituto Educadigital, organizado pelo Projeto REA, Curso de Pedagogia, Licenciatura em Educação Física e Sistemas de Informação da UniBrasil e ocorrerá no Auditório do Bloco 6. São esperados mais de 400 graduandos das licenciaturas da instituição! Pessoas de fora da instituição também poderão participar via inscrição prévia.

Veja como ficou a programação do evento:

24/09/2012 das 19h00 às 22h00

19h às 19h30 – Abertura Institucional

Direção e Coordenação da UniBrasil

19h30 às 20h30 – Débora Sebriam (Projeto REA Brasil)

REA: conceito, uso, criação e compartilhamento

20h30 às 20h50 – Intervalo

20h50 às 21h30 – Deputado Angelo Vanhoni

A discussão política sobre REA

21h30 às 22h00 – Lançamento do livro Recursos Educacionais Abertos: práticas colaborativas e políticas públicas (algumas unidades impressas  estarão a venda)

25/09/2012 das 19h00 às 22h00

19h às 20h – Cineiva Paulino (UniBrasil)

Casos de ferramentas e recursos para formação de professores

20h às 22h – Experiências Nacionais de REA

Débora Sebriam – Projeto REA Brasil/Instituto Educadigital
Projetos REA no Brasil

Mary Lane Hunter – UniBrasil
Projeto Folhas e Livro Didático Público

Talita Moretto – Coordenadora do Programa Jornal e Educação e professora de Mídias Digitais   REA no ensino superior

26/09/2012 das 19h00 às 22h00

19h às 20h30 – Awdrey Miquelin (UTFPR)

O papel do conhecimento tecnológico e a prática educacional em sala de aula

20h50 às 22h30 – Antônio C. C. Marques (SEED-PR)

Educação, tecnologia e software livre

Educação Aberta e REA são foco da série “Gerações Digitais” do Instituto Claro

O Instituto Claro lançou a segunda reportagem da série “Gerações Digitais”,cujo tema, tratou de Educação Aberta e Recursos Educacionais Abertos. Débora Sebriam, coordenadora de projetos do IED foi uma das entrevistadas.


A série Gerações Digitais vai ao ar a cada duas semanas e pretende registrar a trajetória das tecnologias digitais na educação nas últimas décadas, a partir de cinco temas-chave: Jogos (já publicada), Educação Aberta, Ativismo Digital, TICs na sala de aula e Mobile-Learning. Acompanhe e participe das discussões!

As tecnologias digitais vêm promovendo grandes mudanças na forma como as pessoas se informam e aprendem. No entanto, muitas destas mudanças não estão claras para professores e profissionais da área, que ainda apresentam dificuldades na hora de formular práticas pedagógicas para uma geração de alunos mais conectada e interativa.

Uma das novas práticas educacionais surgidas na última década é o conceito de Educação Aberta, que, para os mais radicais, se relaciona com a possibilidade de uma educação além da formal, que não depende do espaço escolar. Ou até com a substituição da escola tal como está constituída hoje, como provoca Nelson Pretto, doutor em educação e tecnologia e professor da UFBA. “Se pensarmos no formato tradicional das escolas, que só transmitem educação, as tecnologias digitais são mais efetivas”, afirma. No entanto, ele alerta: “Educação, porém, não é isso, não é transmissão de informação”.

Para Pretto, que possui um histórico de atuação com tecnologias na educação anterior à web 2.0-, as novas gerações se manifestam e produzem conhecimentos de maneira diferente. Atuando neste cenário há menos de dez anos, a educadora especializada em tecnologias digitais Débora Sebriam também acredita que uma grande transformação recente é o fato de que as pessoas passaram a produzir mais conteúdos e conhecimentos de forma colaborativa.

“A escola precisa se modificar. O esforço que tem que ser feito agora é o de transformá-la em um ecossistema pedagógico de produção de cultura e conhecimento. Para isso, é preciso uma mudança de currículo”, afirma Pretto. 


Experiências colaborativas e abertas

Uma das formas de trabalhar o espírito colaborativo da cultura digital em sala de aula, tanto no que diz respeito aos recursos quanto à metodologia de utilização, é através dos Recursos Educacionais Abertos. Ou seja, fazendo uso de ferramentas que estão em domínio público ou licenciadas de maneira aberta e que podem ser utilizadas e/ou remixadas por terceiros. Confira mais detalhes sobre os REAs na apresentação abaixo, elaborada por Débora Sebriam e Priscila Gonsales para o Seminário Recursos Educacionais Abertos, que aconteceu em Porto Alegre no dia 12 de setembro, por iniciativa do Projeto REA Brasil, Instituto Educadigital e Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

Débora Sebriam lembra que este movimento chegou no Brasil em 2008. Hoje, já existe uma comunidade que se organiza a partir do portal do REA e apoia projetos de disponibilização e produção de recursos abertos.

No entanto, os recursos educacionais abertos não fazem a diferença sozinhos. Para Tel Amiel, pesquisador do Nied/Unicamp e coordenador do grupo de trabalho Educação Aberta, o que importa são as práticas que podem ser modificadas em sala de aula e para além dela, através da discussão de questões como remixagem e propriedade intelectual, por exemplo. “Os REAs são uma maneira de o professor e o aluno pensar questões que a Cultura Digital impõe”, afirma.

Segundo Débora, as novas gerações já começam a ter mais autonomia para a busca e produção de conhecimento a partir da internet, apesar da “colagem” ser uma alternativa antiga. “O copiar e colar é uma prática anterior ao mundo online. As pessoas copiavam coisas da Enciclopédia Barça, por exemplo. A questão é: com vários trabalhos copiados e colados, sem citações de fonte, o professor precisa propor releituras e reflexões. O que se impõe é uma questão metodológica”, afirma.


Desafios para os próximos anos

Construir uma escola que explore melhor o conceito de colaboração é um desafio que esbarra em alguns obstáculos. Nelson Pretto aponta que os professores precisam receber formação para atuar de forma mais efetiva com as novas tecnologias. “Formação não são somente cursos. É plano de carreira, é infraestrutura nas escolas, constante atualização e valorização da prática docente”, afirma.

Pouco a pouco, os REAs começam a aparecer como foco de políticas públicas. Débora lembra que, em São Paulo, os materiais educacionais municipais já são todos REA, a partir da aprovação do Decreto Municipal nº 52.681, de 26 de setembro de 2011. Além disso, há projetos de lei para ampliar o alcance dos REAs tramitando no Senado e no Estado de São Paulo. Detalhes sobre o projeto vão ser discutidos no VI Congresso de Direito de Autor e Interesse Público, que acontecerá no dia 9 de outubro, em Curitiba. “É importante transformar esta adoção em lei, para evitar retrocessos com troca de governos, por exemplo”, afirma a educadora.

A materialização dos REAs nas escolas brasileiras ainda depende de investimentos, mas será um caminho sem volta, na opinião de Débora. “Esta discussão só vai ganhar força nos próximos anos, principalmente porque envolve dinheiro público. Se é a sociedade que está financiando os materiais, eles devem poder voltar para a sociedade depois”, finaliza.

Para acessar o podcast publicado e apresentação elaborada por Débora Sebriam e Priscila Gonsales, acesse: Instituto Claro

Especialistas falam sobre Recursos Educacionais Abertos

Gabinete Digital do Governador, publicou um vídeo com depoimentos de especialistas participantes do Seminário Recursos Educacionais Abertos (REA), realizado em Porto Alegre (12/09) e que debateu conceito e potencialidades de REA, assim como, apresentou projetos inovadores em educação.



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