Entrevista – Raquel Franzim

Este é o 9º post da série de mini-entrevistas com especialistas e
estudantes convidados que vão apresentar seu ponto de vista para perguntas-chave sobre educar em cidadania digital, tema do nosso novo projeto, a plataforma colaborativa Pilares do Futuro

Educadora, com experiência em ensino público, educação para bebês e crianças pequenas e formação de docentes e gestores. Desde 2015 atua no Instituto Alana, onde atualmente coordena a área de educação. É uma das organizadoras das publicações ‘Protagonismo – a potência de ação da comunidade escolar’, ‘O ser e o agir transformador – para mudar a conversa sobre educação’ e ‘Criatividade – mudar a educação, transformar o mundo’. Assina o argumento da série produzida pela Maria Farinha Filmes ‘Corações e mentes, escolas que transformam’. É professora da Pós-Graduação ‘A vez e a voz das crianças: escutas antropológicas e poéticas das infâncias’ na Casa Tombada.

Como você definiria a importância de educar para a cidadania digital atualmente?
Aprender a participar de forma cidadã dentro e fora da internet é imprescindível para lidar com os desafios do século XXI. A educação para a cidadania se estende ao ambiente digital. Não faz mais sentido separarmos o exercício da cidadania de espaços conectados ou não conectados, da vida off-line. Vimos com a pandemia da Covid-19 o quanto o exercício dos direitos civis foram mediados por ferramentas de informação e comunicação e quanto é excludente a falta de acesso à internet e a falta de habilidades necessárias para transitar no mundo digital de forma segura, ética e responsável.
Uma educação pública de qualidade para todos tem que educar estudantes para viver e usufruir das oportunidades do seu tempo. E o tempo atual é marcado pelas tecnologias digitais. Então, a tecnologia e o como usá-la de forma significativa e positiva precisa ser incorporada às práticas pedagógicas da escola. Precisamos conectar a escola de forma qualificada à cultura digital que permeia a vida dos estudantes e professores para construir realmente uma educação com equidade e contemporânea à vida das crianças, jovens e todos os estudantes.

Quais os temas você considera prioritários de serem trabalhados pela escola?
As ameaças no ambiente digital são muitas assim como aquelas dos diferente espaços sociais que transitamos.
É comum o ensino relacionado à cidadania digital  a partir de uma abordagem nos danos que crianças e adolescentes possam sofrer na experiência de navegar pela internet de forma descuidada ou sem orientação.
No entanto, questões específicas de exposição à violências no mundo online refletem os problemas sociais que precisam ser tratados também no mundo offline. E o importante é que os professores convidem os estudantes a refletirem criticamente sobre esses problemas a partir de suas próprias visões e experiências, sendo protagonistas tanto na sua leitura quanto na sua resolução.
Um bom caminho para prevenir situações de violência e promover uma relação ética tanto com o mundo analógico quanto digital não se dá com apenas uma ação. Precisa ser um conjunto articulado e intencional, em toda a educação básica que envolve desde a capacidade de ler o mundo de forma crítica, de desenvolver autoconhecimento e autocuidado até o de aprender a identificar situações de vulnerabilidade, de fazer boas escolhas, de gerenciar as situações de risco de forma ética para evitar o dano. Também quando pensamos no desenvolvimento socioemocional dos estudantes o ambiente digital é repleto de oportunidades de aprendizagem sobre reconhecer necessidade de si e do outro, ter empatia, relacionamento social baseado no respeito incondicional, liberdade, autonomia, colaboração, acolhimento e valorização da diversidade. Ou seja, estamos falando de uma educação em uma perspectiva de direitos humanos mediadas pelas tecnologias.

 

Gostaria de recomendar algum material ou publicação de orientação que pode inspirar a elaboração de boas práticas?
Recentemente, o Instituto Alana produziu uma série de conversas online sobre Ser criança no mundo digital com o apoio do Nic.br, Safernet Brasil e Portal Lunetas. Duas das conversas trazem a educação, a participação e a cidadania digital para o centro do debate. Vale conferir.

 
 
Conhece alguma boa prática em cidadania digital que poderia relatar brevemente?
Vou aqui dar um exemplo que elucida o protagonismo dos estudantes na utilização de plataformas digitais como forma de expressão, promoção de causas e projetos de impacto social. Estudantes dos 7º e 8º anos do Ensino Fundamental do Colégio Municipal Professora Didi Andrade, em Itabira (MG), não se sentiam ouvidos ou atendidos em suas necessidades e angústias para expressar suas opiniões e denunciar com segurança práticas de violências e preconceitos, tanto dentro como fora das salas de aula.  
Para dar visibilidade para temas como racismo, abuso, violência doméstica e machismo, a turma planejou, com o apoio de professores e da gestão escolar, uma maneira criativa e respeitosa de divulgar essas histórias: promoveram rodas de conversa, construíram histórias a partir dos depoimentos, que foram dados de forma anônima, e interpretaram o roteiro em vídeos compartilhados em um canal de YouTube.
As primeiras sessões foram exibidas apenas no ambiente escolar, durante as aulas, como forma de trazer novas reflexões, incentivar a solidariedade, a empatia e abrir um canal para o diálogo. Depois os vídeos ficaram abertos. Os alunos envolvidos no projeto relatam que tiveram com esse projeto a experiência de sentirem a potência de sua voz porque ao gravar um vídeo para o mundo, estão contribuindo para combater preconceitos e violências que os afetam.
 
 
O que você considera mais desafiante: elaborar uma atividade educativa sobre cidadania digital ou registrar e compartilhar a atividade?  
Os desafios estão nas duas. São complementares, não podemos separar. O registro das práticas educativas é muito importante para criar uma memória das boas práticas e contribuir para sua sustentabilidade e como também para inspirar outros professores e professoras. Nada mais formativo do que um colega contando dos desafios e das possibilidades para outros colegas.

 

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Este é o 8º post da série de mini-entrevistas com especialistas e
estudantes convidados que vão apresentar seu ponto de vista para perguntas-chave sobre educar em cidadania digital, tema do nosso novo projeto, a plataforma colaborativa Pilares do Futuro

Professor do programa de pós-graduação lato sensu e líder de projetos e pesquisador do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV DIREITO SP. Doutor e mestre em Direito Constitucional pela Universidade de São Paulo. Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo. É colaborador da Sociedade Brasileira de Direito Público desde 2011, onde coordenou a Escola de Formação Pública (2017). Foi professor de Filosofia do Direito da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo (2017-2018). Membro do comitê curador da plataforma Pilares do Futuro

Como você definiria a importância de educar para a cidadania digital atualmente?

Há um tempo houve uma moda de programas de sobrevivência. A pessoa era largada em florestas, desertos, ilhas e tinha que sobreviver. Imagine entrar num ambiente que pode ser perigoso, mas sem nenhum preparo, contando só com a sorte de que nada aconteça com você. As tecnologias podem ser isso. Para mim, uma primeira importância da educação para cidadania digital é preparar as pessoas para não serem prejudicadas pela tecnologia, ainda que elas mesmas não a usem.

Mas essas tecnologias não são apenas fonte de riscos. Elas também criam oportunidades e fortalecem laços entre as pessoas. A segunda importância, e talvez a mais relevante, é formar pessoas capazes de desenvolver-se e exercer a sua cidadania nos ambientes digitais e por meio de instrumentos digitais. E cidadania não é somente o conjunto de direitos que nós temos (direito à imagem, direito à saúde, etc.), mas também o conjunto de deveres que temos perante ao próximo e à sociedade. É por isso que não podemos apenas enfatizar o direito à informação de qualidade, mas devemos ressaltar nosso dever de não causar desinformação e pânico.

Quais os temas você considera prioritários de serem trabalhados pela escola?

Tecnologias digitais não são apenas tecnologias de informação e comunicação e não se resumem à internet. Acho essa a primeira ideia fundamental. A escola deve ser capaz de formar as pessoas para entenderem como o “digital” as afeta nas mais variadas esferas da vida, ainda que não diretamente. Por exemplo: o que significa estar numa escola com câmeras de reconhecimento facial? Ainda que não seja Internet, é algo que afeta a dinâmica daquele lugar.

Mas se enfocarmos apenas a Internet, existe uma ideia de “escada de participação online” de crianças e adolescentes. São estatísticas que mostram que, de acordo com a idade, as pessoas fazem mais ou menos atividades específicas nas redes. No Brasil, a pesquisa TIC Kids Online, do Cetic.br, dá uma ideia dessas atividades. Para mim, a formação deveria acompanhar essas informações aplicadas ao contexto social de crianças e adolescentes da escola específica.

Em síntese: 58% de crianças de 9 a 10 anos já baixaram aplicativos na internet. As escolas têm que conscientizá-las desde antes sobre o que significa “baixar um aplicativo” e trabalhar questões como “compras em jogos”, interação com pessoas desconhecidas em jogos e aplicativos, além de questões de saúde que acompanham essas atividades e são relevantes. Apenas para ficar com alguns exemplos.

Gostaria de recomendar algum material ou publicação de orientação que pode inspirar a elaboração de boas práticas?

Tive a oportunidade de liderar um projeto no Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação da FGV Direito SP (CEPI FGV Direito SP), em parceria com o NIC.br, para elaboração de 16 cursos de formação em temas de direitos humanos digitais. São vários temas, que cobrem desde cyberbullying e intimidade, até termos de uso e proteção de dados. O projeto foi coordenado pela Marina Feferbaum e pela Kelli Angelini e os cursos estão disponíveis neste link.

Além disso, fizemos um conjunto de webinars em que muito conteúdo bom foi indicado. A compilação pode ser encontrada em dois textos que fizemos:

O que aprendemos sobre jovens e Internet? (Parte 1) – O que aprendemos sobre jovens e Internet? (Parte 2


Conhece alguma boa prática em cidadania digital que poderia relatar brevemente?

Durante nossas conversas com colégios tivemos a oportunidade de conhecer um grupo de trabalho interinstitucional, composto por membros de equipes de tecnologia de diferentes escolas, que se reuniam para discutir vários temas, casos concretos e outras questões. O nome era TE & TI Partners, tocado pela Grace Kelly, do Colégio Miguel de Cervantes. Eu considero a criação de uma rede de profissionais de diferentes escolas uma iniciativa muito boa para trocas e experiências.

Além disso, eu não poderia deixar de mencionar as atividades realizadas no Dia da Internet Segura, organizado principalmente pela SaferNet Brasil. É um conjunto inspirador de dinâmicas e atividades conduzidas por diferentes atores no mês de fevereiro. Tem vídeos, materiais didáticos, sugestões de dinâmicas. Dá para se ter uma ideia pelo seguinte link


O que você considera mais desafiante: elaborar uma atividade educativa sobre cidadania digital ou registrar e compartilhar a atividade?

Cada uma dessas atividades têm desafios e dinâmicas específicas. Elaborar uma atividade educativa é sempre um desafio, especialmente porque a gente prepara a atividade pensando numa tecnologia (por exemplo, Facebook), apenas para descobrir que os estudantes estão usando outra, com uma linguagem e uma dinâmica completamente diferente (por exemplo, TikTok). Por causa desses choques e da enorme quantidade de situações específicas que podem aparecer na relação com as tecnologias digitais, costumo recomendar que todas as atividades procurem partir do que os estudantes fazem e vivenciam. O papel da professora ou do professor nessa situação é tentar conectar as várias situações, contribuindo para que os estudantes criem uma reflexão crítica sobre a sua posição na Internet e a sua relação com as tecnologias.

Já o registro e o compartilhamento das atividades tem desafios administrativos, de gerenciamento de tempo e organização, e um obstáculo de difusão. Os incentivos para escrever e compartilhar a atividade seguem a probabilidade de que essa atividade seja lida por outras pessoas, certo? Então, é extremamente importante que o compartilhamento das atividades seja acompanhado por uma efetiva divulgação e troca de experiências. Acho que aqui é muito importante a existência de pessoas inovadoras nas escolas, docentes e até mesmo pais que possam levar esses materiais para a comunidade escolar, divulgando e estimulando a adoção.

Acho que aqui está o grande mérito da Pilares do Futuro como plataforma acessível para pessoas de vários lugares do País. Como parte do Comitê Curador, imagino que o meu papel é contribuir para que esses registros estejam claros e fáceis para que outras pessoas possam compreendê-los e aplicá-los. Na verdade, é quase como se a gente estivesse aqui oferecendo sugestões para que os chefes de cozinha (nossos professores autores) detalhassem ao máximo suas receitas para que outras pessoas pudessem tentá-las em casa. Pode dar super certo, mas pode dar super errado também. Mas o importante é que, depois de entender como fazer, fica mais fácil aplicar e aplicar novamente.

 

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Jornada Pilares do Futuro: formação de professores

Seja na formação inicial como na continuada, o tema da cidadania digital na vida pessoal e profissional precisa ser foco da docência 

"A formação do professor mediador em cidadania digital começa muito antes da formação universitária, começa na dimensão pessoal, na relação do próprio docente com as tecnologias digitais."
Monica Fantin
UFSC
"Com tantos materiais de apoio disponíveis sobre temáticas de cidadania digital, por que ainda é tão raro vermos práticas efetivas em sala de aula? Precisamos compreender os diferentes contextos."
Guilherme Klafke
FGV-SP
"Com a interrupção das aulas presenciais em março, o MEC português e a Televisão Pública inauguraram um programa de TV para resolver o problema de crianças acessarem plataformas de mídias sociais, pois a lei de proteção de dados exigia o consentimento formal dos pais."
Tito de Morais
Miúdos Seguros na Net - Portugal
"A formação docente precisa incorporar uma atitude cidadã que vai além de uma aula sobre cidadania digital e essa atitude precisa estar presente no trabalho desenvolvido com os estudantes na escola"
Graça Moreira
PUC-SP

Jornada Pilares do Futuro: alfabetização midiática

Primeira LIVE destacou o tema da alfabetização midiática. Saiba mais e acesse a gravação

"Nosso desejo é fazer com que nós estudantes possamos ser mais protagonistas, produzindo e compartilhando conhecimento, de preferência de forma colaborativa"
Júlia Fernandes
Estudante
"São três os aspectos fundamentais na alfabetização midiática: ética digital, leitura do mundo intermediada pelos veículos de comunicação e a possibilidade de expressão do jovem por meio das mídias"
Alexandre Le Voci Sayad
Jornalista
"A alfabetização midiática é um campo interdisciplinar e transversal ao currículo, pois o que não falta é recursos e assuntos da mídia"
Verônica Cannata
Educadora
"Não é correto dizer que temos que 'dar voz' às pessoas, pois elas já têm, o que precisamos fazer é potencializar essas vozes, oferecendo caminhos e possibilidades, especialmente para quem vem de diferentes realidades"
Jéssica Botelho
Centro Popular do Audiovisual

Pilares do Futuro – Lançamento e Jornada de LIVES



Agende-se! 

Dia 5 de agosto 

Novo ambiente on-line, aberto e gratuito, que visa incentivar a cultura de colaboração entre educadores de todo o Brasil para a implementação de boas práticas educativas sobre cidadania digital 

No dia 5 de agosto às 17h será lançada a Pilares do Futuro, plataforma gratuita e em licença aberta, focada na disseminação de boas práticas educativas sobre cidadania digital. O nome “Pilares do Futuro” foi inspirado no documento Educação – Um Tesouro a Descobrir, lançado pela UNESCO no final dos anos 90 mas que até hoje permanece pertinente e atual ao enfatizar a importância dos 4 pilares:  aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver, aprender a ser.

A LIVE de lançamento vai contar com a presença de Rebeca Otero, da UNESCO Representação Brasil, e Kelli Angelini, do NIC.br, além da equipe idealizadora do projeto. Na ocasião, também terá início a chamada pública para receber propostas ou relatos de práticas.

Durante o período da chamada pública, alguns dos principais temas serão debatidos na Jornada Pilares do Futuro, com LIVES quinzenais no canal do Youtube do Educadigital. Segue a programação:

19 de agosto – Alfabetização Midiática
Participantes
Alexandre Le Voci Sayad – diretor-geral do GAPMIL (aliança internacional da UNESCO para parcerias em Alfabetização Midiática)
Verônica Cannata – coordenadora de tecnologia no Colégio Dante Alighieri
Julia Fernandes – estudante do Imprensa Jovem SME-SP
Jessica Botelho – Centro Popular do Audiovisual

Moderação:
Débora Sebriam
Veja aqui o card de divulgação 

02 de setembro – Formação de professores
Participantes:
Graça Moreira – PUC-SP 
Guilherme Klafke – Centro de Pesquisa e Inovação da FGV Direito SP
Mônica Fantin – Centro de Educação UFSC 
Tito de Morais – Miúdos Seguros na Net (Portugal)

Moderação: 
Rosa Lamana
Veja aqui o card de divulgação

16 de setembro – Proteção de dados pessoais
Participantes:
Marina Meira – advogada Criança e Consumo do Instituto Alana
Flávia Lefévre Guimarães – Intervozes 
Alex Meusburger – educador 
João Ras – educador

Moderação: 

Karolyne Utomi
Veja aqui o card de divulgação

30 de setembro -Diversidade
Participantes
Eliane Leite – diretora da ETEC-Pirituba, líder dos Comitês de Educação e de Diversidade Racial do Grupo Mulheres do Brasil 
Thiago Teixeira Sabatine – professor da rede estadual de ensino e pesquisador do NUMAS/USP
Marina Pita – Intervozes 
Francisco Moreira Alves (Kuaray) – educador indígena


Moderação:
 
Daniel Pinheiro 
Veja aqui o card de divulgação

Se você quiser receber certificado de participação, faça sua inscrição: 


Em breve, mais informações sobre convidados e horários.
Confira o vídeo-animação que apresenta a ideia da plataforma:.

Curso: facilitação de aprendizagem remota

Educadigital lança curso novo, especialmente criado para o contexto atual, em que educadores se deparam com a demanda por uma nova habilidade 

Assim que as escolas foram fechadas como medida de contenção do avanço da COVID-19, nossa diretora, Priscila Gonsales, fez um post no intuito de chamar a atenção para a importância da colaboração, algo sempre relevante entre educaodores, mais ainda em tempos emergenciais.

Nesses últimos dois meses, no entanto, o que se viu com mais frequência foi a corrida por  plataformas e ferramentas digitais para aulas remotas, com pouca ou quase nenhuma preocupação em relação à proteção de dados dos estudantes. O projeto Educação Vigiada enfatiza bem esse aspecto.

Para Priscila Gonsales, escolher a plataforma ou ferramenta não deve ser a primeira ação a fazer, mas sim considerar as pessoas envolvidas no processo. “Facilitar a aprendizagem é o que o bom professor faz desde sempre, o ponto agora é refletir e prototipar possibilidades de facilitação remota, com muita empatia em relação aos estudantes e a si mesmo”, ressalta.

Promover a cultura da colaboração é a melhor maneira de lidar com as incertezas que esse contexto traz, pois não existem respostas prontas.  Além disso, o papel de facilitar a aprendizagem de maneira remota surge como uma nova habilidade.

Pensando em apoiar nossos alunos da turma 10 do curso-laboratório on-line de formação de facilitadores em Design Thinking para Educadores, criamos um novo curso.

Agendado para iniciar no dia 19 de maio, o curso será no formato de 4 encontros em tempo real e  poderá receber também outros interessados, mesmo que não estejam matriculados no curso-laboratório.  As inscrições estão abertas e as vagas são limitadas. Saiba mais aqui

No dia 15 de maio, sexta-feira, 18h, faremos uma LIVE no Instagram do Educadigital para contar um pouco mais sobre o curso e esclarecer dúvidas

 

Entrevista – Kelli Angelini

Este é o 7º post da série de mini-entrevistas com especialistas e
estudantes convidados que vão apresentar seu ponto de vista para 5 perguntas-chave sobre educar em cidadania digital, tema do nosso novo projeto, a plataforma colaborativa Pilares do Futuro

Advogada atuante na área de Direito Digital. Mestre em Direito Civil
pela PUC/SP. Gerente do jurídico do NIC.br e do CGI.br desde 2002.
Autora dos Guias Internet com Responsa – cuidados e responsabilidades no uso da Internet para pais, educadores e adolescentes. Palestrante e
professora convidada nos cursos de pós-graduação de direito
eletrônico da Escola Paulista de Direito e Insper. Membro do comitê curador da futura plataforma Pilares do Futuro

Como você definiria a importância de educar para a cidadania digital atualmente?

Atualmente a educação relacionada à cidadania digital não só é importante, mas essencial. A cada dia mais a sociedade como um todo, independentemente da faixa etária que se encontra, está mais conectada, ainda mais agora diante da pandemia.

Em pesquisa realizada pelo CETIC.br em 2018, foi apontado que 86% das crianças e adolescentes são usuários da Internet. Portanto, lecionar sobre a cidadania digital é tão importante quanto lecionar sobre as demais matérias presentes na BNCC, como matemática, geografia, história, entre outras.

Falar sobre cidadania digital envolve muito mais do que ter habilidades sobre ferramentas tecnológicas, envolve ensinar para o uso da tecnologia de forma responsável, consciente e crítica e, por isso, precisamos deixar de, ingenuamente, acreditar que crianças e adolescentes já nascem totalmente aptos e habilidosos tecnologicamente. Todos nós precisamos praticar a cidadania digital e quanto mais cedo crianças e adolescentes estiverem envolvidos neste assunto, melhor.

Sabemos, e agora mais do que nunca, que as tecnologias são excelentes aliadas para as atividades  do nosso dia a dia em todos os aspectos. Mas se fizermos uso da Internet sem responsabilidade, o que é ótimo pode se tornar um problema, como por exemplo com situações de cyberbullying, exposição excessiva, fraudes online, violação de direito de imagem, violação de direitos autorais, fakenews,  ofensas e xingamentos online, dentre outros.

Além de ser necessário para todos saberem os deveres a serem cumpridos no ambiente digital, também temos a necessidade de que todos saibam os seus direitos neste ambiente, e principalmente desmitificar que a Internet é uma terra sem leis.

Em tempos de coronavírus, essa urgência aumenta, pois se antes estávamos conectados, hoje estamos muitas vezes mais.

 

Quais os temas você considera prioritários de serem trabalhados pela escola?

Acredito que todos os temas que envolvem cidadania digital tenham sua devida importância, sendo que o conjunto deles forma um cidadão benemérito e ético.

Contudo se for para apontar por onde começar, ressalto a importância de haver o conhecimento sobre direitos constitucionais básicos que muito se aplicam no uso da Internet, como boas ações online, uso adequado da imagem de terceiros em fotos e vídeos, compartilhamento responsável de fotos, vídeos e textos, liberdade de expressão e privacidade na Internet, consequências advindas de ofensas, xingamentos, cyberbullying, constrangimentos, entre outros. Assim como, abordar valores morais e éticos, como respeito ao próximo, empatia, solidariedade, tolerância nas ações no uso da Internet é fundamental.

A importância de cada tema presente no conceito de cidadania digital é percebida na medida em que vemos, frequentemente, jovens sendo punidos por infrações na Internet, como pelo envio ou uso desautorizado de fotos e vídeos, pela prática de xingamentos e ofensas online, fraudes, ameaças, criação de perfis falsos para humilhar e ofender pessoas, etc.

 

Conhece alguma boa prática em cidadania digital que poderia relatar brevemente?

Existem iniciativas muito úteis que podem apoiar escolas e pais a transmitir informações sobre cidadania digital a crianças e adolescentes, cito aqui uma que estou envolvida diretamente, que faz parte do projeto do NIC.br, Internet com Responsa. São mini-livros gratuitos para públicos diferentes, crianças, adolescentes, pais de crianças e adolescentes, idosos, professores, entre outros, estimulando o uso consciente e responsável da Internet e advertindo sobre as consequências de praticar atos irregulares na Internet. Também organizamos periodicamente o Curso de Capacitação para multiplicadores, presencial e totalmente gratuito, tem como público alvo, educadores de instituições públicas e privadas, para que se capacitem a ensinar sobre educação e cidadania digital aos seus alunos. Abordamos diversos temas como: direitos humanos, cyberbullying, direitos e responsabilidades na Internet, valores morais e éticos, nudes, fakenews, entre muitos outros.

 

Como o profissional da educação pode buscar formação e informações sobre temas de cidadania digital?

O Curso de Capacitação que citei anteriormente é uma ótima opção, por isso indico que todos acompanhem as novas turmas. Ademais também existem diversos cursos e materiais, inclusive também gratuitos, disponíveis na internet. O importante é o profissional ficar atento a qual instituição está oferecendo aquelas informações e capacitação, se realmente é uma instituição séria. Essa pesquisa é fundamental. Indico aqui algumas instituições: NIC.br, Safernet, UNICEF, entre outras.

 

De que forma uma plataforma para buscar e compartilhar boas práticas pode apoiar o trabalho docente?

Existem muitas formas de fazer uma colaboração efetiva ao trabalho docente, algumas delas são:

– Colocar em práticas a cidadania digital pela própria plataforma, o que eu quero dizer com isso é, não adianta termos uma excelente ferramenta que não é acessível para deficientes visuais, por exemplo. Ou que privilegia apenas uma classe social. Nem sempre é fácil chegar à perfeição, mas isso deve ser ponderado dentro dos limites que cada plataforma tem.

– Ser intuitiva, pois temos que levar em consideração que nem todos que usarão a ferramenta possuem conhecimento avançado sobre tecnologia;

– Ser aberta a colaborações externas e comentários;

– Manter-se atualizada;

– Ter possibilidades de acesso de forma gratuita;

– Indicar as fontes quando citar dados ou informações e estudos específicos;

-Fazer uma boa divulgação do trabalho realizado pela plataforma para alcançar o maior número de pessoas.

 

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Este é o 6º post da série de mini-entrevistas com especialistas e
estudantes convidados que vão apresentar seu ponto de vista para 5 perguntas-chave sobre educar em cidadania digital, tema do nosso novo projeto, a plataforma colaborativa Pilares do Futuro

Graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual de Campinas. Mestra e doutora em Educação: Currículo (na linha de pesquisa Novas Tecnologias) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (SP). Atualmente é Diretora-Geral Pedagógica do Colégio Dante Alighieri (SP) e também ocupou o cargo de Diretora de Tecnologia na mesma instituição. Editora da Revista de pré-iniciação científica InCiência 

Como você definiria a importância de educar para a cidadania digital atualmente?

Mais do que nunca ganha uma grandeza, temos necessidade urgente dessa educação para a cidadania digital.  Ainda mais em tempos de educação emergencial por conta da COVID-19, em que nos baseamos nos meios digitais,  o educador precisa exercitar essa cidadania e, portanto, todo processo educativo precisa ter esse pilar porque somente assim ela será uma educação completa, já que a cidadania digital comporta também uma relação dialética com a própria cidadania, num âmbito mais conhecido.  A escola tem o dever, a responsabilidade e, ainda bem, o papel de construir junto com a sociedade essa cidadania para que nós tenhamos pessoas cada vez mais empoderadas no sentido de poder atuar no meio em que vivem, na comunidade em que atuam. Não somente ajudando, mas também mudando este mundo para um mundo melhor e mais justo.


Quais os temas que você considera prioritários de serem trabalhados pela escola?

Dentro desse contexto da cidadania digital eu acho que primeiramente o respeito, a empatia e a gentileza são conceitos muito aplicados para a cidadania digital e para além dela, para o mundo não digital. Tais conceitos vêm embasados num cenário de educação sócioemocional e acho que com isso a gente consegue criar os vínculos e o ambiente necessário para  uma aprendizagem ainda mais ampliada  e significativa.

Obviamente, todas as questões de cybersecurity são importantes. Particularmente, destaco o combate a fakenews e desinformação, fundamental especialmente para o momento que nós estamos vivendo.


Conhece alguma boa prática sobre cidadania digital que poderia relatar brevemente?

Não poderia não mencionar o trabalho do Dante, que é liderado pela Verônica Cannatá, coordenadora  de Tecnologia Educacional. Temos feito um trabalho muito raiz mesmo, um trabalho que envolve toda a escola, que chama a responsabilidade de todos os sujeitos. Temos o que chamamos de “Jornada de Cidadania Digital“, que acontece em setembro e é um trabalho que nos enche de orgulho, pois vai de ponta a ponta, da educação infantil até o ensino médio, envolvendo os funcionários, os professores, pais, enfim eu acho que é um trabalho que merece destaque.


Como o profissional da educação deve buscar formação e informações sobre tema da cidadania digital?

Considero o NIC.br como um grande centro difusor de boas ideias e boas práticas e eu acho que você mesmo, Priscila, via Educadigital, tem contribuído muito para a gente poder ter informações curadas e de alto nível.  É sempre importante buscar pessoas e instituições que tenham uma trajetória consolidada nos meios digitais e estabelecer um diálogo com essas instituições e pessoas, formando uma grande rede de colaboração que no fundo é uma grande rede de apoio também.


De que forma uma plataforma para compartilhar boas práticas pode apoiar o trabalho do docente?

O primeiro item a ser observado é a qualidade dessas informações para que o docente possa  sentir confiança e sentir que ele está realmente minerando dados num lugar que é confiável, que vai produzir possibilidades de construção de conhecimentos bastante assertivos neste cenário. Volto a dizer, que você, Débora Sebriam e agora com a Rosa Lamana têm feito um trabalho muito importante desde os recursos educacionais abertos e neste momento mais voltado para a prática de conectar as pessoas e as boas ideias sobre segurança e cidadania digital. Ações como essas são necessárias e indicam que a gente tem um longo caminho ainda pela frente mas temos boas ferramentas para trilhar este caminho juntos.

 


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Mapeamento inédito mostra exposição da educação brasileira à vigilância

 

Educação Vigiada mostra que 65% das universidades públicas e secretarias estaduais de educação estão expostas ao  “capitalismo de vigilância”. O projeto vem chamar a atenção da sociedade para o problema da falta de transparência e regulação nas relações público-privadas em serviços e plataformas tecnológicas, comprometendo direitos dos usuários, como privacidade e a proteção de dados pessoais

Educação Vigiada

Bastou começar a suspensão das aulas pelas instituições de ensino, no esforço coletivo de contribuir com a disseminação do COVID-19, para surgir uma lista imensa de empresas e plataformas de tecnologia ofertando ferramentas diversas para EaD (educação a distância) como forma de evitar prejuízos ao semestre letivo. Entretanto, boa parte delas, inclusive, disponibilizando acesso e serviços ‘gratuitos’ para incentivar o uso.

Só que essa disputa pela atenção de educadores e gestores de instituições de educação no Brasil não é de agora.

Mapeamento realizado por dois núcleos de pesquisa da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pela Iniciativa Educação Aberta (Cátedra UNESCO de EaD sediada na Universidade de Brasília (UnB) e Instituto Educadigital) revela que 65% das universidades públicas e secretarias estaduais estão expostas ao chamado “capitalismo de vigilância”.

Esse termo é utilizado para designar modelos de negócios baseados na ampla extração de dados pessoais por algoritmos e técnicas de inteligência artificial. Esses dados servirão para obter previsões sobre o comportamento dos usuários e com isso ofertar produtos e serviços.

Intitulado Educação Vigiada, o mapeamento tem por objetivo chamar a atenção da sociedade. Isso devido a falta de regulação de parcerias estabelecidas por órgãos públicos de educação com organizações comerciais.

Sendo assim, o que compromete o direito à privacidade e à proteção de dados pessoais dos cidadãos e também de crianças e adolescentes.

LEIA O POST COMPLETO AQUI

LGPD e os impactos na educação

Com a entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados em agosto de 2020, escolas e demais instituições de ensino têm a oportunidade de tornar a educação em direitos digitais uma prática cotidiana

 

Você já parou para pensar porque uma Lei de proteção de dados é importante para um país? Hoje estamos diante de uma sociedade cujos sistemas, informações, serviços e processos são cada vez mais baseados em “dados”. Nesse sentido, torna-se fundamental regular a forma como nós cidadãos — titulares desses dados — vamos controlar o uso.

É importante diferenciar “proteção de dados pessoais” do “direito à privacidade”. Privacidade é algo que não é público, diz respeito à intimidade e à vida privada e está contemplada em diversas legislações brasileiras como a Constituição Federal e o Código Civil. O Marco Civil da Internet, de 2014 e regulamentado em 2016, traz em seu artigo 3º a proteção da privacidade e a proteção de dados, na “forma da lei” — já indicando a necessidade de uma lei exclusiva para o tema.

Quando nos referimos a “dados pessoais” não importa se são públicos ou privados para que possam ser protegidos. Nesse sentido, proteção de dados pessoais se relaciona com o direito à privacidade, mas vai além, pois diz respeito à igualdade, acesso a informação, liberdade de expressão, dentre outras questões. Se pensarmos que tudo o que consumimos de informação nos é direcionado pelos algoritmos de inteligência artificial a partir de nossos dados, é aí que surge aquela sensação de “bolha”, ou seja, de que estamos somente acessando e dialogando com o que nos é conhecido. Se não temos consciência de que isso acontece assim, podemos ficar presos na “Matrix” — só para brincar com a referência ao primeiro filme da trilogia, que vai ter mais um, e a estreia está prometida para 2020.

Outro ponto importante no contexto dos dados pessoais é a questão da vigilância, desencadeada com as denúncias do ex-oficial americano da CIA e NSA, Edward Snowden, em 2013. Vivemos num mundo em que cada vez mais sensores estão espalhados, seja em câmeras de reconhecimento facial ou em bilhete de transporte público, quase tudo que nos rodeia se baseia em dados. O limite entre o que se pode coletar ou não seguirá sendo alvo de debates por muito tempo ainda.

Quais seriam, então, as funções de uma Lei de proteção de dados? A primeira delas tem a ver com proteção de liberdades e direitos fundamentais do cidadão (por exemplo, igualdade, acesso à informação, liberdade de expressão, privacidade). Além disso, uma regulamentação oficial permite que se busque fomentar o desenvolvimento econômico e tecnológico ao mesmo tempo que oferece segurança e controle para as pessoas, além de criação de políticas públicas que determinem transparência como um valor.

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