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Categoria: Priscila Gonsales

Minicurso de #designthinking gratuito no AcessaSP

Um dos maiores desafios do Educadigital é disseminar a cultura da abundância na qual a gente tanto acredita. Mostrar por meio do nosso trabalho que ter (e promover) acesso é mais importante do que simplesmente ser “dono” de algo. Desde que trouxemos o #designthinkingparaeducadores ao Brasil em 2014, a gente vem organizando formações focadas na possibilidade de criar inovação na educação pelas próprias pessoas envolvidas: professores, alunos, gestores, comunidade. O segredo está em compartilhar ideias e conhecimento para gerar mais ideias e mais conhecimento. Assim mesmo, numa constante!

Em 2015 inauguramos o primeiro curso online sobre o tema no Brasil para formar facilitadores de processos educacionais colaborativos. Conseguimos, com isso, chegar a mais regiões no Brasil, já que nosso orçamento como ONG é bastante limitado.  A segunda turma já está com inscrições abertas.  🙂

Acompanhe pela hastag #cursolabDT  nas redes sociais, as fotos das oficinas facilitadas pelos alunos do curso 🙂

Agora, iniciamos 2016 com o lançamento do primeiro minicurso sobre #designthinking, totalmente gratuito e auto-instrucional, para o Programa Acessa SP, liderado pela Escola do Futuro da USP, mas que está também disponível a toda a sociedade. O minicurso é mais um resultado dessa premissa de que educar na cultura digital significa educar de maneira livre e aberta, compartilhando informação e conhecimento para que outras pessoas usem, remixem e adaptem conforme suas necessidades.

Saiba mais aqui: http://www.acessasp.sp.gov.br/2016/01/novo-minicurso-ajuda-transformar-problemas-em-oportunidades/ 

Big ideas Fest é inspiração do começo ao fim

Evento anual de Design Thinking na educação realizado na Califórnia, fala de disrupção no conteúdo e na organização e evidencia o desgaste dos formatos tradicionais


Imagine reunir mais de uma centena e meia de educadores em um único evento cujo tema é “desenhando o futuro da educação” de forma que todos participem de tudo e ainda ponham a mão na massa. Ah, simples, você deve ter pensado. Basta um grande auditório com uma série de palestras interessantes e, para a parte prática, é suficiente ter algumas salas de painéis ou oficinas simultâneas para o público escolher o que quer ver. E, claro, não vai ser possível ver nem participar de tudo e a interação se dará por meio de perguntas e respostas.

Pois é exatamente isso que o Big Ideas Fest (BIF) não é. E é exatamente por isso que eu gostei tanto dele. Na verdade, me encantei. E muito. Desde que trouxemos a abordagem do Design Thinking (DT) na educação para o Brasil, em 2014, venho pensando em promover um evento que possa reunir pessoas que já estejam desenvolvendo metodologias diferenciadas usando o DT nos processos dialógicos de ensino e aprendizagem e, com isso, provocando inovação.

Digo e ressalto o verbo “provocar”, pois inovação não se lança nem se cria. Inovação acontece. Acontece a partir do momento em que um determinado projeto, modelo ou processo se torna valoroso na vida das pessoas. Para o DT, inovação é valor percebido. A solução trouxe alguma melhoria? Seja ela emocional ou cognitiva, o ganho para as pessoas envolvidas precisa ser nítido.


Para quem ainda não conhece o DT, estamos falando de um novo jeito de pensar e abordar problemas ou, dito de outra forma, um modelo de pensamento centrado nas pessoas. O BIF, realizado de 2 a 5 de dezembro, em San José/Califórnia, já começou com algo bem diferente do que normalmente é esperado. Deu as boas-vindas no hall de entrada, com todos em pé. Antes de entrar no grande salão, os participantes tiveram que compartilhar, com pessoas que não conheciam, suas inspirações do ano e construir flores com garrafas pet e papéis coloridos para pendurar seus desejos de aprendizagem durante o evento.

No grande salão, mesas redondas enormes para dez pessoas – incluindo estudantes do Ensino Médio, sim eles participaram igualmente das atividades – se distribuíam como se fosse uma festa (e era!). No palco, alguns revezamentos de falas no formato TED, curto e direto ao ponto-problema, claramente preparadas para trazer entusiasmo e incentivo e protagonizadas por pessoas que tem de fato a prática do que estavam relatando, só para citar alguns deles:
– a diretora de escola Jacqueline Sanderlin, que conseguiu criar e manter uma comunidade ativa de parceiros da escola, desenvolvendo ações de cultura e arte;
– a estudante Kyleen Majkowski, que criou, aos 7 anos, uma plataforma para crianças de 7-11 anos aprenderem princípios do empreendedorismo;
– a cofundadora do Fundo Malala, Shiza Shahid, que ajudou a ativista paquistanesa e prêmio Nobel, Malala Yousafzai, a construir uma instituição que arrecada recursos para garantir estudo a todas as meninas paquistanesas;
– o professor Tyson Mustafa, que deu aulas para jovens e adultos encarceirados.

Em seguida e nos intervalos das falas, o BIF promoveu o que há de mais interessante: a “pegada maker”. Os grupos de participantes tinham que pensar propostas educativas para combater um dos problemas mais sérios na educação norte-americana, o que eles chamam de “school-to-prision pipeline”, termo usado para se referir às práticas chocantes e repressivas da polícia nas escolas públicas do país, que chegam a colocar crianças em reclusão em salas fechadas. A proposta era identificar oportunidades no problema, quem são e qual a realidade desses alunos e, num primeiro momento, vislumbrar soluções “óbvias e imediatas”. Mas depois, avançando um pouco, buscar soluções que de fato pudessem ser inovadoras.

As produções dos grupos foram trabalhadas em oficinas no período da tarde, em várias salas, todas com um facilitador que conduzia o processo de DT, ou seja, mesmo separados, os participantes estavam alinhados no mesmo processo. Assim, nos momentos conjuntos, na grande sala, podiam apresentar e compartilhar as produções. À noite havia também programação: rodas de conversa, jogos de tabuleiro, exibição de filmes etc.

Merecem destaque a forma como foi facilitada a criação do storytelling para representar, empaticamente, a pessoa a ser beneficiada, e também a construção do protótipo da solução a partir de atividades corporais e lúdicas intermediando as escritas nos post-its e a preparação das maquetes.

O Big Ideas Fest é organizado anualmente pelo ISKME, uma organização não-governamental fundada pela educadora Lisa Petridesnossa conselheira consultiva no Educadigital, e uma das maiores especialistas do mundo em educação aberta e uso do Design Thinking na educação. Em sua primeira edição, há 7 anos, quando não havia nem TED nem SXSWEdu, o BIF já se configurava como um evento de potencial altamente inovador por ser “maker” e propiciar que alunos e educadores pudessem juntos vivenciar a proposta. E continua sendo! Já estamos conversando para fazer o Big Ideas Fest Brazil!
😉

Mais informações: http://www.bigideasfest.org/
Para ver como foi a cobertura nas redes sociais, busque a hastag #BIF2015
Veja mais fotos aqui: http://migre.me/soCKz

Retrospectiva 2014: design, abertura e inovação na educação!

O ano de 2014 foi muito marcante para o Educadigital, especialmente pelo lançamento da iniciativa Design Thinking para Educadores, remix em Português do material criado pela IDEO, em março, durante o Congresso Gife, que marcou a maioria de nossas atividades do ano com formações voltadas para inovação na educação junto a cerca de 600 educadores e gestores de redes privada (ex. Colégio Porto Seguro) e pública (ex Cajamar/SP em parceria com o Instituto Natura) de ensino básico e de universidades como FGV-SP e FEI.

Antes disso, fizemos uma prévia na HUB Escola São Paulo e BH, em fevereiro, com participantes que reinventaram o formato e transformaram chão em mesa de trabalho. Veja fotos aqui. Em fevereiro, também realizamos o primeiro curso de DT para Educadores em 12h para educadores da escola de juristas do TRT de São Paulo – 2a Região, que puderam experimentar propostas de aulas e práticas diferenciadas com seus alunos. Veja fotos aqui.

Ainda no primeiro semestre tivemos um projeto muito especial, de concepção do site da Associação Brasileira de Educação Financeira (AEF). Usamos o DT como abordagem para criar a estrutura editorial em cocriação com professores convidados da rede estadual e municipal de São Paulo, além da equipe gestora da AEF e apoiamos a constituição do projeto como um REA, a partir do uso de uma das licenças Creative Commons. Veja fotos aqui. A plataforma disponibiliza para download livros e materiais de apoio sobre o tema educação financeira para uso com jovens do Ensino Médio.

No segundo semestre, o grande foco foi a Campanha Educação Aberta criada para as eleições, mas que vai continuar durante os novos mandatos. A campanha pedia aos candidatos a todos os cargos eletivos a se comprometer com a causa da Educação Aberta e dos Recursos Educacionais Abertos caso fossem eleitos. E, em novembro, lançamos em parceria com a Unicamp e a Open Knowledge Brasil o primeiro vídeo-animação sobre REA.

Em novembro, o trabalho com educação aberta do Educadigital por meio do projeto REA.br foi vencedor da categoria Educação do Prêmio ARede 2014.

Ainda em novembro, realizamos o primeiro evento concebido e planejado pelo IED, para promover presencialmente alguns dos debates que começavam a ocorrer ou se intensificar pelas mídias digitais.

Batizada de 1a Semana de Mídias, Cidadania e Educação na Cultura Digital, foi feita em parceria com a Plug’n Coworking e fez parte das ações do Dia de Doar. Saiba mais aqui. Fotos aqui. E veja tudo que saiu sobre a Semana na mídia aqui.


 Outros destaques de 2014:

Campus Party 2014 – Discute Políticas Públicas de REA e software livre

Projeto Bio da Lea Fagundes é destaque no post do Catarse sobre projetos que usaram financiamento coletivo para registro e resgate histórico

Apoio à equipe do Edukatu no planejamento de ações de disseminação da rede de aprendizagem sobre consumo consciente junto às escolas públicas do Brasil

Congresso REA em San Francisco e visita à equipe DT for Educators da IDEO  para apresentar a versão em Português do material

Lançamento do MIRA – mapa de iniciativas REA na América Latina parceria com Unicamp e Open Knowledge Brasil

Seminário Emundus USP Educação Aberta

1a Formação de facilitadores Design Thinking para Educadores

Formação estendida em DT, REA e Avaliação com TIC no Colégio Porto Seguro

Formação REA para gestores e professores no DF e na BA

Oficina de Design Thinking na Escola Aubrick – construção de uma proposta curricular inovadora para o Ensino Fundamental 2

Oficina DT para Educadores no Impact HUB Curitiba

Oficina sobre REA na Colômbia – troca de experiências entre iniciativas REA da América Latina

Temporada em Londres – visita ao App for Good, iniciativa do CDI Brasil em Londres

Eleitores participantes da Campanha Apoie a Educação Aberta durante as Eleições – que mudaram suas fotos nas redes para participar da campanha

Formação de formadores da área de Linguagens do SESI-SP – oficina sobre linguagens e narrativas digitais e Design Thinking para Educadores

Semana Educação Aberta na UFPR – primeira universidade pública federal a implementar política de incentivo para docentes criarem REA

OpenEd Congress – maior congresso sobre Educação Aberta do Mundo, realizado em Washington DC

Pesquisa TIC Educação 2013 – Artigo de Priscila Gonsales sobre REA

Dez dimensões para o uso pedagógico das TICs

Como as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) podem ser usadas de forma pedagógica? Priscila Gonsales, diretora executiva do Instituto Educadigital, mostra dez dimensões para o uso pedagógico das TICs.

1 Mudança estrutural no tempo e espaço: flexibilidade no horário das aulas, na utilização dos espaços disponíveis na escola e na composição etária das turmas;

2 Estimula a interdisciplinaridade e a integração entre os docentes: favorece a autonomia e a criatividade para a criação e realização de projetos em conjunto;

3 Baseia-se na metodologia de projetos: valoriza não apenas o conteúdo apreendido, mas também o processo educativo vivenciado pelos estudantes;

4 Favorece o desenvolvimento de práticas individuais e/ou coletivas que permitam consolidar a aprendizagem, com ênfase no trabalho diversificado com perfis diferentes de alunos;

5 Promove aulas mais participativas e menos expositivas: aproximando alunos e professores, horizontalizando as relações;

6 Utiliza recurso, ferramentas e demais dispositivos digitais de comunicação: os alunos visivelmente são protagonistas de sua própria aprendizagem;

7 Introduz conceitos da cultura digital: pesquisa e seleção de informações, compartilhamento, colaboração, circulação de conhecimento, uso de licenças livres, uso responsável da internet, multiculturalidade;

8 Desenvolve e/ou utiliza espaços e ambientes interativos em redes (sites, comunidades, blogs) no processo pedagógico: amplia o alcance de comunicação e estimula a autoria de educadores e educandos;

9 Valoriza a intervenção social dos estudantes em benefício de sua comunidade, cidade, estado ou país: possibilita o exercício da cidadania e do empreendedorismo;

10 Cria situações reais e concretas que possam despertar o interesse e a motivação dos alunos para aprender cada vez mais: aprendizado significativo.

Publicado na Revista Educação

Que tal transformar desafios em oportunidades?

Publicado em HUB Escola

Conheci o Design Thinking (DT) em 2010, no curso da ESPM conduzido pelos feras Tennyson Pinheito e Luis Alt, hoje também idealizadores da Eise. A minha busca era por uma formação que pudesse apontar caminhos para inovar em educação. Na época, já tinha 10 anos de experiência em projetos educacionais com uso de tecnologias digitais. Gosto de contar uma história que ilustra bem porque acredito tanto no Design Thinking para Educadores.

Lá no início dos anos 2000, um dos projetos que tínhamos era uma oficina online de criação literária conduzida por um escritor, o querido Jorge Miguel Marinho. O ambiente virtual interativo e amigável permitia que os participantes fossem exercitando a escrita de poemas, artigos ou crônicas, e visualizando os apontamentos do autor para, em seguida, reescrever e aprimorar o texto. Criavam ali seu portfólio e, ao final, podiam publicar um livro virtual. Não havia nada parecido na época! Tínhamos certeza de que era uma inovação!

Eis que um dia, um dos participantes, um professor do Ceará, nos escreve um email com um pedido peculiar: “adorei a oficina, mas agora quero fazer a minha com meus alunos.” Oi? Como assim, uma sua? Pânico geral na equipe. Nossa ferramenta não era preparada para isso. Reuniões e mais reuniões depois, tomamos uma decisão inusitada: OK, pode fazer, a gente te ajuda, pois queremos observar como o processo vai acontecer.

E foi assim que aquele professor, com nosso apoio nas postagens (ele não tinha acesso ao “admin” do sistema), foi conduzindo sua própria oficina e nos fazendo perceber que lindo seria se outros educadores como ele pudessem criar também sua própria oficina online. Aí sim a inovação surgia! Era preciso reestruturar os projetos para atender a demanda! A experiência de observar a condução da oficina pelo educador cearense serviu para, meses mais tarde, reformularmos toda a ferramenta para que ela pudesse de fato oferecer um serviço ao usuário interessado em desenvolver uma oficina de criação de textos a distância e gerar seus próprios livros virtuais.

Para quem conhece um pouco sobre Design Thinking, a etapa da “empatia” logo vem à mente com essa história, cujo relato completo pode ser lido na publicação que lançamos em 2006. Mesmo sem conhecer o DT na época, já o praticávamos de alguma forma, quase sem querer. Por isso, quando conheci a abordagem do DT, fez todo o sentido.

Empatia significa conhecer o público envolvido no problema que queremos solucionar ou no desafio que precisamos resolver. Se o contexto é o da educação, estamos falando dos alunos, da comunidade e dos professores e gestores. Quem são? O que desejam? Como podemos contribuir para causar impacto positivo em seu dia-a-dia?

Em 2012, quando soube do material que a IDEO lançava, especialmente pensando nos educadores, fiquei muito entusiasmada e tratei de dar um jeito de trazer para o Brasil. Depois de algumas negociações, viagens a San Francisco e busca por patrocínio no Brasil, é uma alegria imensa ter liderado essa empreitada de elaborar a versão em Português que vamos lançar. Design Thinking para Educadores é um remix, um recurso educacional aberto (REA), licenciado em Creative Commons, que vai estar disponível para baixar na íntegra ou por capítulos.

Nesse processo, o Fabio Silveira, designer e professor, que já conduzia oficinas de DT na Hub Escola, quando soube da minha iniciativa, me procurou para uma parceria. Adoro quando essas coisas acontecem, pois eu justamente precisava de um parceiro de trabalho na condução de futuras oficinas. E o Fabio também ajudou na finalização do material e na construção dos roteiros dos vídeos que estamos produzindo. <3

Nossa estreia juntos será nas oficinas da Hub Escola, no dia 12 de fevereiro, em São Paulo e, no dia 14 de fevereiro, em Belo Horizonte. Além da empatia, vamos trazer as outras fases, especialmente dirigidas aos educadores: interpretação, ideação, experimentação e evolução. E vamos também contar um pouco de um “case” brasileiro, o Edukatu.

O que me empolga demais no material da IDEO é que o DT é apresentado como uma abordagem sim, mas não como uma fórmula pronta a ser aplicada. E isso é essencial em educação. Respeitar o contexto, as diferentes realidades, as pessoas e os saberes envolvidos. Enfatizar a construção e a reconstrução de forma permanente. E, sem dúvida, incentivar a autonomia dos nossos educadores.

Vamos experimentar?

Priscila Gonsales
Fellow Ashoka, máster em Educação, Família e Tecnologia pela Universidade de Salamanca (Espanha), jornalista especializada em educomunicação, co-fundadora do Instituto Educadigital. Desenvolve projetos e pesquisas em educação na cultura digital desde 2001 e facilita processos formativos envolvendo Recursos Educacionais Abertos e Design Thinking.

O filme, os vídeos e a mobilização (parte I)

O que o sucesso de bilheteria 2 Filhos de Francisco, de 2005, pode ter em comum com dois projetos de vídeo recentemente bem-sucedidos em sites de crowdfunding? Enquanto me recuperava de uma gripe forte que trouxe dos meus 21 dias de “retiro” em San Francisco/EUA, pensava num gancho para escrever um post sobre a viagem. Foi quando me deparei na madrugada de ontem (insônia pela diferença de 6 horas de fuso), zapeando pela TV, com as cenas que eu mais adoro nesse longa do diretor brasiliense Breno Silveira, atualmente em cartaz com o ótimo Gonzaga de Pai para Filho.

Com todo seu entusiasmo misturado com amor e perseverança, o “seu” Francisco, pai de Zezé e Luciano, aposta, literalmente, todas as fichas mobilizando sua rede social para promover  a música de seus filhos. Para quem não lembra, ele primeiro deixa a fita demo na rádio local e depois começa a telefonar dos orelhões na cidade pedindo para tocar a música e, ao perceber que a ideia funcionava, compra muitas fichas de telefone e passa a engajar amigos, companheiros de trabalho e até desconhecidos nas ligações para poder conquistar seu objetivo de ver “É o amor” como a mais pedida nas paradas de sucesso.

Sempre choro nessa parte, confesso. Me emociono demais pensando em como é mesmo gratificante conseguir algo com nosso esforço e persistência, especialmente coisas em que se acredita e que parecem impossíveis. Nosso projeto da vídeo-entrevista da Léa Fagundes no Catarse foi assim. Quando tudo começou era apenas uma ideia que a gente sabia que devia fazer, que devia ir atrás. A trajetória de uma personalidade ilustre da educação brasileira, que vem inovando há tempos mesmo com todas as dificuldades, mostra que o foco sempre deve estar no desenvolvimento humano,  independentemente das mais avançadas tecnologias digitais.

Estamos muito felizes com o resultado, um trabalho árduo de edição (mais de 10 horas gravadas!) feito com nossos criativos parceiros da Filmes Para Bailar. O lançamento oficial será em fevereiro. Para tornar o projeto realidade, foram necessários 40 dias de trabalho intenso de mobilização de redes sociais. E nossas “fichas” estavam nos cliques e recursos digitais disponíveis, além dos inúmeros e-mails mais que pedintes para familiares e amigos íntimos. E conseguimos, até passamos da meta pretendida!

Nesse início de ano em San Francisco, tive a feliz oportunidade de acompanhar de perto outro projeto de vídeo bem-sucedido em crowdfunding graças também à forte mobilização de rede: o documentário Lives in Transit (vidas em trânsito) do Global Lives Project. Global Lives Project é uma ONG fundada em 2004 pelo sociólogo californiano David Evan Harris, que fez seu mestrado aqui na nossa USP e por isso fala um ótimo português. Sua missão é criar uma videoteca sobre a experiência de vida humana a partir da produção de vídeos que registram 24 horas na vida de pessoas comuns de diferentes lugares do mundo. Os vídeos, produzidos por videomakers independentes, são licenciados em Creative Commons, estão disponíveis na web (alguns já com legendas feitas por voluntários) e também em exibições periódicas em formato de instalação artística.

Empatia é a palavra-chave. Conhecer o outro para conhecer melhor a si mesmo. Uma iniciativa encantadora que faz lembrar as palavras de Eduardo Galeano: “é preciso ser capaz de olhar o que não se olha, mas que precisa ser olhado, as pequenas coisas de pessoas anônimas que os intelectuais costumam desprezar”.

Quando cheguei ao escritório deles no aconchegante coworking PariSoma, no início de janeiro, a arrecadação no Kickstarter não tinha chegado nem na metade e só restavam 6 dias para o prazo final. Postais estavam sendo preparados para enviar pelo correio, tuitadas e mais tuitadas, e-mails para amigos e amigos de amigos, posts os mais diversos no Facebook. Mas a ação mais bacana que participei foi a uma força-tarefa do conselho de voluntários, um dia antes do prazo final. Todos juntos, na mesma sala, divulgando e acompanhando a arrecadação em tempo real. Um lindo processo que gerou um resultado mais que satisfatório: a campanha atingiu 10 mil dólares a mais do pretendido. Com o valor excedente, a equipe vai produzir um material educativo para apoiar o uso dos vídeos nas escolas. E um novo site do projeto será lançado também agora em 2013.


Mais sobre San Francisco:
Pessoas, projetos, inspirações (parte II)
Dicas da cidade (parte III)

Pessoas, projetos e inspirações (parte II)

Sem dúvida, San Francisco é uma cidade altamente inspiradora para quem quer arriscar sair da zona de conforto e deixar vir a ousadia. Em inglês, o termo seria “risk taker”, justamente para designar aqueles que acreditam piamente nas palavras do poeta de que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Listo aqui alguns dos projetos incríveis que conheci, cada um deles mereceria um post específico (quem sabe ainda faço):

PariSoma, um coworking arrojado, organizado em dois andares independentes, porém integrados.  Na parte de baixo, mesas de ping-pong se transformam em estações de trabalho coletivo durante o dia e, à noite, são dobradas e recolhidas para darem lugar a eventos, debates, exposições e cursos os mais variados. O piso de cima é reservado a equipes de uma mesma empresa e/ou instituição. Bolas de alongamento estão ali espalhadas para uma esticadinha básica  durante o expediente.

Women Who Code, coletivo de mulheres apaixonadas por tecnologia digital. Atualmente, elas já são mais de 2 mil e fazem encontros presenciais específicos sobre alguns temas e também promovem seus “talks” para que possam compartilhar  projetos e experiências de trabalho. Um desses “talks” aconteceu no PariSoma no dia 10 de janeiro. E eu estava lá!

Women 2.0 é mais uma iniciativa de mulheres inovadoras em tecnologia. Uma rede que reúne empreendedoras e potenciais financiadores e  já conta com uma versão em Espanhol. Oferece encontros, competições e conferências como esta que será em fevereiro deste ano.

Dojo é uma start-up que nasce de uma ideia de associar tecnologia para estimular atitudes positivas em larga escala, a partir da motivação em rede. Praticar meditação, parar de fumar, comer salada, escrever um diário, telefonar para amigos, dizer a sua esposa que você a ama são algumas dessas atitudes disparadas por um app para celular. Seu idealizador, Jordy Mont-Reynaud, que já trabalhou em outras start-ups no Vale do Silício, como o Facebook, acredita no poder da tecnologia para alcançar milhões de pessoas e que inserir mais atitudes positivas no cotidiano delas pode ser mais fácil com a ajuda mútua de amigos dessa rede.

DIY (Do It Yourself), esse na verdade foi descoberto aqui no Brasil pela minha parceira de trabalho Bianca Santana que, toda encantada, me “intimou” a visitar. E eu fui. Adorei. Me lembrei do projeto Minha Terra, uma rede social para escolas que fizemos no EducaRede de 2004 a 2011. O site, dirigido a crianças e jovens, funciona como um agregador de recursos interessantes, abertos e disponíveis na web, além de estimular que os usuários façam upload de suas próprias produções multimídias. Tudo em Creative Commons. A Daniela Silva, nossa consultora em dados abertos, aproveitou e já postou lá sua linda animação sobre o tamanho da Terra. “Awsome!”, foi o que ouvi da equipe DIY. Nós IED queremos trazer o DIY para o Brasil, traduzir e remixar. Ficamos de continuar essa conversa com eles 🙂

California Academy Night Life é uma baladinha no museu. Sim, imagine ir a um museu à noite e aproveitar a exibição tomando um vinho ou outra bebidinha a escolher e ainda dançar ao som dos DJs espalhados pelos vários cantos do lugar, do aquário ao simulador de terremoto. Nunca tinha visto um jacaré branco antes, parecia estátua até, mas num certo momento, não é que ele andou? Super iniciativa para pensar no Brasil e atrair especialmente o público adolescente (claro que com refrigerantes e sucos!) para ir a museus e centros culturais, #ficaadica para as novas gestões municipais.

Design Thinking for Educators é uma iniciativa da IDEO para educadores, agora em sua segunda edição licenciada em Creative Commons. A IDEO é uma das companhias mais referenciadas no mundo no tema inovação, que tem na abordagem do Design Thinking seu principal foco de trabalho junto a seus clientes, a maioria grandes empresas. O escritório de San Francisco é simplesmente demais, à beira da baía, lembra um coworking dos mais inspiradores. Sem divisórias entre as mesas de trabalho, cantinhos de reunião com sofás e pufes, guarda-bicicletas suspenso, post-its coloridos e lousas brancas por toda parte. Como trabalhamos aqui no Brasil com formação de educadores a partir do DT, já fechamos com eles uma tradução oficial do material para o Português, agora precisamos de empresas/pessoas interessadas em patrocinar.

Carrotmob iniciativa que propõe atitudes em vez de boicotes e protestos contra empresas que não são socialmente responsáveis. Mobiliza um grande número de consumidores para adquirir determinado produto de uma empresa tendo como contrapartida dessa empresa a utilização de parte da verba em ações sustentáveis. Começou em San Francisco em 2008 e até hoje já realizou mais de 200 campanhas em 20 países.

FunsheapSF é um site muito interessante com dicas de atividades e eventos baratos e gratuitos em San Francisco. Criado por um casal que tem seus respectivos empregos em tempo integral (ele designer, ela restauradora) e que mantém o site por pura paixão e com alguma publicidade para pagar os custos de manutenção. Foi lá que descobri, por exemplo, o SF Crowdfunding Launch Party um evento com artistas e designers que estão usando o crowdfunding para viabilizar seus produtos.  Claro que já lembrei dos meninos do Catarse. Seria muito legal termos eventos periódicos como esse por aqui, com tantos projetos legais que estão conseguindo virar realidade nesses dois anos de vida do Catarse.

Techshop uma espécie de hackerspace criado e mantido de forma coletiva e aberta para quem quiser participar. Uma mesma ideia pode gerar várias outras, esse é o princípio deles. Não tive a oportunidade de visitar pessoalmente ainda, infelizmente, pois fica um pouco afastado da cidade. Mas a Gabi Augustini foi no ano passado e escreveu esse post aqui.


Mais sobre San Francisco
Dicas da Cidade (parte III)
O filme, os vídeos e a mobilização (parte I)

Dicas da cidade (parte III)

Um lugar fascinante que não tinha ido da primeira vez é o Palace of Fine Arts, apresentado pela amiga e consultora de propriedade intelectual, Carolina Rossini, seu gentil  e talentoso marido John Wilbanks e o pequeno Noah que, aos 2 anos, era uma atração à parte por seu encantamento com os patos no lago. Uma estrutura momumental de inspiração greco-romana construída em 1915 para exibir o trabalho de artistas.

Para quem gosta de museu como eu, não dá para perder o lindo Asian Art Museum que traz um acervo belíssimo de obras artísticas das civilizações que formam o continente. Além de China (30% da população de SF é de origem chinesa) e Japão, o museu também contempla Vietnã, Índia e Mongólia, além de oferecer audio-guia gratuito para visitantes.

Na sequência, recomendo tomar um café no bairro Hyes Valley, ali pertinho, cruzando o Civic Center. Depois que conheci essa parte da cidade agora, apresentada pelo amigo e morador Jordy Mont-Reynaud, não achei mais graça no downton da Union Square.  Mais aconchegante e com menos turistas, o local tem uma atmosfera pacata durante o dia e boêmia durante a noite. Um certo ar parisiense até, para quem conhece Montmartre.

Quem quiser observar um pouco os contrastes da cidade, recomendo pegar um Muni no início da Mission St. a partir da 2nd ou 3th St. e ir até o ponto final. Dá para ter uma ideia de como a paisagem vai ficando diferente, algumas vezes mais residencial, outras parecendo que se está numa cidade completamente diferente, especialmente pelas evidências de imigração de hispanofalantes e asiáticos nos estabelecimentos comerciais.

Fiquei espantada com tantas pessoas que falam sozinhas nas ruas e nos ônibus em San Francisco, umas brigam mesmo, falando alto e gritando com as pessoas. E ninguém se incomoda, até riem. Parece que já estão acostumadas aos “crazy people”, como dizem e aos “homeless”, cada vez mais comuns nas áreas centrais, atraídos por uma ação humanitária que a cidade desenvolve.

Para quem quer aliar museu, conhecer cidade nova e ter, de quebra, uma vista deslumbrante, nada melhor do que ir a Berkeley . Pegue o bart (o metrô deles) no sentido East Bay e desça na estação Downtown Berkeley. Caminhe um pouco pela agradável Shattuck Ave e depois pegue um ônibus até o Lawrence Hall of Science para ter uma das vistas mais lindas da Bay Área. Fiquei umas duas horas ali só olhando para aquela beleza toda. Meditei bastante. Hoje posso dizer sem hesitar que esse é um passeio tão imperdível quando andar de bike na Golden Gate Bridge (que fiz na minha primeira vez).

Outra vista panorâmica imperdível e que fica dentro da cidade é Twin Peaks. De lá de cima dá para ter uma ideia de como SF é uma cidade plana, com poucos prédios concentrados no Financial District.

Comer em San Francisco é simples e barato. Saladas as mais diversas são encontradas em delis, pequenos restaurantes a até em farmácias (sim, as farmácias de lá parecem nossos supermercados daqui). Mas se a vontade pedir um jantar mais requintado, com preço justo e atendimento cordial, indico o Perbacco, também apresentado por Carol e John, que traz pratos criativos e deliciosos, especialmente frutos do mar.

Agora se a ideia é sair para dançar, a salsa é a opção mais divertida. Há várias casas que oferecem aulas antes da balada começar de fato. A mais famosa é o Café Cocomo, que fica num bairro um pouco escondido, mas está sempre cheio de pessoas das mais diversas nacionalidades. Desde os norte-americanos mais “duros” tentando aprender os primeiros passos até os hispanofalantes mais rodopiantes.

E o melhor da noite em SF é que acaba cedo, ou seja, dá para curtir sem correr o risco de não acordar a tempo no dia seguinte. Ah e uma dica incrível para quem ama dançar como eu: a OCD Dance é uma escola de danças, que oferece vários ritmos e funciona 7 dias por semana em todos os períodos. Dá para fazer aula avulsa ou fechar um pacote. Fiz uma aula maravilhosa de afro-brazilian dance, sugerida pela amiga Lauren Valdez, com quem trabalhei no projeto Global Lives Project.

Mais sobre San Francisco:
O filme, os vídeos e a mobilização (parte I)
Pessoas, projetos e inspirações (parte II)

“Mais importante do que falar de tecnologia na educação, é falar de cultura digital”

Priscila Gonsales, Diretora-Executiva do Instituto Educadigital colaborou com a matéria Inserir a Educação no mundo digital pode melhorar a qualidade de ensino do Blog Educação, veja abaixo.

As novas tecnologias já fazem parte do cotidiano da maior parte dos estudantes brasileiros. A pesquisa de Tecnologia da Informação e Comunicação – TIC, na categoria Kids Online, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI, em 2012, comprovou que 47% das crianças entre 9 e 16 anos usam a internet todos os dias no país; 38% utilizam de duas a três vezes por semana; e apenas 5% utilizam uma vez por mês. Com base em dados como esses, especialistas acreditam que uma das grandes questões a enfrentar para garantir a qualidade do ensino seja a dificuldade existente para inserir a Educação no mundo digital.

“A nossa sociedade está mudando. Então, mais importante do que falar de tecnologia na educação, é falar de cultura digital”, disse a diretora do Instituto Educadigital, Priscila Gonsales. Para ela, a cultura digital que temos, hoje, não está inovando a maneira de ensinar. “Quando falamos só em tecnologia digital na educação, podemos, muitas vezes, fazer mais do mesmo. Você não muda as práticas e metodologias antigas só disponibilizando e introduzindo os equipamentos. Na verdade, precisamos começar a pensar em como mudar a lógica, em como a escola se abre para o mundo que está lá fora”, explicou.

Ao mudar a cultura digital atual, a escola atuaria como questionadora das novas formas de ser e estar. “A internet está criando valores que não tínhamos antes. A instituição de ensino, dessa forma, pode criar reflexões do tipo ‘identidade virtual versus identidade presencial’. Dá para ser duas pessoas ao mesmo tempo? Qual deve ser a postura no meio digital, já que todo mundo pode publicar o que quiser?”, exemplificou a diretora.

Além de assumir esse papel, a instituição de ensino, segundo Gonsales, teria que explorar três focos de aprendizagem: a pesquisa, a comunicação e a publicação. O primeiro ensinaria o aluno a como pesquisar, como achar o que procura em meio a quantidade ilimitada de informações que a internet proporciona. “É interessante pensar que, hoje, temos a vantagem de as coisas não serem totalmente confiáveis, porque é importante para o aprendizado o aluno saber desconfiar das informações, poder buscar em várias fontes, comparar e chegar ao que realmente vai ser útil”, contou a diretora.

O segundo foco, a comunicação, ou trabalho coletivo, abre o universo de informações da escola e permite o intercâmbio de informações com a sociedade. “As redes digitais possibilitam a comunicação entre escolas. Uma escola do Sul do país pode falar com uma escola do Norte. E, de repente, fazer um trabalho em conjunto, colaborativamente, respeitando as diversidades regionais”, sugeriu Gonsales.

Por fim, o foco na publicação ensina sobre a responsabilidade ao criar um conteúdo próprio e divulgá-lo na rede. “A criação de conteúdo próprio é muito positiva para o aluno. Mas, ele deve saber de sua responsabilidade diante do que publica. A escola pode ajudá-lo a compreender melhor seu papel no mundo digital”, afirmou.


O papel do professor

Desde que a internet se tornou ponto fundamental na vida do estudante, o professor e os livros didáticos deixaram de ser a única fonte de informação nas escolas. Por isso, o educador, segundo Gonsales, deve ser o facilitador da aprendizagem. “É por meio dessa nova dinâmica que a educação precisa pensar nas tecnologias digitais e em como, de fato, se consegue envolver os estudantes para que eles sintam vontade de aprender, para que a aprendizagem seja uma coisa para a vida toda – não só aquelas disciplinas específicas do currículo de cada ano.”

Para tanto, a especialista acredita que o professor deve deixar o medo de lado. “Ele tem que experimentar. Não dá para achar que precisa aprender primeiro para trabalhar e aplicar as tecnologias digitais na escola. A tecnologia se renova sempre. Por isso, é importante que ele experimente com seus alunos, porque eles também têm muito o que ensinar. Vamos todos aprender juntos.”

A introdução dessa cultura nas escolas não tem fórmula mágica. Para a diretora, isso deverá acontecer a partir do momento que estimular a troca de experiências entre os professores. “Na pesquisa TIC Educação, tanto de 2010 quanto de 2011, 70% dos professores revelaram que aprendem melhor sobre como inserir a tecnologia na aprendizagem quando trocam informações uns com os outros, informalmente”, explicou. Esse estímulo, para ela, partiria das políticas públicas voltadas à Educação. “Hoje, existem muitos programas de entrega de equipamentos nas escolas públicas, o que é muito bom, mas ainda falta uma formação continuada que estimule o professor a implantar a tecnologia em sala de aula. E não é alguém chegar e ensinar, é propiciar espaços de aprendizagem entre os professores. Isso é uma coisa que não vemos na política pública”, conclui.

Continue lendo e veja boas práticas de professores que integram e inovam com tecnologia na sala de aula.

Livros, leitura e acesso na cultura digital

Artigo de Priscila Gonsales e Bianca Santana publicado no Estadão baseado na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2012.


Nem mesmo a desoladora média de 2,1 livros lidos por ano pelos brasileiros ou o fato de 75% da população do País nunca ter frequentado uma biblioteca chamam tanto a atenção na edição 2012 da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (*1) como os resultados em relação aos livros digitais.

Pela primeira vez, o estudo traz um panorama sobre o hábito de leitura de livros digitais. Um olhar pouco cuidadoso poderia apenas destacar que 46% dos entrevistados disseram que nunca ouviram falar de livros digitais (ou e-books, como enfatiza o questionário) e, consequentemente, proclamar que esse novo suporte para o livro, ou melhor, essa nova possibilidade de leitura, está ainda muito distante da realidade.

No entanto, uma análise qualitativa sobre os resultados vai trazer à tona algo que está nas entrelinhas. Se considerarmos o grupo que afirmou já ter lido livros digitais, vamos observar que 54% dos entrevistados disseram que gostaram muito da experiência, 40% gostaram pouco e 6% responderam que não gostaram.

Esse resultado é altamente positivo apesar de vir de um pequeno percentual (18%) que afirmou ter tido contato com o livro digital. Isso imediatamente nos instiga a pensar que existe sim um interesse e uma recepção até calorosa por parte de quem já experimentou. Quem não conhece, quer conhecer (25% ) e quem já usou, gostou e quer mais (34% vão ler mais livros digitais a partir de agora). Não seria esse público o que o mercado publicitário chama de early adopter (*2)?

Outro aspecto que merece uma reflexão mais aprofundada neste contexto é o conceito e de “livro digital”. Segundo a própria pesquisa:  “Ao falar de livros, estamos falando de livros tradicionais, livros digitais/eletrônicos, áudio livros, digitais-daisy, livros em braile e apostilas escolares. Estamos excluindo manuais, catálogos, folhetos, revistas, gibis e jornais”.

Trazer uma definição geral para “livro” é um avanço importante em relação às pesquisas de anos anteriores, no entanto, a mesma conduta poderia ter sido adotada para buscar definir o que se entende por livros digitais e/ou eletrônicos. Quando se fala em livro digital, o que mais vem à mente são os dispositivos eletrônicos de suporte à leitura, os chamados “e-readers” (*3). Um livro ou um jornal em um leitor eletrônico, como o Kindle (*4), por exemplo, retoma a ideia de um produto fechado, como o impresso, com uma temporalidade também delimitada como a edição mais recente ou, no caso do jornal, a edição do dia.

A maioria dos e-readers oferece navegação semelhante ao manuseio do papel, remete quase à mesma sensação de ler um livro ou um jornal impresso. No entanto, é fundamental refletir sobre o conceito de livro digital que devemos considerar no contexto da cultura digital em que estamos. Seria meramente uma reprodução do livro em papel? Um arquivo eletrônico PDF? Uma animação multimídia cheia de cliques?

As possibilidades de leitura propiciadas por computadores, tablets, celulares e outros dispositivos extrapolam o que chamamos de livro. Como uma mídia de convergência de infinitas tecnologias e linguagens, a internet permite que textos, imagens, tabelas, infográficos, vídeos, games e diversos aplicativos multimídia possam ser simultaneamente acionados para contar uma história, seja ela ficcional ou informativa, linear ou descontínua.

Arte Fora do Museu (*5), por exemplo, é um projeto digital sobre as obras de arte que estão nas ruas de São Paulo. Ele reúne informações em textos e fotografias, que poderiam estar em um livro, mas foram publicados online, agregando vídeos e georreferenciamento das obras. É pouco provável que alguém defina o Arte Fora do Museu como um livro digital ou um e-book. Mas muitos dos que navegaram por aquelas páginas leram tanto quanto fariam em um e-book sobre o mesmo tema. Além disso, o conteúdo de um projeto como este está distribuído pela rede, no YouTube, no Facebook, no Flickr, fazendo com que as informações sejam acessadas de muitas maneiras, fragmentadas, e que se alguém tiver interesse em se aprofundar no assunto, possa sempre ser levado à fonte original.

Os e-books e os PDF de impressos não aproveitam uma importante possibilidade trazida pelo digital: o hipertexto. O termo hipertexto, cunhado por Ted Holm Nelson nos anos 1960, significa, nas palavras de Sergio Amadeu da Silveira “uma escrita não sequencial, um texto que se bifurca e que permite ao leitor escolher o que deseja ler. São blocos de textos, conectados entre si por nexos que formam diferentes itinerários para os usuários”. O hipertexto coloca a possibilidade de os indivíduos aprofundarem conhecimento nos temas que os interessem de maneira livre e autônoma. Nesse sentido, as possibilidades abertas pela digitalização de conteúdos são potencializadas pela expansão do acesso à internet.

Antes, a veiculação da informação e do conhecimento estava vinculada a suportes materiais: livros, discos, CDs, apostilas, enciclopédias. Para disseminar informações era preciso ter acesso a esses recursos materiais, caracterizando um modelo de comunicação “de um para muitos”. A internet deu a todos o poder de criar, moldar e disseminar informações com a ponta dos dedos, abrindo a possibilidade de uma comunicação “de muitos para muitos”. O modo como produzimos e consumimos informação atualmente é muito diferente do que era no curto espaço de tempo de 20 anos atrás.

Reportagem do jornal Brasil Econômico, de 23/3/2012, traz dados da pesquisa Ipso/Reuters, mostrando que 85% da comunicação no globo já é feita pela web. A maior parte do mundo está interconectada graças aos recursos de e-mail e de redes sociais, como Facebook e Twitter. E-mails são enviados e recebidos por 85% das pessoas que estão conectadas à internet e 62% delas se comunicam por sites de redes sociais. O Brasil é o 5º país em usuários conectados a essas redes. Segundo o Ibope Nielsen Online, o país atingiu 41,7 milhões de usuários de internet em outubro de 2010.

Além de os conteúdos estarem disponíveis mais facilmente, sem depender de suporte material, eles podem ser compartilhados quase que instantaneamente pela rede www.arteforadomuseu.org mundial de computadores. Segundo o sociólogo Manuel Castells, a intensidade e o ritmo acelerado das mudanças permitem afirmar que estamos vivendo uma revolução tecnológica, saindo de uma era industrial para uma era “informacional”. Esta revolução seria um evento histórico da mesma importância da Revolução Industrial do século XVIII, “induzindo um padrão de descontinuidade nas bases materiais da economia, sociedade e cultura”.

Se o gosto pelo livro digital parece ser uma questão de “ver para crer” e, segundo a maioria dos leitores (52%) a tendência é que ele conviva igualmente com os livros impressos, o ponto que continua em suspense é, sem dúvida, se essa convivência vai possibilitar o aumento no índice de leitura no Brasil.

Uma pesquisa (*6) realizada nos Estados Unidos pelo grupo de mídia e educação Scholastic e pela empresa de consultoria Harrison Group, mostra que e-books podem estimular a leitura de crianças: 57% das crianças disseram que ficariam mais interessadas em ler nos dispositivos de e-reader. Segundo o estudo, cerca de um terço das crianças disseram que leriam mais livros por prazer caso os leitores digitais estivessem a seu alcance. No entanto, 66% afirmaram que continuariam a ler livros impressos mesmo com uma maior disponibilidade do e-book.

O que poderia estimular a leitura e igualar nossos índices, no mínimo, aos de nossos vizinhos Argentina e Chile (5,4 e 4,6 livros por ano, respectivamente)(*7) passa por dois importantes aspectos. O primeiro deles envolve a conceituação de livro digital. O imenso público de internautas usuários de redes sociais no Brasil e o cada vez mais precoce contato de crianças e adolescentes com as telas digitais (29% das crianças de 5 a 9 anos já estão nas redes sociais) (*8) estão trazendo o desafio de dar novo significado à definição tradicional de livro e de leitura na era digital.

O segundo aspecto, fundamental e que faz remeter aos dados alarmantes apontados no primeiro parágrafo deste artigo, gira em torno do que chamamos de acesso. Se queremos ser um país de leitores, estamos estimulando que nossa população leia? Segundo diagnóstico do setor livreiro (*9) de 2009, verifica-se a concentração de livrarias na região Sudeste (56%), seguida pela Sul (19%), Nordeste (12%), Centro-Oeste (6%), DF (4%) e Norte (3%). Dois terços dos municípios brasileiros não possuem livraria.

Seriam os livros digitais agentes de promoção de leitura à medida que dispensam o custo de suporte material, impressão e distribuição? Durante sua participação na Festa Literária de Paraty – Flip, em 2008, o escritor inglês Neil Gaiman deu uma entrevista coletiva na qual diz não se importar se as pessoas têm acesso a seus livros, emprestando umas das outras ou se baixam gratuitamente da internet. Gailman ressalta que seu interesse é que as pessoas ingressem na “sua tribo”, uma tribo de leitores.(*10)

Se nosso desejo também combina com o de Gailman, precisamos aprofundar aqui a questão do acesso. A pesquisa traz um dado bastante curioso em relação à enorme porcentagem dos que já leram livro digital que realizaram download de obras. 87% disseram que baixaram publicação gratuitamente da internet. Desses, 38% responderam “sim” quando questionados se a publicação era “pirata”.

O termo “pirataria” vem sendo cotidianamente empregado para designar toda e qualquer obra artística ou intelectual (incluindo livros) que pode estar violando os termos de direito autoral ou copyright (*11). Há que se relativizar, no entanto, que a metáfora semântica em relação aos criminosos dos mares que roubavam ouro e outros tesouros dos navios não é a mais apropriada. Quem rouba um bem material faz, de fato, com que outra pessoa o perca. No entanto, no mundo digital não existe perda quando se faz uma cópia de uma música ou de um texto na internet. Um livro ou uma música podem ser copiados de um dispositivo para outro, sem que o cedente da cópia perca seu acesso ao conteúdo, que ainda pode ser apreciado por milhões de pessoas simultaneamente. Os bens intangíveis e imateriais não conhecem a escassez, nem o desgaste.

No início do mês de maio, quem é usuário frequente do Twitter pode acompanhar a polêmica em torno da hashtag #freelivrosdehumanas, uma manifestação pública em favor da manutenção do site de compartilhamento livrodehumanas.org (*12), criado há 3 anos, que possibilita baixar gratuitamente cerca de 2 mil livros esgotados nas áreas de filosofia, psicologia, literatura e psicanálise em formato PDF ou EPUB. O site foi retirado do ar mediante notificação da justiça a partir de uma ação movida pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) que pretende enquadrar o site em uma das maiores ações de pirataria ocorridas no país.(*13) Para reunir as diversas reações contrárias a essa ação, foi criado o blog Direito de Acesso.(*14)

O caso do livrodehumanas.org é um ótimo exemplo para elaborarmos um pouco mais o que entendemos por digital e como o digital faz hoje parte da nossa sociedade – uma sociedade em constante transformação. Não se trata somente da transformação de qualquer informação em bit, apesar de se tratar também disso. Comprimir dados – sejam eles textos, áudios, vídeos ou imagens – de seu suporte material, livros, revistas ou jornais, aumenta as possibilidades de reprodução e de distribuição de conteúdos. Ou seja: aumenta as possibilidades de acesso e difusão da leitura. Para Pablo Ortellado, professor da USP e coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (GPOPAI) (*15), a digitalização do livro tem um impacto fundamental na difusão do conhecimento entre classes sociais que antes não conseguiriam adquirir livros, já que a renda familiar de muitos estudantes é inferior ao valor da bibliografia solicitada em cursos universitários.

Não afirmamos com isso que o livro impresso vai acabar ou que não é possível lucrar com conteúdos digitais. Trata-se de buscar um outro modelo de negócio, que não esteja baseado em cobrar pelo acesso aos conteúdos, mas sim ao uso de serviços associados ao conteúdo. Já existem algumas iniciativas pelo mundo que podem servir de exemplo e inspiração para editoras, como a Flatword Knowledge (*16), citada na última partes deste artigo.

Yochai Benkler, professor de Direito da Universidade de Harvard e diretor do Berkman Center for Internet and Society (*17), um dos pensadores contemporâneos mais referenciados quando o assunto é movimento colaborativo como modelo de produção na era digital, traz uma reflexão interessante para destacar que trabalho realizado pelo autor de uma obra não será refeito sempre que um usuário tem acesso a ela : “Tolstoi não precisaria gastar nem mais um segundo de trabalho a fim de atender ao centésimo milionésimo leitor de Guerra e Paz, além do que gastou para atender ao primeiro leitor” (2010: 14). Diferentemente dos altos custos inerentes à impressão e à distribuição de material impresso, distribuir materiais digitais tem um custo muito baixo.

Com a expansão do acesso à internet, diversos movimentos pela liberdade de distribuir e modificar trabalhos e obras criativas têm ganhado força e se justificam pelo direito à educação e à cultura e também pelo direito do autor em decidir que usos quer permitir para sua produção. São cada vez mais conhecidos os movimentos do software livre, do Creative Commons (*18), da transparência de dados públicos, dos recursos educacionais abertos (REA).

O termo “recursos educacionais abertos” (open educational resources, em inglês, OER) foi adotado, pela primeira vez, durante um fórum da Unesco, em 2002. Trata-se do esforço de uma comunidade de educadores, políticos e usuários articulada para criar, reutilizar e propagar bens educacionais pertencentes à humanidade. Em 2007, foi publicada a Declaração da Cidade do Cabo para a Educação Aberta:

“Esse movimento emergente de educação combina a tradição de partilha de boas ideias com colegas educadores e da cultura da internet, marcada pela colaboração e interatividade. Esta metodologia de educação é construída sobre a crença de que todos devem ter a liberdade de usar, personalizar, melhorar e redistribuir os recursos educacionais, sem restrições. Educadores, estudantes e outras pessoas que partilham esta crença estão unindo-se em um esforço mundial para tornar a educação mais acessível e eficaz.”

Quando materiais didáticos e educacionais são considerados bens públicos e comuns, todos podem se beneficiar: professores, estudantes e autores interessados na utilização de sua produção. Quando tais materiais são pagos com dinheiro público, seja pelos programas de incentivo ao livro e à leitura ou por iniciativas próprias de governos produzirem materiais, faz ainda mais sentido que sejam bens públicos. E por incentivarem a produção aberta, o compartilhamento e o acesso a conteúdos, REA otimizam a utilização de recursos públicos.

Além de tais benefícios, os recursos educacionais abertos criam a oportunidade para uma transformação ainda mais fundamental na educação: a de ter educadores, estudantes e mesmo aqueles não formalmente vinculados a uma instituição de ensino envolvidos no processo criativo de desenvolver e adaptar recursos educacionais. Governos e instituições de ensino podem formar professores e alunos para a produção colaborativa de textos, imagens e vídeos de qualidade. É criado espaço para a formação continuada de professores e estudantes para a produção e edição de material didático e a apropriação de tecnologias digitais em seu cotidiano. Com a abertura dos materiais na rede, a possibilidade de formação continuada se expande a toda a sociedade.

No Brasil, nos últimos três anos, tanto governo federal como governo estadual e municipal de São Paulo começam a debater e criar leis visando o uso e o desenvolvimento de REA. O país também foi sede do Fórum Regional para a Declaração da Unesco, que convida governos do mundo todo a declarar que recursos educacionais financiados com recursos públicos devem adotar o modelo REA.

Um exemplo é o Plano Nacional de Educação (PNE) a ser votado este ano no Congresso Nacional e que estabelece diretrizes e metas para a educação no Brasil até 2020. Pela primeira vez, o PNE contempla o incentivo a REA dentro da meta 7, que foca a melhoria da qualidade por meio do aumento do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Ainda no âmbito federal, o Projeto de Lei 1513/2011 visa garantir que as compras públicas ou contratação de serviços e materiais educacionais sejam regidas por meio de licenças livres, permitindo a difusão e a ampliação do acesso a esses bens.

O Brasil não está sozinho no debate sobre políticas públicas de REA. Nos EUA, por exemplo, o presidente Barack Obama pretende acelerar o processo de inclusão digital em todas as escolas norte-americanas, propiciando que todos os estudantes tenham acesso a livros didáticos digitais até 2017 (ROSSINI e GONZALEZ, 2012). Além disso, abriu uma linha de financiamento de US$ 2 bilhões destinada a produção de REA em colégios comunitários (*19).


Novos modelos de negócio

Se a ampliação da disseminação de obras propiciada pela internet está promovendo uma revolução no acesso ao conhecimento, ao mesmo tempo esbarra nos interesses comerciais do mercado editorial. Nesse sentido, vale a pena remeter à situação da indústria fonográfica que tem saído na frente na direção de buscar reinventar-se com a proliferação do acesso online para música. Inúmeros artistas começam a olhar para esse cenário como uma oportunidade de divulgação e oferta de serviços derivados de seu produto, como por exemplo, o Teatro Mágico. O grupo, originário da cidade de Osasco, na Grande São Paulo, não se vincula a nenhuma gravadora, permite que o público baixe suas músicas na internet. Em entrevista à Revista Forum, Fernando Anitelli, um dos fundadores, conta que a fórmula deu tão certo que, mesmo com as canções podendo ser baixadas gratuitamente, seus CDs são vendidos às dezenas nos shows e suas turnês são cada vez mais requisitadas (*20).

Ao considerar o livro digital de uma perspectiva técnica econômica, podemos afirmar que a informação, uma vez produzida, pode ser oferecida com custo praticamente zero. É claro que a produção da informação, com todo o processo editorial que a acompanha, é cara e precisa ser devidamente remunerada e recompensada. Ou seja, o trabalho do autor que cria, produz ou desenvolve uma obra deve continuar sempre sendo remunerado. Mas é necessário criar novos modelos de negócio que deem conta desta necessidade sem restringir o acesso. Não é possível afirmar o que está por vir. Mas também não é possível negar que as mudanças estão se anunciando. Em vez de ameaça, o mundo digital pode oferecer uma oportunidade para o aumento do número de leitores e de livros publicados.

Uma editora norte-americana, a Flatworld Knowledge, já aprendeu a lucrar neste novo cenário. Pioneiramente, a editora implementou um novo modelo de negócio a partir do contexto da cultura digital, baseado no consumo sob demanda. Qualquer usuário pode ter acesso livre aos livros online, por meio de uma plataforma multimídia, que permite fazer leituras online e buscas no livro. No entanto, se o usuário deseja comprar o livro impresso, tem a opção de escolher se em cores ou preto e branco e ainda uma versão em áudio, guias e material de apoio.

No caso dos livros didáticos, a editora permite que o educador decida como quer utilizar o livro. Pode modificá-lo à vontade, alterar a ordem de capítulos, acrescentar ou retirar material, de uma forma que esse educador usuário desempenha um papel de editor do livro. Nossa experiência com formação de educadores nos últimos dez anos nos permite afirmar que todo professor gostaria de poder escolher partes de um livro para utilizar, como também a agregar a esses trechos outros materiais que julga interessante para compor seu plano de aula, ou seja, ser um receptor ativo de materiais educativos
que estão ao seu alcance. A empresa desenvolveu ainda uma comunidade de leitores dos livros, que podem conversar a qualquer momento, postar suas dúvidas online e produzir material de estudo. Nesse caso, como autor, o usuário determina o preço para disponibilizar sua produção para download.

Outra característica interessante desse modelo é que a porcentagem de direito autoral que os autores dos livros recebem é de 20% do preço de venda, bem acima da média do que é pago pelos modelos tradicionais. O lucro da empresa vem diretamente das vendas de livros impressos e em áudio, e também da venda de serviços (por exemplo, guias de estudo em podcast, exercícios, soluções animadas para problemas complexos, vídeos, flashcards etc.), que podem ser comprados individualmente (US$ 0.99) ou por assinatura semestral – US$ 19.95. Todos os autores recebem também 20% sobre esse
material comercializado.

Segundo Eric Frank, fundador da empresa, que esteve no Brasil em 2010 durante a Conferência Internacional Impacto das TIC na Educação, promovido pela SEED/Unesco, os custos que a empresa têm ainda são inferiores ao custo de manutenção de grandes editoras, que trabalham no modelo de distribuidores e representantes de vendas.

O argumento de que a cultura de compra sob demanda ainda não chegou para ficar no Brasil não combina com as recentes pesquisas. A e-bit divulgou os dados da 23ª edição do relatório WebShoppers21, com informações completas sobre o comércio eletrônico no Brasil em 2011 e mostra que os brasileiros estão comprando mais produtos pela internet.

O e-commerce nacional faturou 14,8 bilhões de reais no ano passado, com um aumento que superou a marca de 40%. Esse resultado, aliás, superou a previsão anterior da empresa, que considerava um faturamento de R$ 14,5 bilhões. Os argumentos podem ser sustentados por números: em 2010, foram feitos mais de 40 milhões de pedidos, divididos em uma base de aproximadamente 23 milhões de “e-consumidores” que gastaram, em média, R$ 373.

O caso da Flatworld ilustra como algumas iniciativas editoriais começam a se abrir para o novo. O contexto da cultura digital pede um novo olhar, ainda que, aparentemente, a forma de atuação em vigor esteja sendo eficiente e trazendo lucro. Os modelos de negócio bem-sucedidos também podem criar inércia.

Em entrevista à Revista Época em 2009, Yochai Benkler ressalta que as empresas que já estão preocupadas em olhar para seus consumidores como participantes ativos, certamente tem pela frente um vasto campo de oportunidades e não de riscos. Um clássico exemplo é o Google, uma companhia que já nasce longe da ideia de produzir produtos prontos e acabados para consumidores passivos.(*22)

Livro digital é um tema que merece ainda mais atenção do que vem recebendo por parte do mercado editorial brasileiro. Não se trata de pensar apenas no produto em si e esperar que ele revolucione. Estamos diante de um contexto complexo e exigente que pede releitura de conceitos para criar melhores serviços, compromisso de transformação social para promover o acesso e revisão de estruturas comerciais que permitam maleabilidade e adaptação constantes.


Ações e campanhas pelo livro digital

Algumas ações em prol dos livros digitais começam a surgir na rede. Uma delas é a “campanha” pela digitalização dos livros que oferece um banner para ser disponibilizado embedado em blogs e sites: http://www.ebookbr.com/2011/12/campanha-pela-popularizacao-dos-livros.html.

Outra iniciativa tem por objetivo tornar o livro acessível a portadores de necessidades especiais, apostando no potencial que o meio digital tem para favorecer essa causa: http://www.livroacessivel.org/.

A “Semana da Leitura Digital”, uma iniciativa da escritora canadense Rita Toews que existe desde 2004. Durante uma semana, que em 2012 ocorreu de 4 a 10 de março, autores e editoras oferecem milhares de livros grátis ou com grandes descontos, com o objetivo de encorajar os apaixonados pela leitura a descobrirem e experimentarem os livros digitais.: http://www.ebookweek.com/ (em inglês).

O grande destaque nesse cenário é o Projeto Gutemberg (http://www.gutenberg.org/), considerada a mais antiga biblioteca digital. Criada em 1971 por um estudante da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, foi sendo construída por voluntários de todo o mundo ao longo dos últimos anos, que mantém em uma plataforma wiki. Disponível também em português, o projeto hoje oferece uma página especial, com iniciativas remixadas a partir dos livros, todos em domínio público: http://www.gutenberg.org/wiki/PT_Reutilizar_os_textos_do_Project_Gutenberg


Citações

BENKLER, Yochai The Wealth of Networks: How Social Production Transforms Markets and Freedom. New Haven, Conn: Yale University Press. 2006. Disponível em: www.benkler.org/Benkler_Wealth_Of_Networks.pdf

__________________. Saber Comum: Produção de Materiais Educacionais entre Pares. Revista FACED, Salvador, n.15, jan./jul. 2009. Disponível em: http://

Acesso à entrevista completa:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT53938-15228,00.html

www.benkler.org/Benkler_Wealth_Of_Networks.pdf

CASTELLS. Manuel. A sociedade em rede. São Paulo, Paz e Terra, 1999.

________________. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 2003.

CHESBROUGHT, Henry. Modelos de Negócios Abertos. Bookman, 2012

FRIEDMAN, Thomas. O Mundo é um Plano, uma breve história do século XXI, Objetiva, 2005.

LEMOS, André. Materialidade dos Dispositivos